"Agora corre, vagabunda"

Jovem afirma que foi xingada e levou garrafada de policial em ação que deixou nove mortos em Paraisópolis

Alex Tajra Do UOL, em São Paulo
Danilo m Yoshioka/Estadão Conteúdo

Quando olhei de novo para o policial, a garrafa veio no meu rosto, uma garrafa de vidro de uísque. Coloquei a mão na cabeça e fiquei muito assustada quando vi aquela quantidade de sangue. Jorrava sangue da minha cabeça. (...) Eu levei 50 pontos no rosto. Meu problema maior foi no rosto, por causa dos cortes da garrafa. Eu tenho que ficar em casa, não posso sair, não posso receber nenhuma visita para não correr o risco de pegar algum tipo de infecção.

O relato acima é de I.S., 17, que na madrugada de sábado para domingo mudou seus planos para ir ao baile da DZ7 em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. As viaturas da Polícia Militar são corriqueiras no 'fluxo', e o mantra de alguns frequentadores é que "a bomba chega antes da polícia". Naquela noite gelada, não foi diferente.

PMs arremessaram bombas, encurralaram os que estavam no baile e, em meio a episódios ainda sem esclarecimento, a ação terminou com nove mortos e diversos relatos de agressão.

A corporação, a secretaria da Segurança Pública e o governo do Estado de São Paulo endossam a versão dos policiais militares que atuaram naquela madrugada: dois homens circulando pela avenida Hebe Camargo em uma moto teriam atirado nos policiais, que não revidaram, chamaram reforços e decidiram adentrar a multidão para persegui-los.

Os agentes que trabalharam naquela noite citam "vários disparos" no boletim de ocorrência registrado no 89º DP. A jovem ouvida pelo UOL e outros frequentadores, no entanto, não relataram tiros e nem se lembram de qualquer perseguição dentro do baile.

Dias depois, o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) de São Paulo afirmou que os policiais alteraram a cena do crime ao retirarem os corpos dos jovens mortos e levarem para hospitais próximos. As vítimas tinham entre 14 e 23 anos. Sete delas morreram no local. "O que houve ali foi um massacre", afirmou o advogado Dimitri Sales, presidente do Condepe, durante entrevista coletiva.

Abaixo, o depoimento de I.S. ao UOL.

TIAGO QUEIROZ/ ESTADÃO TIAGO QUEIROZ/ ESTADÃO

"Pessoas queriam se salvar"

"Cheguei em Paraisópolis por volta da meia-noite, e não desci direto para o baile. Fiquei na rua de cima, e deu para ver as viaturas. Nisso, subiu um monte de gente correndo. Como a rua ainda estava um pouco vazia, uma viatura conseguiu entrar no meio do baile. Isso aconteceu três ou quatro vezes durante a noite.

A polícia entrava e saía, e nesse meio tempo o baile voltava ao normal. Na última vez que a polícia entrou, eles fecharam as duas pontas da rua. Foi todo mundo para o beco achando que daria para sair.

No beco, uns se jogavam em cima dos outros porque os policiais estavam arremessando coisas contra as pessoas. Quem conseguiu entrar em algum comércio entrou, quem não conseguiu teve que correr para essa viela.

Os policiais fecharam o beco, eu estava no começo da fila, de frente para eles. Ao mesmo tempo que os policiais queriam que a gente saísse, eles fecharam o beco e começaram a arremessar bombas e tudo que eles viam pela frente na gente.

Ninguém mais descia, o beco estava lotado, tinha gente desmaiando, gente pedindo socorro, gente pisoteada. Gente que pulava em cima porque os policiais estavam jogando coisas e essas pessoas queriam se salvar.

Os policiais mandaram a gente por a mão na cabeça e sair correndo da viela. Saí correndo com meu namorado, mas, no caminho, ele começou a apanhar de um policial. Foi nessa hora que vi uma menina também sendo agredida por um policial. Quando o policial parou de bater, ela foi pisoteada por quem estava passando ali".

TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO CONTEÚDO TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO CONTEÚDO

"A garrafa veio no meu rosto"

"Fui ajudar essa menina, ela disse que tinha perdido o tênis e abaixou para procurar. Ela achou o tênis, levantou, e eu vi um policial parado com uma garrafa na mão.

Virei para ela e falei: 'abaixa a cabeça que o policial está com uma garrafa e acho que ele vai tacar na gente.' Quando olhei de novo para o policial, a garrafa veio no meu rosto, uma garrafa de uísque de vidro.

Nesse momento eu comecei a sangrar, coloquei a mão na cabeça e fiquei muito assustada quando vi aquela quantidade de sangue. Jorrava sangue da minha cabeça. Eu estava com duas blusas de frio, tirei uma delas e coloquei na cabeça. Nessa hora o policial que jogou a garrafa me disse: 'Agora corre, vagabunda'.

Corri muito, pedindo socorro. Eu estava ficando zonza porque tinha perdido muito sangue. Enquanto eu estava correndo e sangrando, os policiais me batiam com o cassetete pelas costas. Eu estava sozinha, meu namorado saiu correndo na hora em que eu fui ajudar a menina.

Eu estava quase desmaiando, pedia ajuda, e os policiais continuavam me batendo. Em nenhum momento eles me socorreram.

Uma menina que eu não conhecia me ajudou e me levou até o AMA [Assistência Médica Ambulatorial] de Paraisópolis, de lá fui para a UPA [Unidade de Pronto Atendimento], depois para o hospital Campo Limpo. Na segunda-feira depois do baile também fui para um outro hospital perto da minha casa."

