'Ainda Estou Aqui' retomou debate sobre mortos na ditadura, diz pesquisador


24/03/2025 05h30
Trinta e cinco anos após a descoberta da Vala de Perus, com ossadas de vítimas da ditadura militar (1964-85) em São Paulo, o governo brasileiro vai pedir desculpas a familiares de desaparecidos políticos. O gesto será feito hoje pela ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, no Cemitério Dom Bosco, na zona norte da capital. Apesar disso, o processo de identificação de vítimas de violência do Estado ainda enfrenta desafios.
O que aconteceu
O pedido de desculpas do governo é pela negligência do Estado na identificação desses restos mortais. "Esse pedido chega com o atraso de 35 anos", afirma Edson Teles, vice-coordenador do Caaf (Centro de Antropologia e Arqueologia Forense), da Unifesp, responsável pelo trabalho de identificação.
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A Vala de Perus foi descoberta em 1990. Criada em 1975, recebeu mais de 2 mil corpos, todos enterrados em áreas destinadas a indigentes. Segundo Teles, além de opositores da ditadura, possivelmente também havia ali pacientes de hospitais psiquiátricos, crianças afetadas pela epidemia de meningite e vítimas de violência policial — pessoas que, como ele define, "pouco importavam para o Estado brasileiro".
Para Edson Teles, o pedido é "um momento importante para o país". No entanto, não pode ser algo isolado. "Precisa ser acompanhado de medidas concretas para a identificação da história de todos os desaparecidos políticos da ditadura, como é o caso de Rubens Paiva", defende. "Bem como de ações que mudem a realidade brasileira de seguir até os dias atuais produzindo desaparecidos, muitos deles por violência policial ou pela negligência do próprio Estado."
Paralisado em 2020, trabalho foi retomado no final do ano passado. A identificação das ossadas da Vala de Perus foi interrompida após cortes de verba do governo Jair Bolsonaro (PL). "Após a mudança de governo, foi preciso aguardar um ano e meio para a retomada do financiamento, que só ocorreu em setembro de 2024", conta Edson Teles.
A paralisação do financiamento prejudicou o trabalho e ampliou a angústia dos familiares. "A sensação de perda da esperança aumentou muito nesse período", afirmou Teles. Muitos parentes envelheceram e morreram sem respostas sobre seus familiares.
Mesmo sem recursos, a equipe conseguiu finalizar a primeira fase de análise. Nela foram identificadas as ossadas de 951 indivíduos e enviadas as amostras deles ao laboratório holandês ICMP (International Commission on Missing Persons), responsável pela comparação genética.
Com a retomada dos recursos, iniciou-se a etapa de "reassociação". O trabalho é para identificar os ossos misturados entre os restos mortais analisados. Segundo Edson Teles, 26% das 1.049 caixas catalogadas contêm ossos de diferentes indivíduos. "Essa fase, que deve se encerrar em agosto, inclui a seleção de amostras viáveis para extração de DNA e envio ao ICMP", explica.
Brasil vive momento decisivo na busca pelos desaparecidos políticos. "Após o relatório da Comissão Nacional da Verdade e os anos de um governo [de Jair Bolsonaro] que negava a história da ditadura, a memória desse período ficou sob risco de apagamento", afirma Edson Teles. Para ele, a conjuntura atual reacendeu o debate, impulsionado pelo filme "Ainda Estou Aqui" e pelas investigações sobre os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Reconhecimento oficial da negligência estatal é importante, mas não garante a continuidade do trabalho. "Não há uma política de Estado permanente para esse tipo de investigação. Aprendemos com o governo anterior que as pesquisas podem ser interrompidas a qualquer momento", alerta o pesquisador.
Além da Vala de Perus, outras demandas têm surgido para o Caaf. É o caso da busca por desaparecidos da Guerrilha do Araguaia e do cemitério de Ricardo Albuquerque, no Rio de Janeiro, conta Teles. Além disso, desaparecimentos recentes, especialmente de jovens negros das periferias, continuam sem resposta.