A ordem do fluxo

Após prisões, traficantes se impõem na "cracolândia" em SP e apresentam nova rotina nos quadriláteros da Luz

Peu Araújo Colaboração para o UOL
27.ago.2019 - Danilo Verpa/Folhapress

O fluxo da região classificada como "cracolândia", no centro da cidade São Paulo, apresenta seu habitual movimento na noite da sexta-feira, 30 de agosto.

É uma região que flutua entre as estações ferroviárias da Luz e Júlio Prestes e a avenida Rio Branco, no eixo noroeste da região central de São Paulo. Desde os anos 1990, as ruas mudam, mas o consumo e tráfico de drogas continuam operando entre as antigas alamedas do outrora nobre Campos Elíseos. Desde o desmonte das estruturas que recebiam os que chegavam à capital paulista —entre elas, uma antiga estação rodoviária—, os dias nesse eixo são assim.

Um emaranhado de barracas, pessoas e lixo se aglomera na esquina da alameda Cleveland, próximo a uma das entradas da estação da Luz. As pessoas, vulneráveis devido à situação de pobreza e de consumo excessivo de drogas, vão e voltam desse local. Já passaram por outras vias, como a Dino Bueno e a General Osório, e agora estendem seu tapete de lonas e plásticos sobre este trecho.

Na rua Helvétia um homem na faixa dos 40 anos, sem camisa sob a temperatura de 23ºC daquele dia, explica aos berros o que, segundo ele, é o recado do novo "comando".

"Respeita o traficante e respeita o usuário. A ordem do fluxo agora é essa.

Naquela sexta, completavam-se oito dias desde a detenção de 17 suspeitos de tráfico em uma operação com 560 agentes de segurança liderados pelo Denarc (Divisão de Narcóticos). As lonas, no entanto, haviam sido estendidas novamente.

As duas idas da reportagem ao local aconteceram em meio à especulação de uma mudança de endereço do "fluxo" para uma região entre os metrôs Armênia e Tietê na zona norte de São Paulo. Especialistas e frequentadores da região da Luz têm batido na tecla de que a Cracolândia não é apenas um espaço físico, mas um conjunto de pessoas que transitam pelo centro da capital paulista.

O comércio de drogas mudou de mãos na "cracolândia" e as primeiras ações do novo "comando" estão visíveis. Dentro da Unidade de Atendimento Emergencial, o Atende, da rua Helvétia cinco rapazes espancam um homem que tenta sair das instalações da Prefeitura de São Paulo.

O Centro de Acolhida Emergencial para Adulto, o nome oficial do Atende, dá assistência para a população em situação de rua na região com banho, alimentação, bebedouro, pernoite, área de convivência, ligações para retorno familiar, internações, guarda de documentos e exames, segundo a prefeitura.

Mas, naquele dia, um dos presentes, com a camisa número 7 do PSG, com o nome de Mbappé nas costas, empurra um dos atendidos. Outro o derruba no chão e começa a chutá-lo.

A vítima, que protege o rosto, é chutada mais vezes pelos rapazes que não poupam xingamentos. Eles, que não tinham nenhuma identificação ou crachá de funcionários, fecham o portão e não permitem a entrada e nem a saída de ninguém do espaço.

Na terça-feira seguinte, no mesmo local em que um homem foi agredido, a reportagem presencia um homem de roupas limpas, relógio e óculos escuros fumando um cigarro de maconha a poucos metros de dois seguranças.

Procurada, a Prefeitura de São Paulo, por meio de sua Secretaria de Comunicação, afirmou que o uso de drogas é proibido em suas dependências, e a cena vista pela reportagem será apurada.

Ao lado de uma das entradas da estação Júlio Prestes, dezenas de barracas improvisadas ocupam o espaço da praça na alameda Cleveland. Lá funcionam os escritórios ou feira livre do crack.

Homens e mulheres que não aparentam o consumo de ilícitos sentam-se atrás de mesas e vendem as pedras de tamanhos variados, geralmente expostas em cima de pratos brancos. É comum ver também balança de precisão para a pesagem e pequenas lâminas de barbear para fatiar o tablete amarelado.

