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Marina: Forças Armadas se prestarem a uso político e simbólico é deplorável

A ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva - UOL
A ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva Imagem: UOL

Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

17/08/2021 04h00

A melhor parte do dia de Marina Silva é a manhã — quase o fim da madrugada. A ex-ministra do Meio Ambiente diz levantar da cama às 4h30, todos os dias — hábito que criou ainda quando trabalhava no seringal —, para ter tempo de arrumar o café da manhã e aproveitar "o silêncio que favorece" a leitura dos livros que está lendo.

Uma das obras da vez é "O mal-estar na civilização", de Sigmund Freud. Em entrevista ao UOL, Marina se baseia no escrito do fundador da psicanálise para analisar o cenário ambiental e político no Brasil de hoje.

Se estamos falando de Freud, não é retrocesso. O caso aqui é uma regressão. No caso do governo Bolsonaro, é voltar a um estágio anterior, ao ponto a partir de que avançamos a duras penas em diferentes governos."
Marina Silva

Marina Silva começa classificando como "deplorável" o desfile de tanques de guerra protagonizado pelas Forças Armadas no dia em que a Câmara dos Deputados votou a PEC do voto impresso.

"As Forças Armadas se prestarem politicamente e simbolicamente ao que aconteceu é deplorável. Já é um atentado à democracia", avalia.

O Bolsonaro está tentando fazer o golpe no varejo, desmoralizando a democracia, desmoralizando os veículos de comunicação, desmoralizando as leis, desmoralizando a lógica da autonomia entre os Poderes. Ele quer mostrar que o símbolo da força, das armas, está ao lado dele."
Marina Silva

Apesar de apelidar Bolsonaro de "golpista convicto", a ex-candidata à Presidência descarta que haja espaço para um golpe militar no país.

"Não há lugar para ditadura no Brasil, nem internamente nem em contexto das democracias ocidentais. Se [o ex-presidente estadunidense, Donald] Trump tivesse ganho, poderia ter algum tipo de suporte. Mas, hoje, isso não tem suportes e as consequências seriam drásticas para os interesses econômicos e sociais", analisa.

"As tentativas que vão sendo feitas não tem aderência na maioria da sociedade, no setor empresarial, nem no mundo ocidental. A resistência das instituições democráticas tem sido exemplar. O Congresso às vezes de forma retórica", disse Marina Silva, que criticou o presidente da Câmara, Arthur Lira, por dar vazão aos arroubos antidemocráticos de Bolsonaro.

Atualmente, Marina defende o fim da reeleição. "No Brasil com a reeleição, tivemos retrocesso terrível. As pessoas focam em ganhar a próxima eleição. A presidente Dilma [Rousseff] não fez o que poderia fazer na crise de 2008 para ganhar a eleição de 2010. E assim tem acontecido".

O prejuízo é debitado para a sociedade. Só sem reeleição podemos democratizar a democracia, não fazer dela algo que possa ser manipulado por alguém que queria permanecer no poder." Marina Silva

A ex-ministra tem se colocado como uma das representantes da chamada "frente ampla", ideia de setores políticos de ter um candidato antagônico ao ex-presidente Lula (PT) e a Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. Marina aproveita para criticar Bolsonaro e, também, distribuir alfinetadas ao PT e ao PSDB, mas não respondeu se será candidata à Presidência em 2022.

"Eu estou contribuindo como candidata a que a gente tenha um Brasil melhor na saúde, na educação e no combate às desigualdades sociais", afirma.

O PT e PSDB precisam fazer uma autocritica não só sobre questões éticas, mas também sobre o fato de terem ficado tanto tempo no poder após a reconquista da democracia e não terem sido capazes de estabilizar um procedimento das Forças Armadas de completo respeito à Constituição, por exemplo."
Marina Silva

Para a ex-senadora, é impossível pensar em um projeto de país sem levar em conta ações de preservação do Meio Ambiente, pauta de domínio e militância da historiadora e ambientalista.

"Freud usa o termo de prepotência da natureza. Enfraquecemos essa prepotência nos favorecendo. Usamos e desenvolvemos energia para aumentar o abastecimento de uma população que saiu de um bilhão de pessoas para sete bilhões. Mas a produção dessa energia vem de combustível fóssil, aumenta consumo, produtos e materiais. Agora, é prejuízo para economia, para a vida e para a nacionalidade de muitos povos no Brasil".

Ela conclui dizendo que o Brasil segue no caminho contrário da preservação da natureza.

"Nosso país passa um vexame. Ter uma política de mais expansão predatória da fronteira agrícola, de estímulo que essa expansão predatória avance. A PL da Grilagem é exemplo. Em lugar de mudar a lei para combater o crime, eles vão mudar a lei para deixar em conformidade com criminosos e ainda premiá-los".

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