Um ano perdido?

Gente que parou, quem parou só um pouco e os que não pararam dizem como foram os 12 meses de quarentena

Vinicius Konchinski, Carlos Madeiro e Rosiene Carvalho Colaboração para o UOL, em Curitiba, em Maceió e em Manaus Keiny Andrade/UOL

A professora Verônica Martins Cannatá acordou e não saiu de casa às 6h para chegar às 7h no colégio em que dá aulas, a costureira Ana Célia da Silva não recebeu nenhuma encomenda, e a ida da estudante Karol Emmanoelle Souza para a Ásia emperrou.

Era 24 de março de 2020 e São Paulo parou —assim como acontecia em outros lugares no mundo. Todos os serviços e atividades não essencias foram interrompidos, em uma tentativa de conter o avanço da pandemia do novo coronavírus. No dia em que a quarentena foi anunciada (21 de março), o estado mais rico do país somava 396 casos e 16 mortes por covid-19.

Elas achavam que ficariam em casa por duas semanas. Um ano depois, as restrições são piores —São Paulo está na fase emergencial— e o número de mortes no país se aproxima dos 300 mil.

Afinal, foi um ano perdido? Veja o que aconteceu na vida de seis pessoas nesse período.

Quando você restringe a circulação das pessoas, você restringe a circulação do vírus. É natural. Agora, é preciso saber dosar esse isolamento. Quarentenas muito longas tendem a não ser tão respeitadas.

Fernanda Maffei, médica infectologista da Santa Casa de São Paulo

Bruno Kelly/UOL Bruno Kelly/UOL

"Só falto chorar"

Waldenilson Garcia Martins, 59, tinha um centro de reforço escolar em Manaus. Atendia cerca de 100 estudantes e empregava dez professores. Mas, na quarentena, os alunos sumiram, com medo de contaminação e para reduzir gastos. Waldenilson não conseguiu adaptar seu negócio ao ambiente virtual, se desfez de bens e foi morar em um sítio.

Hoje, cuida de galinhas e de uma plantação de cupuaçu. Vive da venda de ovos e da polpa da fruta amazônica. "Dá um salário mínimo. Antes, tinha orçamento mensal de R$ 25 mil a R$ 35 mil", disse.

O empresário até hoje recebe ligações de professores atrás de trabalho. "Só falto chorar. Ainda não conseguiram recompor o sustento."

A pandemia traz frustrações para todos. Uma viagem cancelada, uma demissão ou até a morte de um ente da família. Isso pode abalar a saúde mental da população como um todo.

Sarah Faria Abrão Teixeira, psicóloga e conselheira do CRP-SP (Conselho Regional de Psicologia de São Paulo)

Beto Macário/UOL

Planos adiados

O sonho de Karol Emmanoelle Souza, 32, de estudar gastronomia no exterior foi barrado pela pandemia. Às vésperas de embarcar, de Maceió, restringiram as viagens. "Iria em abril de 2020. Passaria um ano na Tailândia. Quando estava quase tudo pronto, começaram a fechar tudo. Me desesperei", lembra.

Sem a viagem para a Ásia, ela resolveu então tentar algo mais próximo. No fim do ano passado, começou a estudar medicina em uma universidade argentina, a distância. As aulas presenciais estão programadas para começar em maio, mas a segunda onda da pandemia pode ser um novo empecilho. "Quando decido tentar de novo, fico impedida. Só Deus sabe quando eu vou conseguir", lamenta.

O incontrolável é algo difícil de lidar. Na pandemia, você não controla mais seus projetos. Muitos deles são cancelados. Você se sente desamparado.

Sarah Faria Abrão Teixeira, psicóloga e conselheira do CRP-SP

Ricardo Borges/UOL Ricardo Borges/UOL

Mãos à obra

O fechamento do comércio praticamente paralisou o trabalho de José Luiz Ribeiro de Oliveira, 53, de São Gonçalo (RJ). Ele vende cartões para que empresas presenteiem funcionários que atingem metas de desempenho. "Com tudo fechado, as vendas caíram e ninguém batia meta de nada. Meu ganho mensal caiu de R$ 7 mil para R$ 400", contou.

Parado, ele então resolveu tirar do papel um projeto de reforma da casa de seus filhos, em Rio das Ostras (RJ). "Sou daqueles do 'faça você mesmo'. Fiz uns projetos num aplicativo, bolei uma lista de compras e coloquei a família para ajudar. Reformamos telhado, jardim, fizemos móveis", disse ele, que encontrou algo positivo na quarentena.

