Ajuda ou atrapalha? O que sabemos sobre terapias alternativas contra câncer

Fernando Cymbaluk

Do UOL, em São Paulo

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Ervas, suplementos dietéticos e exercícios para o corpo e a mente costumam ser utilizados por pacientes na luta contra o câncer. São tratamentos não convencionais, cujos benefícios, quando comprovados cientificamente, são complementares aos tratamentos recomendados para a doença --como cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou transplante de medula óssea.

Alguns de fato trazem melhorias para o estado geral do paciente. Outros podem prejudicar o tratamento do câncer e colocar em risco a pessoa.

Existe uma grande variedade deles. "É comum, principalmente em cidades do interior, um vizinho ou um amigo receitar um certo chá...", relata Luís Eduardo Rosa Zucca, oncologista do Hospital de Câncer de Barretos. 

Para os especialistas consultados pelo UOL, é necessário que todo método a ser utilizado em um tratamento de câncer passe pelo crivo das pesquisas clínicas. Esses tratamentos complementares não substituem o tratamento convencional, mas podem auxiliar o paciente, garantindo melhor qualidade de vida.

"[O benefício do] uso do gengibre em casos de náuseas já foi verificado em estudos clínicos", cita Carlos José Andrade, oncologista do Inca (Instituto Nacional de Câncer).

A acupuntura, a ioga e a meditação também são apontadas como técnicas que trazem benefícios. "Além de diminuir a ansiedade, reduzem a dor, a náusea e os vômitos da quimioterapia", afirma Zucca.

Terapias alternativas não curam

Contudo, existem falsos remédios apresentados como milagrosos e terapias vendidas como cura em um passe de mágica. Além de, por vezes, levar o paciente a retardar o início do tratamento convencional ou abandoná-lo, colocando em risco o combate à doença, substâncias que não passaram pelo crivo científico podem ser nocivas à saúde.

"Há pouco tempo vivemos o exemplo da fosfoetanolamina [a chamada pílula do câncer] que, sem ter seus riscos e benefícios verificados, ganhou uma visibilidade enorme, expondo as pessoas a riscos", lembra Andrade.

Já vimos pacientes serem prejudicados por fazerem uso abusivo de medicação alternativa, em casos que quase levaram à morte."

Luís Eduardo Rosa Zucca, oncologista 

Para o oncologista, é fundamental sempre comunicar ao médico sobre a adoção de qualquer tipo de prática. "É preciso sempre estar do lado de um médico que tem conhecimento suficiente para indicar o tratamento correto ao paciente", afirma. 

O UOL preparou duas listas com técnicas associadas ao tratamento do câncer. A primeira, que se apoia em publicação do Grupo Español de Pacientes con Cáncer, mostra práticas que não possuem nenhuma eficácia comprovada e podem ser prejudiciais.

Na segunda, feita com base na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS, indica os tratamentos que trazem benefícios aos pacientes se feitos enquanto o doente faz também o tratamento recomendado pelo médico. 

Práticas que não auxiliam e podem prejudicar

Reprodução/topnaturalremedie
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Remédios milagrosos

Existem diversas substâncias apresentadas como "milagrosas" para a cura do câncer. A defesa do uso desses remédios costuma ser acompanhada de descrições científicas errôneas sobre o funcionamento do corpo e relatos duvidosos de casos de pacientes que se curaram. Exemplos de falsos remédios desse tipo são o dióxido de cloro (chamado de "suplemento mineral milagroso") e a mistura de limonada com bicarbonato de sódio (receita que ficou conhecida como "suco milagroso"). Não existem estudos científicos que demonstrem sua eficácia. Pelo contrário, elas podem ter efeitos tóxicos. Em 2012, uma indiana que gastou US$ 77 mil (R$ 244 mil) em um tratamento acabou morrendo após receber 33 infusões intravenosas de bicarbonato de sódio
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Cecília Bastos/USP Imagens
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Pílula do câncer (fosfoetanolamina)

A fosfoetanolamina, que ficou conhecida como "pílula do câncer", foi desenvolvida pelo Instituto de Química da USP, em São Carlos, e usada por cerca de 20 anos sem nunca ter sido testada. Ela era distribuída gratuitamente para pessoas interessadas pela equipe coordenada pelo professor aposentado Gilberto Chierice. Após diversos protestos e decisões judiciais, uma lei foi aprovada pelo Congresso Nacional permitindo a comercialização e uso da substância mesmo sem registro da Anvisa. Ela foi sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff. Contudo, o STF (Supremo Tribunal Federal), em decisão liminar, suspendeu a lei. Para o oncologista Luís Eduardo Rosa Zucca, enquanto não existir estudo mais robusto, a substância não pode ser indicada pelos médicos para uso em tratamento.
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Uso de imãs e alteração de pH

