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Mulheres como Jolie devem retirar também os ovários para prevenir câncer

Angelina Jolie no mês passado, ao participar da reunião de líderes do G8 (grupo dos países mais ricos do mundo) sobre a violência sexual contra mulheres, em Londres - Alastair Grant/AP
Angelina Jolie no mês passado, ao participar da reunião de líderes do G8 (grupo dos países mais ricos do mundo) sobre a violência sexual contra mulheres, em Londres Imagem: Alastair Grant/AP

Tatiana Pronin e Cármen Guaresemin

Do UOL, em São Paulo

14/05/2013 11h50Atualizada em 26/03/2015 14h11

A atriz Angelina Jolie, 37 anos, espera que a divulgação da cirurgia para retirada dos seios (mastectomia) realizada por ela para prevenir o câncer de mama ajude outras mulheres a terem consciência sobre a doença. Ela perdeu a mãe cedo e herdou a mutação no gene BRCA1, que aumenta o risco de desenvolver um tumor na mama em cerca de 60% (ou em até 87%, como mencionado pelo médico da atriz). Para mulheres com essa mutação, no entanto, a indicação é retirar, também, os ovários.

Segundo o médico José Roberto Silassi, coordenador do serviço de mastologia do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), a mutação no BRCA1 aumenta em cerca de 40% o risco de desenvolver câncer de ovário. Esse tipo de tumor é muito mais difícil de ser diagnosticado em estágio inicial e, pior, tem uma mortalidade de 60 a 70%, bem maior que a do câncer de mama, que se identificado logo no início tem um índice de mortalidade que se aproxima de zero.

A mastectomia preventiva, como a feita por Angelina Jolie, que preserva os mamilos, pode reduzir em até 95% o risco de ter o câncer de mama, segundo Silassi. Ele explica que a garantia não é de 100% porque é possível que um tumor se desenvolva nos ductos mamários ( que se liga aos mamilos), ou mesmo em algum resquício de tecido mamário (nenhuma cirurgia consegue eliminar tudo). Mas como a proteção é alta, não se justifica sacrificar os seios inteiros. A colocação de prótese pode ser feita assim que as mamas são retiradas. No caso da atriz, foi feito em etapas, como ela própria descreveu no artigo no The New York Times.

CÂNCER NO BRASIL

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Já a retirada dos ovários é mais complexa - envolve extrair também as trompas e, muitas vezes, o útero. Por isso só é indicada depois que a mulher tem filhos. O impacto na qualidade de vida é maior, em relação à mastectomia, porque o ovário produz hormônios. Ou seja: a mulher entra no climatério mais cedo e sofre todos os sintomas relacionados à queda hormonal. Mas a prevenção compensa, já que a mortalidade por câncer de ovário é alta. 

A mutação em outro gene, o BRCA2, também aumenta os riscos de câncer de mama em 40% e o de ovário, de 12% a 15%. Segundo Silassi, das mulheres que têm mutações em um desses genes, ou mesmo nos dois, cerca de metade retira os seios e a mama. Outras 25% retiram apenas a mama. E as 25% restantes optam por realizar apenas exames preventivos.

"O problema é que os cânceres associados a essas mutações são agressivos e costumam aparecer entre os exames de rotina", afirma o mastologista. E, no caso do câncer de ovário, os exames são bem menos efetivos para diagnosticar a doença em estágio inicial. Por isso a recomendação costuma ser a cirurgia preventiva tanto dos seios quanto dos ovários. 

Mutação não é comum

É importante lembrar que apenas 0,2% da população tem mutações nesses dois genes, e cerca de 0,1% tem a mutação em um deles, como é o caso de Jolie. O médico esclarece, porém, que algumas populações têm o risco um pouco mais alto, como é o caso dos judeus asquenazes.

Nem sempre ter uma mãe ou mesmo uma irmã com câncer significa que a mutação está envolvida. "É preciso fazer a avaliação com um geneticista para decidir se é recomendável realizar o teste", comenta. No Brasil, o exame mais confiável para rastrear mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 custa até R$ 9 mil.

O médico Décio Roveda Jr, coordenador da área de Diagnósticos Mamários do Femme Laboratório da Mulher, lembra que o teste genético não é oferecido pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Fazer uma cirurgia nos seios sem que haja alguma doença que a justifique, nem pensar. E mesmo os exames preventivos não são acessíveis em qualquer região do país. "Quanto mais longe das capitais e grandes cidades, mais difícil fazer uma mamografia", relata. 

Os riscos da mastectomia, em si, não são altos. "Podem acontecer algumas complicações inerentes, entre elas até a fixação da prótese não funcionar bem. No caso dela, mesmo preservando a aréola e mamilos, perde-se, mesmo, a sensibilidade na região", conta Rodrigo Couto, do Centro Oncológico de Niterói. Como o médico do Icesp, Couto acredita que a decisão de Jolie foi acertada e que ela provavelmente vai retirar os ovários, também.

Os médicos também concordam que a divulgação do caso de Jolie vai fazer mais gente discutir a prevenção do câncer. "O câncer de mama é muito discutido na mídia, e agora será mais ainda. As mulheres, mais que os homens, procuram descobrir se têm o problema, são mais cuidadosas. O que a atriz fez vai inspirar muitas mulheres", considera Roveda Jr.