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Política

Kalil sobre denúncia de compra superfaturada: Bandido é quem tem medo de MP

Gabriel Toueg

Colaboração para o UOL, em São Paulo

14/06/2021 12h56

O prefeito de Belo Horizonte (MG), Alexandre Kalil (PSD), negou hoje que tenha recebido denúncias do então vereador Fernando Borja (Avante) sobre compra superfaturada de máscaras pela sua gestão.

"Não recebi nenhuma denúncia, isso é o do mandato passado", disse o prefeito durante o UOL Entrevista, comandado pela apresentadora Fabíola Cidral e com os jornalistas Leonardo Sakamoto e Josias de Souza.

"Se houve, [o responsável] vai para a cadeia. Esse moço [Borja] era meu inimigo mortal, nem é mais vereador. Quem tem medo de Ministério Público, de polícia federal, é bandido. Nunca chegou nenhuma denúncia", afirmou. "Realmente compramos máscaras. Nem foram 600 e poucas mil, não. Foram 2 milhões", disse ele.

A gestão de Kalil é investigada pelo Ministério Público Federal em Minas Gerais (MPF-MG) pela suspeita de compra de máscaras superfaturadas no início de maio. Segundo a denúncia de Borja, 630 mil máscaras teriam sido compradas pela prefeitura por R$ 3,88, embora, na mesma semana, o governo de MG teria comprado por R$ 1,89 a unidade de outra empresa. Ainda segundo a denúncia, Belo Horizonte teria comprado, de fornecedores diferentes, em um mesmo dia, máscaras por R$ 1,99 e R$ 3,88, quase o dobro do menor valor.

Questionado sobre como agiria diante da denúncia, Kalil disse se tratar de notícia falsa. "Tem que chegar [a denúncia], né? Qual denúncia? Isso é mentira, simples assim. Eu não fiz nada porque não recebi nada, nem do Ministério Público, nem da Polícia Federal, é fake news". O prefeito afirmou que a compra ocorreu e, embora não se lembre do valor pago, disse que era o valor praticado pelo mercado. "Teve a compra, em março do ano passado, foi a única coisa que compramos. Não lembro [preço], mas era o preço de mercado, eram máscaras de pano, em um momento muito crítico. Era coisa irrisória, R$ 1 milhão".

Segundo Kalil, no início da pandemia sua ordem foi a de barrar a compra emergencial de itens. "Quando começou a pandemia, a primeira ordem que eu dei foi que estava proibida a compra de um parafuso em contrato de emergência. Belo Horizonte não comprou um respirador [...] um kit de intubação. Belo Horizonte descobriu, antes dos outros, que quem salva vida é gente", disse. "Onde se combate a pandemia é dentro de hospital, onde tem estrutura pronta, não dentro de tenda".

Vacina: Sem promessas

Diante de anúncios de antecipação da vacinação por outros gestores, Kalil disse não poder fazer promessas. "A questão é a chegada da vacina, [...] eu, pessoalmente, só acredito quando [a vacina] chegar aqui na central da minha cidade. Eu acho que sem o Censo, que nem o de agora vai ser feito, e sem a certeza da [entrega] da vacina, é muito difícil fazer uma previsão".

O prefeito de BH disse, entretanto, considerar setembro "uma data muito razoável" para concluir a primeira dose da vacinação. "Não temos [em Belo Horizonte] problema de fila, não temos problema de congestionamento, não temos problema de redistribuição, temos capacidade para vacinar 30 [mil] a 40 mil pessoas por dia. O problema de Belo Horizonte não é conta, é vacina", afirmou. "Ninguém vai fazer milagre, ninguém vai [terminar de] vacinar antes de ninguém. Se tem vacina, nós temos uma rede de distribuição robusta, vai ser quando será."

Kalil disse não ter, como prefeito, autonomia para antecipar a imunização da população. "Se você me der esse caminho, eu vou antecipar e vacino até o mês que vem a população de Belo Horizonte. Eu prefiro dizer o seguinte: a vacina que chegar em Belo Horizonte, seja qual for, temos estrutura para colocá-la no braço da população, com muita tranquilidade". O prefeito disse que a cidade tem quase 200 postos de vacinação e defendeu que anunciar datas pode criar falsas esperanças.

