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Paciente transplantada nº 1 luta para sanar dano cerebral e quitar dívidas

Werther Santana/Estadão Conteúdo
Rosália Santos (dir.) e sua filha Gabriela Santos da Silva, a primeira paciente com febre amarela do mundo a receber um transplante de fígado Imagem: Werther Santana/Estadão Conteúdo

Fabiana Cambricoli

Em São Paulo

02/04/2018 08h07

Entubada, em coma e com o fígado destruído, a engenheira Gabriela Santos da Silva, de 27 anos, chegou ao Hospital das Clínicas no último 28 de dezembro com um quadro de difícil reversão até mesmo para os maiores especialistas no assunto. Os médicos ainda não tinham certeza do diagnóstico, mas a principal hipótese era de que a jovem havia desenvolvido uma hepatite fulminante por causa da febre amarela.

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O que os especialistas sabiam era que a maioria dos pacientes que chegava àquele estágio da doença não sobrevivia e que a medicina, até então, não tinha uma opção viável para o tratamento. "Disseram que a única boa notícia que tinham para me dar era que a Gabriela estava no melhor lugar que poderia estar. Mas avisaram, com muito pesar, que a situação era tão grave que ela poderia morrer nas horas seguintes", conta a mãe da jovem, a condutora escolar Rosália de Jesus Santos, de 49 anos.

No dia seguinte, a equipe tomou uma decisão ousada: submeter a paciente a um transplante de fígado, procedimento até então inédito para infectados pela doença. A jovem foi colocada na fila de espera com grau máximo de prioridade e transplantada no dia 30, tornando-se a primeira paciente no mundo com o vírus a passar pela técnica.

Três meses após o procedimento pioneiro que salvou sua vida, Gabriela está em casa, fora de risco, mas com dois novos desafios: reverter as sequelas neurológicas provocadas pelo vírus e arrecadar fundos para pagar as terapias de reabilitação e uma dívida de R$ 117 mil contraída em um hospital particular procurado após erro de diagnóstico na rede municipal. Até agora, ela levantou R$ 11 mil.

"Considerando o que a Gabriela passou, ela está ótima, mas algumas funções ficaram prejudicadas, como a memória recente, a coordenação fina, a leitura e a escrita", conta a mãe.

Uma semana depois de voltar para casa, a paciente passou a receber uma fonoaudióloga três vezes por semana para ajudá-la na reversão das sequelas. Com um mês e meio de terapia, a memória e a leitura foram parcialmente recuperadas, mas Gabriela ainda não consegue escrever e tem dificuldades com atividades que exigem mais precisão dos movimentos, como abotoar roupas e digitar no celular.

Custos

A maior dificuldade tem sido arcar com os custos do tratamento: cada sessão custa R$ 200, num total de R$ 2.400 mensais. Gabriela é autônoma, por isso não tem renda enquanto se recupera. As despesas estão sendo pagas com a renda da mãe e do padrasto, que contam com o auxílio de doações de amigos e familiares.

Uma vaquinha online foi organizada para arrecadar fundos para o tratamento e o pagamento da dívida com o Hospital São Camilo, responsável por diagnosticar a jovem e transferi-la para o HC. A família também estuda entrar com uma ação judicial pedindo que a dívida seja transferida para o Sistema Único de Saúde (SUS), uma vez que a jovem buscou a AMA Sorocabana, na Lapa, três vezes entre os dias 22 e 26 de dezembro e foi informada de que a suspeita era de dengue. Em uma das visitas, no dia 25, ela já tinha sintomas tão graves que foi transferida de ambulância para o PS de Pirituba, mas foi liberada pela médica da unidade. A Secretaria Municipal da Saúde disse que abrirá sindicância para investigar o atendimento prestado à jovem.

Ainda pouco à vontade para dar entrevistas, Gabriela recebeu a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo em casa, mas preferiu que a mãe contasse sua história. A única coisa que relatou foi a rapidez com que a doença evoluiu. "Na última vez que estive na AMA eu apaguei e só me lembro de acordar no Hospital das Clínicas, dias depois de fazer o transplante", conta ela.

Questionada sobre os momentos mais difíceis da recuperação, ela conta que o pós-operatório e algumas sequelas neurológicas a incomodam. "A parte da leitura e da escrita é o que mais me agonia, mas acho que já está caminhando para melhorar", diz ela. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.