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Terapia criada na ditadura encontra terreno fértil no atual clima de protestos

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Famosa na década de 1970, a Somaterapia de Roberto Freire ainda atrai praticantes - a maioria jovens Imagem: Divulgação

Carlos Minuano

Do UOL, em São Paulo

10/08/2013 07h00

Nada de conversas secretas e solitárias no divã. O tratamento é em grupo, o terapeuta não é neutro e o foco não é a cabeça, mas o corpo todo. Essa é uma definição básica da Soma, uma terapia autodenominada anarquista, criada pelo médico psicanalista brasileiro Roberto Freire, na efervescente década de 1970. O método anticonvencional volta a encontrar terreno fértil no atual ambiente de protestos de rua.

A reportagem do UOL foi conferir um workshop desta prática terapêutica, que reuniu algumas dezenas de pessoas em São Paulo - a maioria jovens. Foi um fim de semana de conversas e de exercícios que variavam entre estimulações de contato corporal, como esbarrões e tapinhas na bunda, outros mais sensuais, sensoriais e algumas brincadeiras com riscos de queda. “Não existe liberdade sem riscos”, dizia Freire.

A ideia de uma terapia ‘diferente’ foi o que atraiu Virginia Delfino, 27. “Sou neurótica com essas coisas de padrão”, diz. O primeiro contato dela com Roberto Freire foi através do livro “Sem Tesão Não Há Solução”. Quando ela soube da terapia não teve dúvidas: “Achei bacana a ideia de um processo terapêutico compartilhado”.

A garota também esteve em algumas manifestações pela redução da tarifa do transporte público em São Paulo, mas faz ressalvas. “Foi bom ver a indignação das pessoas, mas algumas tentativas de controle das massas me irritaram”, observa.

A Soma começou a ser idealizada numa época marcada por um fenômeno semelhante à onda de convulsão social originada na recente ‘primavera árabe’, como ficou conhecido o levante popular que teve origem no Oriente Médio e se espalhou por diferentes países, incluindo o Brasil nas recentes manifestações que arrebanharam milhares em várias cidades.

Aliás, foi em outra primavera, a de Paris de 1968, que tiveram início as pesquisas de Roberto Freire (1927-2008). Havia no ar o mesmo cheiro de gás lacrimogêneo que tenta inutilmente dispersar as explosivas manifestações populares que avançam hoje nas ruas do planeta.

A ligação entre os atuais acontecimentos e a terapia da Soma está na esfera do desejo, afirma o somaterapeuta e psicólogo João da Mata, que trabalha há mais de duas décadas com a prática terapêutica. “É difícil para algumas pessoas descobrirem o que querem e desejam em suas vidas; para outras, a dificuldade está em afirmar e realizar tais desejos, mesmo sabendo quais são eles”, afirma. Segundo ele, a terapia serve, nestes casos, tanto para auxiliar cada um na identificação quanto na realização desses desejos.

Foi o que aconteceu com o ator Marcos Damigo, 39 anos. “A Soma me ajudou a realizar uma transição enorme de vida”, conta. Quando ele teve contato com as ideias libertárias de Roberto Freire, estudava agronomia em Botucatu. “Já tinha percebido que não queria mais continuar, só que não conseguia ir embora, afinal, minha vida toda estava ali, eu não era ninguém fora daquele universo que eu amava, mas que havia deixado de fazer sentido”, diz.

Depois de já ter lido alguns livros assistiu a uma palestra de Freire no interior de São Paulo, na década de 1990, e logo em seguida por uma coincidência foi parar no mesmo bar que ele. “Era o único aberto”, explica Damigo. Na hora de se despedir, o psicanalista pegou em seu braço lhe falou: “O que você está fazendo aqui? Vai embora!”. “Fiquei em estado de choque. Como aquela pessoa sabia o que estava se passando dentro de mim?”, conta.

O ator seguiu a dica, voltou para São Paulo, sua cidade natal, e se tornou cliente e discípulo do terapeuta anarquista. “Na Soma nasceu o artista que eu sou hoje”, afirma o ator, que acaba de reestreiar em São Paulo, ao lado de Guta Ruiz, a peça multimídia “Deus é um DJ”, no Teatro Jaraguá.

O exercício da diferença

O somaterapeuta lembra que a Soma surgiu em plena ditadura militar brasileira para atender aos que não se conformavam com as severas restrições daquela época. “Aqueles revolucionários desejavam mais liberdade que os militares podiam oferecer”, diz.

