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Conhecida como 'grapefruit', toranja pode ser fatal para quem toma certos medicamentos

Prato com toranja, ovos, torrada e leite; existem 85 medicamentos que interagem com a fruta - Getty Images
Prato com toranja, ovos, torrada e leite; existem 85 medicamentos que interagem com a fruta Imagem: Getty Images

Roni Caryn Rabin

The New York Times

02/01/2013 07h00

A paciente de 42 anos mal reagia quando seu marido a trouxe ao pronto-socorro. Sua frequência cardíaca tornava-se mais lenta ao mesmo tempo em que a pressão arterial baixava. Para reanimar a paciente, os médicos tiveram que colocá-la em um respirador e depois colocar um marca-passo.

Eles ficaram perplexos quando o marido afirmou que ela tinha enxaqueca e tomava um remédio para hipertensão arterial chamado verapamil como forma de prevenir a doença. Mas os exames de sangue revelaram a presença de uma quantidade assustadora do medicamento no corpo da paciente, um nível cinco vezes maior que o considerado seguro.

Ela teve uma overdose? Ela tinha tentado suicídio? Foi somente depois que a paciente se recuperou que os médicos foram capazes reconstituir os fatos.

"O causador de tudo foi um suco de toranja", afirmou Unni Pillai, nefrologista de St. Louis, Missouri, quem tratou a paciente tempos atrás e depois publicou o caso clínico. "Ela adorava suco de toranja e sua enxaqueca era tão forte, com sintomas de náusea e vômitos, que ela não podia ingerir mais nada."

Na semana anterior ao ocorrido, ela havia se mantido apenas com suco de toranja. Em seguida, ela tomou verapamil, um entre os vários medicamentos cujo poder de ação aumenta muito quando ingeridos junto com suco de toranja. No caso dessa paciente, a interação foi potencialmente mortal.

No mês passado, o pesquisador canadense David Bailey, quem descreveu essa interação mais de duas décadas atrás, publicou uma lista atualizada de medicamentos que reagem ao suco de toranja. Existem atualmente 85 medicamentos à venda que geram esse tipo de interação, os quais incluem: medicamentos comumente usados para tratar o colesterol alto, novos agentes anticancerígenos, alguns opioides sintéticos, medicamentos psiquiátricos, certos imunossupressores – tomados por pacientes que realizaram transplantes de órgãos – alguns medicamentos para Aids, certas pílulas anticoncepcionais e tratamentos com estrogênio (a lista completa está disponível neste documento, em inglês).

"O que nos impulsionou a escrever este artigo foi a quantidade de novos medicamentos que surgiram nos últimos quatro anos", afirmou Bailey, farmacologista clínico do Instituto de Pesquisas em Saúde Lawson, que descobriu acidentalmente essa interação nos anos 1990.

Os cientistas discutem a frequência com que essas interações ocorrem de um modo geral e nas pessoas que consomem quantidades normais de suco. Bailey acredita que diversos casos passam despercebidos uma vez que os médicos não cogitam em perguntar ao paciente se ele vem consumindo toranja ou suco de toranja.

Embora esses incidentes sejam raros, deduziu Bailey, é possível prevê-los e evitar que ocorram. Muitos hospitais não oferecem mais suco, e alguns medicamentos vêm com etiquetas que alertam os pacientes para que evitem suco de toranja.

"O ponto principal consiste no fato de que, mesmo com uma frequência baixa, as consequências podem ser terríveis", afirmou. "Por que precisamos de mortes para começarmos com as mudanças?"

O consumo de suco de toranja pode ser fatal se combinado a 43 dos 85 medicamentos citados na lista, afirmou Bailey. Muitos estão associados ao aumento do ritmo cardíaco, doença conhecida como taquicardia ventricular polimórfica, que pode levar à morte. Ela pode ocorrer sem que exista uma doença cardíaca subjacente e tem sido verificada em pacientes que ingerem alguns agentes anticancerígenos; eritromicina e outros medicamentos anti-infecciosos; certos medicamentos cardiovasculares, como a quinidina; antipsicóticos, como lurasidona e ziprasidona; e os agentes gastrointestinais cisaprida, domperidona e soliferacina, usados para tratar a bexiga hiperativa.

