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Homem precisou "ressuscitar" para ter diagnóstico de síndrome ligada a zika

Ideraldo Luis Costa Duarte, 42, teve parada cardíaca no quarto dia de internação sem qualquer diagnóstico - Beto Macário/UOL
Ideraldo Luis Costa Duarte, 42, teve parada cardíaca no quarto dia de internação sem qualquer diagnóstico Imagem: Beto Macário/UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

04/01/2016 06h00

Ideraldo Luis Costa Duarte, 42, foi mais uma das milhares de pessoas que contraíram o vírus da zika neste ano. O que ele não esperava é que, logo após a doença, fosse vítima de um problema raro, mas que vem se espalhando pelo Nordeste: a Síndrome de Guillain-Barré.

Para ser diagnosticado, precisou ter parada cardíaca e ser ressuscitado pelos médicos.

A doença é caracterizada por causar fraqueza muscular e paralisia. No Nordeste, foram registrados ao menos 554 casos neste ano, a maioria entre maio e outubro. 

Em junho, logo após contrair o vírus, Duarte conta que começou a sentir sintomas diferentes daqueles usuais da doença. “Eu comecei a sentir dormência nas pernas, nos braços e nos lábios. Foi dando uma fraqueza até que deixei de andar e fui ao hospital. Fazia exames e sempre estava tudo bem, as plaquetas em ordem, e os médicos ficaram sem saber o que era”, contou.

Duarte lembra que foram quatro dias internados sem qualquer diagnóstico. Com isso, os sintomas foram se agravando. No quarto dia veio o momento marcante da doença. “Tive uma parada cardíaca. Só lembro que desacordei no HGE [Hospital Geral do Estado] e, quando acordei, dias depois, estava entubado na Santa Casa [de Misericórdia de Maceió]”, relata.

No começo, ele conta que chegou a ser de desenganado pela falta de diagnóstico e pelo agravamento constante da síndrome. “Alguns amigos diziam que não tinha mais jeito, os médicos não sabiam o que era. Eu estava praticamente morto, só Deus mesmo para explicar [a cura], ele deve ter alguma missão pra mim nesse mundo”, ressalta.

Ele conta que foram dois meses de internamento e tratamento até ficar curado. Hoje, ele tem uma vida normal e trabalha em uma serigrafia no centro da capital alagoana. “Estou recuperado 100% e jogo até futebol. Não tenho sequela. O que fiquei foi com o braço direito meio sem força, mas acho que é porque fiquei muito tempo deitado sobre ele. Como meu pulmão esquerdo foi o mais afetado, fiquei deitado de um lado só”, explicou.

A síndrome

O médico responsável pelo tratamento de Duarte é o hematologista Wellington Galvão. No Estado, em vez da imunoglobulina, um convênio do governo com a Santa Casa de Misericórdia de Maceió oferece a todos um método mais avançado, a plasmaférese --tratamento em que o sangue é retirado do paciente para separação de elementos e retirada dos anticorpos que atacam o sistema nervoso.

Para curar um paciente, são necessárias de cinco a 18 sessões -- cada uma com um custo estimado em R$ 6.500.

Galvão conta que realiza esse tipo tratamento há 16 anos e atendia, em média, de 12 a 15 pacientes por ano. “Só de maio para cá são 43 em decorrência dessa nova virose”, diz. “Os especialistas dizem que o vírus zika aumenta a possibilidade de você ter Guillain-Barré em 20 vezes. Sem ele, a possibilidade é uma fatalidade muito rara, com uma a dois casos a cada 100 mil habitantes.”

O médico explica que apesar da relação, não é o vírus que ataca o corpo. “A Guillain-Barré não tem nada a ver com o vírus da zika ou com outro vírus. Uma infecção proporciona que o organismo produza anticorpo. Todo mundo fabrica quando tem virose, uma gripe. Só que esse anticorpo, que normalmente circula e não causa problema algum, em alguns casos começa a identificar o sistema nervoso como um inimigo e o confunde com vírus que ele matou. Ou seja, ele vê uma similaridade do vírus com a condução periférica dos nervos e começa a atacar o sistema nervoso”, conta.

E existem alguns tipos de síndrome. Para Galvão, o mais importante é identificar os sintomas e buscar ajuda médica rapidamente logo no início. “Ela é uma doença autoimune, que varia de gravidade. São várias formas, tem a que é mais grave, que leva muito paciente a óbito. Se você não parar a doença, ela paralisa tudo. Normalmente começa paralisando perna, depois os braços e depois paralisa o sistema respiratório. Aí o paciente morre”, explica.

Segundo o médico, a forma grave atinge cerca de 20% dos pacientes. Dos 43 pacientes atendidos no Estado neste ano, oito tiveram a forma grave. Para tratar a síndrome, é necessária a internação em UTI (Unidade de Terapia Intensiva). “Depende de uma equipe multiprofissional, precisa de uma UTI. A equipe tem conhecer tudo que se deve fazer, fisioterapia, enfermagem adequada. Isso é fundamental”, explica.