É muito melhor você acompanhar o dia a dia da vacinação da sua cidade do que receber uma mentira na cara [...] e o político ficar com cara de mentiroso porque o IFA não veio, porque o avião quebrou, porque xingaram o embaixador, porque fizeram e aconteceram. Você não vai fazer nenhum grande plano do jeito que a vacina está chegando no Brasil.
Alexandre Kalil, prefeito de BH

Eleições 2022

Prefeito da capital mineira, Kalil disse nunca ter negado suas intenções de concorrer ao governo do estado em 2022. "Sou [pré-candidato], não neguei hora nenhuma, [mas] acho que tudo tem hora", afirmou. "Pré-candidato, sim, que vou sair com certeza, não sei. Não vou entregar essa cidade em pandemônio, isso não é meu estilo". Kalil disse ainda que, se fizer campanha na rua em BH, Bolsonaro será multado.

Como todo prefeito de uma capital, posso vir a ser candidato, sim. Mas como não gosto de passar por mentiroso, não dou essa certeza para ninguém e me dou o direito de guardar isso para mim, de acordo com o que eu achar no momento.
Alexandre Kalil, prefeito de BH

Kalil também comparou as ações do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que tem organizado "motociatas" em capitais brasileiras, ao fato de não estar fazendo campanha durante a pandemia. "Eu não saí da prefeitura, não dei um passo, não pude visitar uma creche, uma favela, fiz 16 centros de saúde e não saí para visitar nenhum", afirmou. "Só tomei uma dose [da vacina] por enquanto, vou tomar a segunda em julho". Segundo ele, "quem está fazendo campanha desesperadamente está arrancando empate", ao se referir tanto ao presidente como a Romeu Zema (Novo), governador mineiro.

'Hitler construiu uma nação'

Ao falar sobre o combate à pandemia, Kalil fez uma analogia com a Segunda Guerra Mundial. "Se a França e a Inglaterra tivessem escutado [o ex-premiê britânico Winston] Churchill em 1936, não teríamos a Segunda Guerra Mundial", disse. "Quando eu fechei Belo Horizonte, escutei do secretário-geral de Minas Gerais [Mateus Simões], em uma rádio de grande audiência em Belo Horizonte, a seguinte frase: 'Para que essa pressa?' Então, hoje, desvendado o quadro, lembrando que BH foi a primeira capital a fechar, estamos vendo que [o Brasil] não [foi] atrás da vacina como deveria ter ido".

O prefeito disse que não se pode comparar Bolsonaro ao ditador nazista Adolf Hitler. "Hitler construiu uma nação, quer queiram, quer não", disse. Ele afirmou que "não há nenhuma analogia" entre o que Hitler fez na Alemanha e o que Bolsonaro está fazendo no Brasil. "Estamos vendo uma economia que patina, um desemprego de 14%, [...] para ganhar uma guerra ou uma eleição, tem que fazer entrega e a entrega não foi feita", disse. "A entrega feita foi um desastre sanitário, que tomou conta de tudo".

"O que eu disse foi que não ouviram o que falaram no início de uma guerra, isso o Brasil [não] fez, não ouviu porque no dia 18 de março [de 2020], ou 19, eu avisei que íamos entrar numa guerra, que tínhamos que nos preparar para uma guerra quando fechei a cidade", defendeu o prefeito.

Copa América no Brasil

Kalil também falou sobre a polêmica realização da Copa América no Brasil. O prefeito não se posicionou contra o fato de o país abrigar os jogos em meio ao aumento de casos de covid-19, dizendo que "o jogo, em si, é muito pouco viral". Mas ele disse que Bolsonaro não deveria decidir a respeito do evento. "O presidente Bolsonaro não tem autoridade para trazer nenhuma competição esportiva para o Brasil. Quem tem autoridade é o prefeito, de falar 'aqui pode jogar a Copa América, aqui não pode'", afirmou.

"Muito mais importante do que não ter a Copa América é não deixar uma companhia aérea entupir um avião. Não é avião da Copa América, não, É avião da TAM, Gol, Azul, que estão vindo e indo entupidos de gente, sem ter o cuidado de separar pelo menos a cadeira do meio", declarou. Mas o gestor afirmou que "a Copa América podia [ter sido] evitada. Vieram 15 [jogadores] venezuelanos contaminados para o Brasil".

Kalil chamou de "demagogia" o fato de o Campeonato Brasileiro ser realizado e a Copa América suscitar essa polêmica. "Ou pode, ou não pode", afirmou. "Como fazer um Campeonato Brasileiro, onde todo mundo topou?", perguntou. "Desse cinismo e dessa demagogia que eu não participo, e de futebol eu entendo". Kalil foi dirigente do Clube Atlético Mineiro. Segundo ele, não se pode comparar o evento esportivo com "transporte público, festa clandestina, não seria justo".

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