O biomagnetismo promete curar doenças como o câncer com a aplicação de ímãs em diferentes partes do corpo. O objetivo seria reestabelecer o equilíbrio da acidez do organismo, o que garantiria a preservação de uma boa saúde. A técnica parte do princípio de que toda doença é causada por um pH mais ácido ou mais básico, e que seria possível corrigir esses desequilíbrios. A ideia de que ímãs podem melhorar a saúde e diminuir dores chegou a virar moda, com as pulseiras magnéticas, usadas por atletas e que prometiam restaurar o equilíbrio do corpo. Contudo, não existe nenhum estudo que demonstre que campos magnéticos aplicados ao corpo ou mudanças no nível de acidez do organismo gerem benefícios para à saúde e possibilitem a cura do câncer.
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Terapia com ozônio ou água

Algumas terapias pouco ortodoxas indicam o uso de ozônio ou água para a cura de doenças. Os métodos costumam ser bastante surpreendentes, como insuflar ozônio ou água em feridas e através do ânus. A ideia por trás das práticas é a de que o ozônio possui ação antibacteriana. E a de que a limpeza do intestino com água retira toxinas geradas pelos alimentos. Contudo, as técnicas não contam com nenhum respaldo científico. Injetar substâncias no reto pode causar danos, como lesões no intestino, e retirar a flora intestinal, importante para a digestão. O uso dessas substâncias em cavidades do corpo e em feridas pode provocar infecções. Além disso, quem opta por práticas desse tipo pode acabar retardando o início ou interrompendo o tratamento recomendado, como a quimioterapia.
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Dietas usadas isoladamente

Dieta que reduz a acidez do organismo (dieta alcalina), dieta que elimina toxinas (dieta de Gerson), dietas acompanhadas de suplementos vitamínicos... As orientações alimentares para cura incluem cardápio vegetariano, ingestão de grande quantidade de nutrientes, vitaminas, etc. Utilizadas isoladamente, sem a realização do tratamento recomendado, são ineficazes para o combate ao câncer. "Uma dieta adequada é importante para a prevenção e o tratamento do câncer", diz o oncologista Luís Eduardo Rosa Zucca. Segundo ele, pesquisas também demonstraram que o uso de suplementos vitamínicos não é eficaz no combate ao câncer.
Reprodução/WakingTimes
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Câncer como problema psicológico

Existem diversas práticas que consideram que as doenças não existem de fato, e que são apenas respostas biológicas a um conflito presente em nossas mentes (bioneuroemoção) ou em nossas famílias (constelações familiares). Segundo essas práticas, a "cura" estaria na resolução desses conflitos psicológicos. Apesar da referência à psicologia, técnicas desse tipo simplificam a busca pelas causas de uma doença. O câncer possui diversos fatores causadores, como o estilo de vida da pessoa, o ambiente em que vive, condições físicas, dentre outros. Tais técnicas desconsideram todas elas, até mesmo as causas genéticas do câncer, amplamente demonstradas pela ciência.

Práticas que complementam o tratamento do câncer

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Plantas medicinais e fitoterapia

A OMS defende a valorização do uso de plantas medicinais. Segundo o órgão ligado à ONU, 80% da população mundial utiliza essa forma de tratamento. Para Andrade, "o uso de raízes e ervas devem seguir as orientações baseadas em evidência científica de nível elevado". Ele cita o uso do gengibre em casos de náuseas como um exemplo de eficácia comprovada. Já Zucca lembra que produtos de origem vegetal constituem as bases de diversos medicamentos. "Mas eles são estudados [para utilização], e existe dose limite que é próxima à dose tóxica", lembra, alertando sobre riscos de intoxicação e sobre a importância do acompanhamento médico.
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Acupuntura, meditação e yoga

A OMS recomenda a acupuntura como uma forma de tratamento complementar eficaz e segura para diversas doenças. O National Institutes of Health dos Estados Unidos também defende o uso da acupuntura como coadjuvante no tratamento de náuseas e vômitos pós-quimioterapia. O estímulo preciso de pontos do corpo auxiliam na manutenção e recuperação da saúde. Já a meditação e a ioga podem promover alterações favoráveis no humor e no desempenho cognitivo, que podem ser reverter em melhorias no bem-estar, de acordo com o Ministério da Saúde. "São métodos consagrados pelo tempo e podem ser utilizados respeitando as especificidades de cada caso", diz o oncologista Carlos José Andrade.
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Homeopatia

Por recolocar a pessoa no centro das atenções, com todas as suas dimensões - física, psicológica, social e cultural -, a homeopatia pode contribuir para o fortalecimento da integralidade da atenção à saúde, fortalecendo assim a relação médico-paciente. Como tratamento complementar, tem como base a investigação científica, presente em pelo menos dez universidades públicas no Brasil, em atividades de ensino, pesquisa ou assistência, de acordo com o Ministério da Saúde.

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