Não foi só Oliveira que investiu em obras. As vendas de ferramentas cresceram 30% de 2019 para 2020 impulsionadas por consumidores que resolveram fazer reformas por conta própria durante a quarentena, segundo a loja de material de construção Leroy Merlin. Equipamentos de carpintaria e jardinagem foram os mais vendidos.

Keiny Andrade/UOL Keiny Andrade/UOL

"Sei que sou privilegiada"

A rotina pré-quarentena da professora Verônica Martins Cannatá, 46, era cronometrada:

  • acordar às 5h,
  • sair de São Bernardo do Campo (SP), onde mora, às 6h,
  • começar a trabalhar às 7h num colégio particular de São Paulo,
  • sair de lá no fim do dia direto para o doutorado ou para dar mais aulas numa pós-graduação.

A pandemia a forçou a parar. Ela tem uma doença autoimune e é do grupo de risco. "No começo fiquei desesperada, mas me adaptei bem ao trabalho e estudo remoto", disse.

Dá para enxergar vantagens: a produtividade aumentou e, agora, a professora tem mais tempo para ficar com a família e para dormir. "Sei que sou privilegiada. A pandemia causa problemas imensos no país."

O trabalho remoto no início da quarentena foi problemático para muita gente. Hoje já não é tanto. O hibridismo [trabalho presencial conciliado com o remoto] deve ganhar espaço depois da pandemia.

Maria Aparecida Bridi, professora da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e vice-presidente da Abet (Associação Brasileira de Estudos do Trabalho)

Keiny Andreade/UOL

Que quarentena?

Também é cronometrada a rotina da cobradora Michele da Silva, 42, que mora e trabalha na capital paulista. Para ela, no entanto, nada mudou. "O transporte público nunca para", afirmou. "Eu vi na TV que iam fechar tudo, que tudo ia parar, mas já sabia que nada mudaria para mim."

Há um ano, ela continua saindo às 6h de sua casa na Guarapiranga, região sul de São Paulo, para chegar às 8h na garagem em que trabalha. O trajeto, aliás, é dentro de um ônibus. "Tudo igual. Mesmas pessoas, sempre cheio."

Michele diz que, no caminho, os cuidados foram redobrados: nada de abraço, máscara toda hora. Cuidando e respeitando as novas normas, a cobradora não teve covid-19 e não perdeu o emprego. "Até que estou bem."

O trabalho remoto virou um marcador da desigualdade no Brasil. Trabalhadores bem remunerados, que ocupam certos cargos, conseguem se manter isolados. Trabalhadores menos qualificados, que trabalham por conta própria, têm que se arriscar.

Maria Aparecida Bridi, da UFPR e Abet

Keiny Andrade/UOL Keiny Andrade/UOL

Se vira com as máscaras

A costureira Ana Célia da Silva, 34, viu sua atividade principal desaparecer na quarentena. "Eu trabalhava para uma loja. Buscava os tecidos cortados e entregava as roupas prontas. Eu não tinha mais como buscar encomendas, a loja não tinha como vender e fechou", disse. "Doações de cestas básicas me ajudaram."

Ana Célia é do Piauí, mas mora em Paraisópolis, em São Paulo, há quase 20 anos. Lá, encontrou uma solução para seu problema. "O projeto Costurando Sonhos estava pagando por máscaras para doação. Passei a costurar só máscaras."

A costureira teve covid-19, assim como sua filha mais nova. Não sentiu sintomas graves. Também não parou de trabalhar.

Mais um ano perdido?

Com números de casos e mortes em alta e colapso em sistemas de saúde de todas as regiões, a pandemia não dá sinais de que esteja sendo controlada no Brasil.

"O ano de 2021 já foi e o primeiro semestre de 2022 muito provavelmente já foi também, a menos que a gente tenha uma mudança de rumo dramática aqui e comece a vacinar 2 milhões de pessoas por dia", disse o médico e cientista Miguel Nicolelis no Baixo Clero, podcast político do UOL.

Ele defendeu um isolamento social mais rígido e não deu prazo para um relaxamento completo da quarentena. "Temos que fazer um lockdown nacional, uma diminuição do fluxo de pessoas pela malha rodoviária e aeroviária, muito provavelmente fechar o espaço aéreo internacional, e vacinar dez vezes mais."

Para Renato Kfouri, médico e diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, é mesmo a vacinação que definirá até quando vai a quarentena. "A vacinação reduziu mortes e internações em países em que avançou. No Brasil, o ritmo é lento. Não há perspectivas de curto prazo para o fim do isolamento."

Por enquanto, o país não conseguiu imunizar sequer os grupos prioritários. Até terça (23), 6% da população havia sido vacinada.

Keiny Andreade/UOL Keiny Andreade/UOL
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