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Familiares têm resistência em autorizar doação de pele no Brasil; entenda como é o processo

Lâminas com pele doada para transplante armazenadas no banco do Hospital das Clínicas de São Paulo - Reprodução/TV UOL
Lâminas com pele doada para transplante armazenadas no banco do Hospital das Clínicas de São Paulo Imagem: Reprodução/TV UOL

Tatiana Pronin

Do UOL, em São Paulo

29/01/2013 20h06

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda a existência de um banco de pele para cada município com população a partir de 500 mil habitantes. No Brasil, porém, existem apenas três: em Porto Alegre (RS), no Recife (PE) e em São Paulo (SP). A escassez chamou a atenção após países como Argentina e Uruguai terem sido acionados para enviar pele para ajudar vítimas do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria (RS).

"Cerca de 70% das famílias entrevistadas para doação recusam pele e ossos para transplantes", diz Edvaldo Leal Moraes, do Serviço de Procura de Órgãos e Tecidos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). A resposta negativa é comum mesmo depois de explicado o processo: a camada de pele retirada para transplante é finíssima e não desfigura o cadáver. Além disso, a coleta é em áreas que não ficam expostas no momento do velório.

No Recife, o cenário é o mesmo: "Temos uma recusa muito grande em doar pele", afirma Noemi Gomes, coordenadora da Central de Transplantes de Pernambuco. Ela diz que o local contabiliza cerca de 70 doações de córneas por mês e apenas uma, ou mesmo nenhuma, de pele.

No ano passado inteiro, estima-se que foram feitas apenas 40 doações de pele em todo o país. Até setembro, segundo a Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), foram realizados 18 transplantes desse tipo. Para se ter uma ideia, no mesmo período foram feitos 11.744 transplantes de córnea e 17.866 de ossos.

SP esgota estoque de pele para ajudar vítimas de Santa Maria

A Sociedade Brasileira de Queimaduras estima que ocorra um milhão de casos de queimaduras a cada ano no país. Desse total, aproximadamente 5.000 poderiam se beneficiar dos bancos de pele.

Transplante diferente

O transplante de pele tem um cáráter provisório, ao contrário de outros tecidos. Ele funciona como um curativo biológico para pessoas que sofreram queimaduras graves. Serve para evitar que se percam líquidos e auxilia na recuperação natural do corpo. Por isso, o receptor não precisa tomar medicamentos imunossupressores (para evitar rejeição).

Em geral, espera-se quatro ou cinco dias após a queimadura para se fazer o transplante, para que o estado de saúde do paciente se estabilize. Inicialmente, o corpo não rejeita o enxerto porque está muito debilitado. "Após três ou quatro semanas, essa pele é rejeitada e aí se faz um autotransplante [com a pele do próprio paciente]", descreve o médico Eduardo Chem, coordenador dos bancos de pele da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos e responsável pelo banco da Santa Casa de Porto Alegre.

Quase todo indivíduo entre 12 e 70 anos pode ser doador de pele, após a confirmação de morte encefálica. Algumas doenças de pele e infectocontagiosas (como hepatites e Aids) inviabilizam a doação. Após a retirada, são necessários até 40 dias para tratar as camadas de pele retiradas do doador, para que o material fique estéril e não haja risco de contaminação para o receptor.