De medo de barata a avião; saiba as aplicações da técnica que cura traumas com o movimento dos olhos

“Os diagnósticos que melhor respondem ao EMDR [Eye Movement Desensitization and Reprocessing, ou Dessensibilização e Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares] são justamente as fobias e desordens de pânico, já que os transtornos de ansiedade estão associados a vivências traumáticas – sensação de perigo – congelados em redes neuronais. Muitas pessoas recuperam rapidamente a capacidade de subir em elevadores, entrar no mar ou na piscina, submeter-se a exames de ressonância magnética, ver baratas ou sapos – a lista é enorme”, observa Esly Regina de Carvalho, mestre e doutora em psicologia, treinadora pelo EMDR Institute e pela EMDR Iberoamericana, supervisora de psicodrama pelo American Board of Examiners in Psychodrama and Group Psychotherapy.

O tempo de tratamento pode levar de um a dois anos, dependendo da seriedade do diagnóstico. Mas é possível tratar, por exemplo, de um trauma de incidente único, como assalto, em cinco a dez sessões. 

Para compreender bem, imagine o medo de viajar de avião: se há o claro reconhecimento de que o problema decorre de um vôo com muita turbulência que a pessoa vivenciou, o tratamento tende a ser simples. Quando a conexão não se evidencia com clareza, a queixa pode ser resultado não de um trauma, mas de negligência, abandono, algo bom que deveria ter acontecido e não ocorreu.

“Estes casos tendem a ser mais complexos e demandam uma atividade prolongada, muitas vezes resgatando transtornos de apego e as primeiras relações entre a criança e seus cuidadores”, explica André Monteiro, mestre e doutor em Psicologia, docente supervisor em Psicodrama, com estágio pós-doutoral em Arte-terapia no Psychiatrische Dienste Thurgau, na Suíça.

Até questões de relacionamento podem ser foco da terapia. “Perdas, brigas, desentendimentos – muitas destas rotinas têm origem na infância, quando a maioria das dificuldades se forma. Baixa autoestima também entra na EMDR, porque costuma ter raízes em experiências adversas dos primeiros anos de vida”, diz Esly.

Qualquer pessoa pode se submeter ao tratamento, exceção apenas para psicóticos e esquizofrênicos, que correm o risco de não suportar a intensidade das emoções que vêm à tona. O custo da sessão, segundo a terapeuta, é o mesmo da psicoterapia tradicional, variando de acordo com o profissional e a cidade.

O tratamento é uma forma de psicoterapia com base em evidências. Há mais de 200 artigos publicados mundialmente, inclusive do National Registry of Evidence-Based Programs and Practices (NREPP), “que é o maior reconhecimento científico que se dá nos Estados Unidos a uma psicoterapia”, ressalta Esly. E não é preciso abrir totalmente o jogo – muitas vezes, a pessoa que passou por um choque tem vergonha e não quer se expor conversando sobre o episódio.

“Não é preciso falar para sarar. Durante 120 anos, aprendemos que o paciente deveria expressar e dialogar sobre suas dificuldades como uma forma de desabafar suas dores – e que isso iria ajudá-lo a resolver suas dificuldades. Com o EMDR, o discurso pode ser mínimo durante o período de reprocessamento cerebral, o que permite trabalhar as lembranças de forma privada.”

Apesar disto, ela ainda não é consenso na classe. “Caso se tratasse de um medicamento novo, poderíamos aguardar os testes, observar a melhoria a médio e longo prazos e verificar se houve remissão dos sintomas ou não. Como se trata de um novo método é necessário ser cauteloso, estudar todas as etapas do procedimento. Neste caso, o importante é o tempo de observação do paciente pós-terapia, se realmente houve a mudança esperada e se ela se manterá, ou se os sintomas voltarão após algum tempo. É uma técnica que promete cuidar de muitos transtornos emocionais e psiquiátricos e, se for de fato eficaz, significará um ganho para a humanidade”, acredita Helena Masseo de Castro, psiquiatra e psicanalista, especialista em dependências químicas e atendimento a portadores de transtornos de humor nos vários níveis de gravidade, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e coautora do Programa de Dependências Químicas do Município de São Paulo.

As aplicações do EMDR

Desordens do tipo Traumas de Estresse Pós-Traumático (TEPT), como as resultantes de abusos sexuais ou estupros, assaltos, violência, sequelas de guerra e de desastres naturais, mortes traumáticas
Fobias e desordens de pânico – medo de avião, de água, de agulhas, de mar ou piscina, de bichos, de lugares fechados (claustrofobia)
Dor crônica – enxaqueca, dores de coluna, fibromialgia, artrite reumatoide. “Já que sabemos que a dor física tem muitos componentes emocionais, tratamos as lembranças dolorosas e os traumas vinculados a esses males. Assim, é possível diminuir o nível de perturbação física e melhorar a qualidade de vida”, diz Esly Carvalho
Luto e depressão. O EMDR ajuda a sanar aspectos dolorosos de perdas e mortes, e pode prevenir o desenvolvimento de quadros patológicos de lutos mal resolvidos
Dependência química e compulsão. “Mesmo considerando que tais quadros exigem a interação de uma equipe interdisciplinar, sem dúvida envolvem uma tentativa de medicar dores emocionais. O EMDR entra na resolução de comoções de infância e adolescência que contribuem para a manutenção destes distúrbios”, explica Silvia Guz
Obesidade. Muitos casos estão vinculados a situações de ansiedade, estresse e traumas. Tratando a ansiedade, há maior controle da ingestão de alimentos, reeducação alimentar e desenvolvimento de hábitos duradouros mais saudáveis
Instalação de recursos positivos. A terapia ajuda a desenvolver e fortalecer recursos positivos importantes para o enfrentamento de situações de estresse
Aprimoramento do desempenho. Atletas, atores, jogadores de futebol e outros profissionais enfrentam estados em que seu desempenho é público, e lhes são exigidos alto níveis de aperfeiçoamento. “O EMDR desbloqueia áreas que impedem a boa performance e fortalece condutas apropriadas na arena pública”, finaliza André Monteiro

 

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