Marcam os dois momentos, o da criação da Soma e o atual, a mesma atmosfera de protestos em massa, cristalizada na forma de passeatas com diferentes objetivos e em muitos países, mas todas com um ponto em comum: a contestação radical resultante de insatisfações, frustrações e infelicidades individuais e coletivas.

A baderna estudantil parisiense da qual Freire foi testemunha ocular mexeu com ele em níveis profundos, segundo escreveu em texto sobre a época.  Logo em seguida o psicanalista se lançou na jornada de estudos e experimentações que desembocaria anos mais tarde na terapia anarquista: “Aqueles dias produziram uma grande euforia, mexendo com as endorfinas, era quase uma embriaguez, um estado de paixão”.

Enquanto as passeatas pelo mundo, assim como hoje, reuniam os que não se sentiam representados politicamente, a Soma foi concebida como uma alternativa terapêutica para rebeldes e subversivos, que corriam de uma psicanalise elitista e lenta, sem envolvimento politico e social. “Não buscamos a uniformidade, e sim o exercício da diferença; queremos desenvolver a singularidade original e única do ser”, diz João da Mata.

Segundo o somaterapeuta, um dos objetivos centrais da soma é este: que o paciente consiga autorregular sua própria vida, independente do olhar do outro. “Nos ritos sociais, eventualmente é dado uma importância desmedida à opinião alheia, isso pode produzir desequilíbrios”, argumenta.

Sexo, anarquia e coquetel molotov

A terapia anarquista de Roberto Freire foi inspirada principalmente nas experiências corporais da obra do psicanalista da contracultura, o austríaco Wilhelm Reich (1897-1957), para quem o melhor remédio contra a neurose é um libertário e pleno orgasmo sexual.

Outros ingredientes apimentados compõem o caldo da Soma, como exercícios teatrais, bioenergética, jogos e brincadeiras, a capoeira angola do mestre Pastinha, e outras linhas terapêuticas, como a Gestalt-terapia de Frederick Perls e os estudos da comunicação humana da antipsiquiatria de David Cooper, Gregory Bateson e Ronald Laing. Além, claro, de um forte conteúdo crítico político-social de orientação libertária.

Tanto freire quanto seu ‘guru’, Reich, podem ser facilmente enquadrados no tipo popularmente conhecido como ‘da pá virada’. Wilhelm Reich foi expulso da Sociedade de Psicanalise, por suas criticas à Freud, e depois perseguido e preso nos EUA. Roberto Freire também foi parar no xilindró duas vezes, além de passar alguns anos na mira dos militares.

“Havia uma paranoia de perseguição, por isso no começo a terapia era feita de forma de clandestina”, conta João da Mata. O alvo de ambos, Reich e Freire, é o mesmo, ressalta João da Mata: a neurose, que – mais ou menos – atinge toda a sociedade.

“Para Reich, ninguém nasce neurótico, torna-se por mecanismos sociais e políticos, a partir das relações de poder que enquadram as pessoas”, salienta o somaterapeuta. Ele acrescenta que isso passa por situações cotidianas, cheia de jogos afetivos de dominação. Os sintomas neuróticos são, nesse contexto, como uma luz vermelha sinalizando que algo está errado.

“A neurose é um fenômeno social”

Reich foi o primeiro a sugerir que a neurose é um fenômeno social. A partir desta noção, o psicanalista lança mão de um dos seus principais conceitos: a couraça neuromuscular do caráter. “Nosso corpo cria posturas, gestos e atitudes que tendem a materializar nossos traços de comportamentos inconscientes”, observa da Mata.

De acordo com os estudos de Reich, o conflito emocional se instala no corpo, materializando um conjunto de atitudes emocionais que correspondem a uma forma padronizada que criamos ao longo de nossa existência.

“Ele localizou sete regiões do corpo onde normalmente se criam tensões musculares, os chamados anéis ou segmentos de couraça. São regiões no corpo onde se concentra grande quantidade de energia vital, produzida por uma tensão crônica na musculatura voluntária”, explica o somaterapeuta.

A Soma busca identificar, compreender e dissolver essas couraças. E, diferentemente de outras terapias, é um processo terapêutico que tem começo meio e fim. São 46 exercícios distribuídos por quatro sessões mensais de duas ou três horas durante um período que pode variar entre 12 e 18 meses.

Comunicação, afetos, tomadas de decisão e aspectos familiares são alguns temas centrais trabalhados na terapia. Outro ponto fundamental é a agressividade e a passividade, explica da Mata. “Procuramos trabalhar os excessos, seja de um ou de outro, para alguns, por exemplo, o ‘saco cheio’ pode demorar anos para chegar”, conclui.

Mais informações sobre a Soma: www.somaterapia.com.br