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Cinco momentos que explicam a rusga entre Olavo de Carvalho e Mourão

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O guro bolsonarista Olavo de Carvalho e o vice-presidente Hamilton Mourão Imagem: Reprodução

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

2019-04-19T04:00:00

2019-04-20T10:24:27

19/04/2019 04h00Atualizada em 20/04/2019 10h24

"Se prosperar, vou para a praia". Assim respondeu ontem o general e vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) ao ser questionado sobre o pedido de impeachment contra ele protocolado pelo deputado federal Marco Feliciano (Podemos-SP). Contradições com o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e um suposto comportamento conspiratório de Mourão foram alguns dos motivos suscitados pelo deputado para exigir sua destituição.

Nesta quinta, outro ator foi apontado como preponderante no atrito entre o general e o pastor. Personagem constante nos mandos e desmandos do governo, o guru bolsonarista Olavo de Carvalho teria participado da decisão de Feliciano sobre Mourão. A concordância de Carvalho com relação ao impeachment não causa estranheza, já que ele vem travando embates com Mourão desde a posse de Bolsonaro.

Apesar de Olavo de Carvalho ter negado sua influência na decisão, Marco Feliciano fez uma série de publicações em seu perfil no Twitter elencando as visões do escritor sobre o governo de Jair Bolsonaro, incluindo sua opinião sobre Mourão.

Veja a seguir cinco momentos do conflito.

Os livros que o vice não leu

Em um curto bastidor publicado pelo jornalista Guilherme Amado na revista Época, Mourão elencou as leituras às quais estava se dedicando no início do governo. Citou "Colony to Superpower", do norte-americano George Herring, e "Estado Fraturado", do articulista de direita Denis Rosenfield.

Questionado se teria lido obras de Olavo de Carvalho, Mourão emitiu apenas "um riso de deboche". Foi o bastante para uma série de ofensas proferidas pelo guru em suas redes sociais. "SÓ UM CHARLATÃO DESPREZÍVEL DEBOCHA DE LIVROS QUE NÃO LEU. É VOCÊ, MOURÃO", escreveu em um deles. Outro foi um pouco mais ácido: "O PRESIDENTE DA REPÚBLICA é o comandante geral das Forças Armadas. Você não comanda nem a sua boca, Mourão."

"Inimigo e competidor do presidente"

Confrontado pela imprensa com questões como o exílio do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) --que deixou o país após receber ameaças de morte-- e discriminalização do aborto, Mourão deu declarações que vão contra o que pensa a maior parte do eleitorado bolsonarista. Sobre Wyllys, disse que "ameaça é um crime contra a democracia"; sobre o aborto, afirmou que deve ser "um direito da mulher".

As declarações deixaram Olavo de Carvalho irritado. "Mourão dá ares de coisa séria às mentirinhas bobas do Jean Wyllys sobre as 'ameaças' que recebe", escreveu em seu Facebook, e completou: "Que é que falta para alguém entender que ele [Mourão] é INIMIGO E COMPETIDOR do presidente em vez de seu auxiliar?".

No mesmo dia, Carvalho publicou outro ataque, desta vez afirmando que o vice-presidente "se considera autoridade superior ao presidente por estar acima dele na hierarquia militar e maçônica". Naquele dia, Mourão era o presidente em exercício, enquanto Bolsonaro estava internado após uma cirurgia no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Beijinho de Mourão

Sobre críticas de Olavo de Carvalho, Mourão responde com 'beijinho'

UOL Notícias

"O maior erro da minha vida de eleitor foi apoiar o general Mourão. Não cessarei de pedir desculpas por essa burrada", escreveu Olavo de Carvalho no dia 6 de março, em mais uma de suas bordoadas em Mourão. O escritor ainda disse que Mourão "afaga os que odeiam o presidente e ofende os que o amam" e chamou-o de "extremista fanático".

Um dia depois, questionado sobre as críticas, Mourão ironizou: "Beijinho", disse, levando as mãos aos lábios e sorrindo para os repórteres.

Crise no MEC

O Ministério da Educação foi uma das pastas em que o guru teve mais influência. Indicado pelo guru, o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez privilegiou olavistas na pasta, mas sofreu resistência de outros setores.

Demitido após 97 dias, foi substituído por outro seguidor de Olavo de Carvalho, Abraham Weintraub. O guru chegou a afirmar que Weintraub "conhece melhor" as ideias dele do que seu antecessor, após negar que tenha influenciado na escolha do ministro.

Na época em que Vélez estava no comando, Mourão teceu duras críticas ao MEC. "Não se combate comunismo com comunismo de sinal contrário. Temos que saber enfrentar isso aí para mudar a cultura do nosso país", afirmou durante palestra para empresários na Fiergs (Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul), em março.

A fala soou como dirigida diretamente ao escritor, que invariavelmente classifica a educação brasileira como aparelhada "pelos marxistas". "Tem um cidadão que mora lá nos Estados Unidos, o Olavo de Carvalho, todos os dias ele me xinga. Ele é astrólogo, viu. Astrólogo da Virgínia [estado norte-americano onde ele vive]. Tenho que passar pra ele essa bola de cristal", disse Mourão na mesma palestra.

Bannon, o estrategista

Alan Santos/PR
Ao lado de Steve Bannon, presidente Jair Bolsonaro acompanha o discurso do embaixador brasileiro nos EUA, Sérgio Amaral Imagem: Alan Santos/PR
Conhecido por ter montado todo o estratagema da campanha de Donald Trump para as eleições presidenciais nos Estados Unidos, Steve Bannon não se acanha ao falar de Olavo de Carvalho.

Em uma entrevista publicada no canal Terça Livre, Bannon chamou o guru de "um dos maiores conservadores intelectuais do mundo" e de pregador do "evangelho da verdade". Coincidência ou não, Bannon já destinou parte de sua artilharia ao vice-presidente Mourão algumas vezes, deixando claro que não simpatiza com a figura do general.

"Ele [Mourão] se tornou uma voz dissonante e isso é perigoso. Há um nível relevante de frustração pelo fato de ele estar desalinhado com o programa do presidente Bolsonaro", disse à BBC, após um jantar em Washington que reuniu Jair e Eduardo Bolsonaro, além do ministro Ernesto Araújo, do Itamaraty, também indicado por Olavo de Carvalho. No mesmo encontro, classificou Mourão como "estúpido".

À Folha, Bannon foi ainda mais incisivo em relação ao que pensa de Mourão: "O vice-presidente está tentando mostrar que está preparado se Bolsonaro falhar. E isso não é aceitável. Não é aceitável por ser alguém do governo. Se quiser fazer isso, Mourão deveria renunciar amanhã de manhã e ir para a oposição", disse.

Errata: o texto foi atualizado
Ao contrário do que informava a reportagem, Marco Feliciano é filiado ao Podemos, não a PSC. A informação foi corrigida.

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