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Você esquece as coisas com frequência? Veja mitos e verdades sobre memória

Chris Bueno

Do UOL, em São Paulo

07/05/2014 07h00

Quem nunca esqueceu onde deixou as chaves ou estacionou o carro? O nome de um conhecido ou ainda de pagar aquela conta no dia certo? Com um dia a dia cada vez mais corrido e atarefado é muito comum esquecer alguma coisa pelo caminho. Mas, às vezes, esses esquecimentos frequentes podem ser sinal de um nível mais grave de estresse, ou então de depressão, e até mesmo de alguma doença neurológica.

A memória é o armazenamento de informações e fatos obtidos por meio de experiências vividas ou até mesmo ouvidas. Ela está intimamente ligada à aprendizagem e também ao emocional – por isso algumas memórias são mais marcantes do que outras.

Existem duas formas pelas quais o cérebro adquire e armazena informações: a memória de procedimento e a declarativa. A de procedimento, também chamada de memória implícita, armazena informações não verbalizadas, como habilidades motoras, sensitivas ou intelectuais, por meio da repetição de uma atividade que segue sempre o mesmo padrão. Esse é o caso, por exemplo, de andar de bicicleta ou nadar. Os dados armazenados nessa memória não dependem da consciência, por isso é possível executar essas tarefas pensando em outras coisas, como se estivesse no “piloto automático”.

Os sentidos estão intimamente ligados à memória. Isso porque é por meio deles que experimentamos os fatos e informações que ficarão armazenados na memória. Além disso, de acordo com um estudo do Instituto Nacional de Neurociências de Turim, na Itália, publicado em 2010 na revista "Science", a mesma parte do cérebro que é responsável pela elaboração dos sentidos também atua no armazenamento da memória.

Assim, um cheiro, uma música ou uma imagem pode evocar as mais diversas lembranças. Um exemplo clássico é a obra-prima do escritor francês Marcel Proust, “Em Busca do Tempo Perdido”, em que o cheiro de madeleine, um tradicional doce francês, fez com que o autor relembrasse sua infância e, a partir daí, desenvolvesse a história.

Estresse e ansiedade

A memória é fortemente influenciada por fatores afetivos e psicológicos. Assim, os estados afetivos, o humor ou a emoção alteram o processamento das informações. Se estamos bem, podemos nos concentrar melhor – o que influencia na retenção da informação. Mas se estamos preocupados, distraídos, com várias coisas na cabeça, então será mais difícil receber e registrar as informações.

O estresse e a ansiedade são dois grandes inimigos da memória. O excesso de estresse não apenas dificulta a concentração e a atenção, como também interfere no próprio processo de aquisição e formação de novas memórias. A ansiedade também pode alterar este processo, principalmente por comprometimento da atenção.

Some-se a isso as cobranças intensas da vida moderna, associadas a longas jornadas de trabalho e sono de baixa qualidade, e o resultado é que fica muito mais difícil lembrar nomes de pessoas, o que devemos fazer em seguida e até mesmo onde deixamos as chaves ou o celular, por exemplo.

"Podemos dizer que o excesso de demanda da química necessária para manter o corpo e a mente ativados se 'esgotam' em algum momento", alerta o psiquiatra Sergio Klepacz, do Hospital Samaritano de São Paulo. As consequências mais imediatas são falta de atenção, perda de concentração e dificuldade de memória.

Envelhecimento

O envelhecimento pode trazer um pequeno deficit de atenção, de concentração, de armazenamento de dados atuais. Mas isso não significa que todas as pessoas mais velhas tenham problemas de memória. O envelhecimento saudável, mantendo-se ativo, contribui muito para que a memória também se conserve saudável e ativa.

“A diminuição da memória na terceira idade é normal, principalmente a episódica, para fatos e informações recentes do dia a dia (lembrar-se de nomes de pessoas, lugares onde guardou seus pertences ou seu carro etc.), que acontecem apenas de vez em quando, não persistem e não interferem ou atrapalham as atividades cotidianas”, explica o neurologista Benito Damasceno, professor do Departamento de Neurologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp.

$escape.getHash()uolbr_quizEmbed('http://noticias.uol.com.br/saude/quiz/2013/02/18/voce-sabe-cultivar-sua-memoria.htm') Sinal de alerta

No entanto, nem sempre os esquecimentos são apenas fruto do estresse, da distração ou da ansiedade. Quando os esquecimentos são muito frequentes, especialmente quando a pessoa passa a esquecer fatos e informações que costumava lembrar com facilidade, é bom ficar atento, pois pode ser um sinal de síndrome demencial.

As síndromes demenciais são a perda ou redução progressiva das capacidades cognitivas – ou seja, do processo que envolve atenção, percepção, raciocínio e linguagem, e especialmente a memória.

A demência mais comum é a doença de Alzheimer. De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), a doença afeta atualmente entre 24 e 37 milhões de pessoas no mundo todo. O alzheimer é uma doença neurodegenerativa, ou seja, que destrói os neurônios progressivamente. Essa degeneração começa no hipocampo, área que processa a memória, e com o tempo se espalha por outras regiões do cérebro.

“Esquecimentos persistentes de fatos recentes, recados, compromissos, dificuldades com planejamento de atividades, cálculos, controle das finanças, desorientação no tempo e no espaço, dificuldade de executar tarefas rotineiras e alterações de comportamento são os primeiros sinais da doença de Alzheimer”, explica o psiquiatra Cássio Bottino, professor do Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP.

Caso esse quadro se repita com frequência, é importante buscar ajuda especializada. Afinal, um diagnóstico precoce muitas vezes pode fazer toda a diferença no sucesso do tratamento.

Porém, existem também outras doenças que podem afetar a memória. “Os ‘derrames’ ou isquemias, diabetes, abuso de álcool e outras drogas, deficit de vitaminas (hipovitaminose b12), doenças da tireoide (hipotiroidismo), infecções do cérebro, doenças do fígado e rim, e mesmo excesso de medicamentos que a pessoa usa (anti-hipertensivos, antibióticos, anticolinérgicos etc.) podem afetar a memória”, aponta Damasceno.

Ativando a memória

Para ativar a memória é preciso mantê-la ativa. Ou seja: quanto mais você exercita a memória, mais ela fica “afiada”. Ler é um dos melhores exercícios, mas não é o único. Outras atividades que estimulem o cérebro a pensar também contribuem para estimular a memória como xadrez, jogos de cartas, dama, palavras cruzadas, caça-palavras, videogames e quebra-cabeça, entre outros.

Conversar e expressar opiniões também é importante: durante a atividade argumentativa, o cérebro é requisitado para opinar e replicar, e essa argumentação colabora para a memorização. Por isso a socialização tem um importante papel na memória. “É fundamental a sociabilização para a memória, a saúde e o bem-estar do ser humano”, afirma o neurologista Custódio Michailowsky Ribeiro, do Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional do Hospital 9 de Julho.

Manter o corpo saudável também contribui muito para a saúde da memória. Ter uma alimentação balanceada, praticar exercícios regularmente, evitar o estresse e procurar ter uma boa qualidade de sono são fundamentais. “Ter paciência, bom humor, organização, saber distribuir o seu tempo diário com trabalho, descanso e lazer. Bons hábitos e uma boa noite de sono com muitos sonhos também ajudam, pois, neste período, o cérebro faz sua limpeza das impurezas produzidas pela atividade neuronal realizada durante o dia”, recomenda Ribeiro.