Em meio às barracas de lona onde a droga era cortada, pesada e vendida livremente, facas e porretes jaziam em cima das mesas. É um sinal de mudança de comportamento: a exposição desses objetos era evitada.

"O clima está bem tenso essa semana", diz uma fonte que pediu para ter a identidade preservada. Ela afirma que no dia 23, um dia após a ação policial que apreendeu 21 kg de drogas, os traficantes criaram espécie de escritórios, com mesas em meio ao fluxo. Pedras de crack de tamanhos variados estavam expostas em pratos brancos, ao lado das balanças de precisão.

As "peças" (armas) ostentadas não eram costume do tráfico da região da Luz.

"Não era comum eles ficarem com as armas expostas. Outro dia tinha um cara com uma [espingarda calibre] 12 lá no meio.

O lugar que protege contra a chuva costuma ser quente e abafado. A fumaça das tragadas de pedra fica mais evidente. Os fios que seguram a barraca estão a cerca de 1,50 do chão —é praticamente impossível circular pelo espaço de pé.

Ali, meio agachados, meio abafados e na névoa da fumaça, homens, mulheres e adolescentes entram e saem com notas amassadas. Um usuário com as mãos sujas segura uma nota de R$ 10 e uma de R$ 5. Na outra mão, carrega seu cachimbo artesanal.

Logo na saída da feira, um homem de barba longa e branca confecciona os cachimbos artesanalmente com pequenos objetos de alumínio, como antenas de carro.

Um homem que vende drogas no local exibe em sua mesa, ao lado de uma barra de crack de quase um quilo, uma reluzente munição de fuzil e um pequeno chaveiro em formato de metralhadora. Outro rapaz conta um maço de dinheiro e o coloca numa sacola de mercado enquanto um usuário passa com uma grande caixa de som em volume alto.

A cocaína voltou a ser vendida —antes, era vetada pelos donos do pedaço. Pinos e saquinhos com o pó branco estavam organizadamente empilhados diante de dois traficantes. Apesar das prisões da semana anterior, o tráfico de drogas continuava.

Nas duas tardes em que a reportagem permaneceu na região conhecida como "cracolândia", foram avistados dois seguranças e três assistentes sociais. Segundo a prefeitura, os funcionários do Atende estão todos identificados —se algum deles estivesse sem identificação, por exemplo, estaria descumprindo a orientação da secretaria.

De acordo com informação da gestão Bruno Covas (PSDB), a unidade do Atende tem 200 vagas e funciona das 8h30 às 19h, com portas abertas e, após o fechamento do portão principal, são iniciados os atendimentos de pernoite, com entrada a partir das 19h.

Nesses casos, a equipe de orientadores fazem abordagens no sentido de inibir o uso de substâncias psicoativas dentro do serviço. Os conflitos entre moradores de rua e usuários são intermediados por esses funcionários.

A meta do município é reduzir em 80% o número de usuários de drogas em logradouros públicos na região da Luz, oferecendo 600 novas vagas além das existentes. O orçamento previsto até 2020 para o projeto, conhecido como Redenção, é de R$ 276,1 milhões.

A droga feita com a mistura da pasta da coca ou cloridrato de cocaína com bicarbonato de sódio deu nome à região da Luz, e a "cracolândia" (o grupo de usuários da droga) é alvo de operações policiais há pelo menos duas décadas.

Em janeiro de 2012, uma ação do governo estadual, chefiado à época por Geraldo Alckmin (PSDB), tentou acabar com a concentração de pessoas na região e os usuários de crack se espalharam pelo centro de São Paulo. Em maio de 2017, o prefeito e atual governador João Doria (PSDB) também tentou tirar o "fluxo" da região da Luz. À época, ele chegou a anunciar o fim da Cracolândia, mas a população apenas se locomoveu cerca de 400 metros até a praça Princesa Isabel.

Da ação de 2017 até agora, pelo menos quatro edifícios foram construídos nas imediações e num olhar mais distante, quase é possível ignorar a presença de centenas de pessoas e do consumo desenfreado de drogas na região. Mas o resgate das almas que circundam aqueles quadriláteros, como o nome do programa municipal sugere, continua distante.

27.ago.2019 - Danilo Verpa/Folhapress

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