André Lucas/UOL André Lucas/UOL

"Minha mãe não me reconheceu"

"Enquanto as enfermeiras me ajudavam na AMA, eu ouvia mais gente chegar: uma menina que tinha tomado um tiro, outro que tinha levado uma garrafada, gente que foi pisoteada.

Consegui falar com a minha mãe somente quando cheguei na AMA. Quando ela chegou, eles não deixaram ela me ver. Eu tomei os pontos, já estava um pouco melhor e desci para fazer os exames. Fiz vários, inclusive tomografia. Minha mãe, quando me viu, não me reconheceu. Não achou que era eu, ela só me reconheceu pela roupa.

Levei 50 pontos no rosto por causa dos cortes da garrafa. Eu tenho que ficar em casa, não posso sair de casa, não posso receber nenhuma visita para não correr o risco de pegar algum tipo de infecção."

Antes desse baile, eu confiava na polícia. Agora não mais.

I.S., 17 anos

Danilo Verpa/Folhapress Danilo Verpa/Folhapress

Nem perseguições, nem tiros

De acordo com a primeira versão apresentada pelos policiais militares, os nove jovens mortos naquela madrugada foram pisoteados. A segunda, da Polícia Civil, diz que não há elementos suficientes para explicar suas causas. Nesta semana, o Ministério Público de São Paulo citou os crimes como homicídios, mas tirou a responsabilidade dos PMs e afirmou que a Promotoria fará investigação criteriosa.

Atestados de óbito de quatro dos nove jovens apontam as causas das mortes por asfixia e trauma na medula. Familiares de algumas das vítimas estranham o fato de não haver marcas esperadas por pisoteamento —como feridas ou sangue, o que colocaria em xeque a primeira versão policial.

Na terça-feira (3), vieram a público imagens (veja abaixo) que mostram os seis primeiros policiais envolvidos na ocorrência chegando em Paraisópolis. Ao fim da operação, 38 policiais militares se envolveram na ocorrência.

Pelas imagens divulgadas, captadas por câmeras de segurança, a entrada dos policiais no local ocorre sem tiroteio, o que contraria a versão dada pela polícia para justificar a ação.

Frequentadores do baile também negaram que tenha ocorrido tiroteio e afirmam que os policiais militares entraram na favela para dispersar o baile.

RENATO S. CERQUEIRA/ ESTADÃO CONTEÚDO RENATO S. CERQUEIRA/ ESTADÃO CONTEÚDO

PMs foram afastados das ruas

Desde a última segunda, seis policiais militares do 16º BPM (Batalhão da Polícia Militar) que estiveram envolvidos na operação em Paraisópolis estão afastados do serviço operacional. Em depoimento prestado à Polícia Civil e à Corregedoria da PM, eles afirmaram que fizeram "uso moderado da força".

Os policiais alegam que, durante a suposta perseguição, houve correria provocada pelos criminosos. Mesmo alvos de tiros, garrafadas e pedradas, ainda segundo o relato dos PMs, foram eles quem ficaram no local e socorreram as vítimas.

"Havia um grande número de pessoas descontroladas, sendo necessário uso moderado da força com emprego de cassetete e munição química", afirmou um dos policiais, de acordo com os depoimentos lidos pela reportagem.

Eles, no entanto, não justificam os vídeos que repercutiram entre domingo e segunda-feira que flagraram PMs afunilando os frequentadores em uma viela e agredindo jovens, já rendidos, com socos, pisadas, chutes e cassetetes.

Os PMs João Paulo Vecchi Alves Batista, Rodrigo Cardoso da Silva, Antonio Marcos Cruz da Silva, Vinicius José Nahool Lima, Thiago Roger de Lima Martins de Oliveira e Renan Cesar Angelo foram alocados ao serviço administrativo.

Segundo o comandante-geral da PM, coronel Marcelo Vieira Salles, "os policiais não estão afastados, estão preservados. Temos que concluir o inquérito. Não haverá como condená-los antes do devido processo legal. Seguirão em serviços administrativos, no horário deles, fazendo outras coisas".

O ouvidor das polícias, Benedito Mariano, no entanto, esclarece que a medida é, sim, um afastamento. "Os policiais foram afastados para o serviço administrativo. Uma prática que ocorre normalmente. Por exemplo: quando há morte decorrente de intervenção policial, é quase automático que o PM seja afastado das ruas até a finalização da investigação", afirmou.

26.nov.2019 - Igor do Vale/Altaphoto/Estadão Conteúdo 26.nov.2019 - Igor do Vale/Altaphoto/Estadão Conteúdo

Doria elogiou ação da PM

Em entrevista coletiva concedida na segunda (2), o governador João Doria (PSDB) defendeu a ação da PM na operação em Paraisópolis. Ele teceu elogiou aos policiais do estado e afirmou que a política de segurança não irá mudar.

"A letalidade não foi provocada pela PM, e sim por bandidos que invadiram a área onde estava acontecendo baile funk. É preciso ter muito cuidado para não inverter o processo", disse Doria.

Doria declarou ainda que o estado São Paulo "tem o melhor sistema de segurança preventiva", mas "isso não significa que não seja infalível". A ação em Paraisópolis ocorre menos de uma semana após o governo do Estado ter divulgado as metas de segurança pública da gestão Doria. As metas não determinam objetivos para reduzir a letalidade policial.

Em nota enviada à reportagem, a secretaria da Segurança Pública de SP afirmou que "todas as circunstâncias da ocorrência deste final de semana em Paraisópolis são apuradas por meio de inquérito conduzido pela Corregedoria da Polícia Militar. O DHPP também instaurou inquérito policial, vítimas e testemunhas serão ouvidas."

DANILO M YOSHIOKA/ ESTADÃO CONTEÚDO DANILO M YOSHIOKA/ ESTADÃO CONTEÚDO

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