Outros medicamentos, como fentanil, oxicodona e metadona, podem causar depressão respiratória fatal se tomados junto com suco de toranja. A interação também pode ocorrer com outras frutas cítricas, como laranja azeda, lima e pomelo. Além disso, um caso clínico publicado sugeriu que a romã pode aumentar a ação de certos medicamentos

Os idosos talvez estejam mais vulneráveis devido à maior probabilidade de estarem tomando medicamentos e bebendo, ao mesmo tempo, grandes quantidades de suco de toranja. A capacidade do organismo de reagir aos medicamentos também diminui com a idade, afirmam os especialistas.

Em circunstâncias normais, o medicamento é metabolizado no trato gastrointestinal e uma quantidade relativamente pequena é absorvida, pois uma enzima existente no intestino, chamada CYP3A4, o torna inativo. Contudo, a toranja possui substâncias químicas naturais, chamadas furanocumarinas, que inibem a enzima. Sem sua presença, o intestino absorve uma quantidade bem maior do medicamento e os níveis da droga no sangue aumentam de forma significativa.

Por exemplo, se uma pessoa está tomando simvastatina (nome comercial: Zocor) e ingere, ao mesmo tempo, um copo de 200 ml de suco de toranja uma vez ao dia, durante 3 dias, os níveis do medicamento em seu sangue podem triplicar e o risco de ela ter rabdomiólise, desintegração muscular que pode causar danos aos rins, aumenta.

Estradiol e etinilestradiol, tipos de estrogênio usados como contraceptivos orais e na reposição hormonal, também reagem ao suco de toranja. No caso relatado no periódico Lancet, Yaz, uma mulher de 42 anos, tomava pílula anticoncepcional e desenvolveu um coágulo grave, que comprometia sua perna, depois que começou a ingerir uma toranja ao dia, afirmou Lucinda Grande, médica de Lacey, Washington, e autora do caso clínico.

Contudo, Grande também notou que a paciente possuía outros fatores de risco e que as circunstâncias eram pouco comuns. "Publicamos esse caso clínico porque ele era muito incomum", afirmou. "Precisávamos ser cautelosos para não tratar o fato com exagero."

Alguns medicamentos possuem um intervalo terapêutico restrito, ou seja, uma pequena quantidade a mais ou a menos da substância no organismo pode ter consequências sérias, e requerem cautela em relação ao consumo de toranja, afirmou Patrick McDonnell, professor de prática farmacêutica da Universidade Temple. Entre esses medicamentos estão os agentes imunossupressores, como a ciclosporina, que são tomados por pacientes que realizaram transplantas para prevenir a rejeição do órgão do doador, afirmou.

McDonnell acrescentou, porém, que a maioria dos pacientes que tem reações adversas consome toranja em grandes quantidades. "Há uma diferença entre um ingerir um pedaço da fruta ocasionalmente e tomar todos os dias o equivalente a 450 gramas na forma de suco", afirmou.

Ele também alertou para o fato de que "nem todos os medicamentos da mesma categoria reagem da mesma forma". Por exemplo, algumas estatinas reagem à toranja e outras não.

Alguns conselhos de especialistas para as pessoas que adoram toranja:

– Se você toma medicamentos via oral de qualquer tipo, consulte a lista para verificar se seu medicamento interage com a toranja. Esteja certo de ter compreendido os possíveis efeitos colaterais resultantes da interação e, caso eles sejam potencialmente mortais ou caso possam causar danos permanentes, jamais ingira toranjas. A ação de certos medicamentos como o clopidogrel pode ser reduzida quando eles são ingeridos ao mesmo tempo que toranja.

– Se você toma regularmente um dos medicamentos listados, tenha em mente que talvez você precise evitar toranjas, pomelos, limas e geleia de frutas cítricas. Fique atento aos sintomas que possam ser efeitos colaterais do medicamento. Se você toma estatinas, o efeito colateral pode ser uma dor muscular incomum.

– Não basta deixar de tomar seu remédio quando ingerir toranjas. É preciso evitar consumir a fruta durante todo o período no qual esteja tomando a medicação.

– Em geral, é bom evitar mudanças radicais e repentinas na dieta e dietas radicais que incluam um grupo pequeno de alimentos. Se você "não pode viver sem toranja", pergunte a seu médico se existe uma alternativa de medicamento que você possa utilizar.