Homem precisou "ressuscitar" para ter diagnóstico de síndrome ligada a zika

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

  • Beto Macário/UOL

    Ideraldo Luis Costa Duarte, 42, teve parada cardíaca no quarto dia de internação sem qualquer diagnóstico

    Ideraldo Luis Costa Duarte, 42, teve parada cardíaca no quarto dia de internação sem qualquer diagnóstico

Ideraldo Luis Costa Duarte, 42, foi mais uma das milhares de pessoas que contraíram o vírus da zika neste ano. O que ele não esperava é que, logo após a doença, fosse vítima de um problema raro, mas que vem se espalhando pelo Nordeste: a Síndrome de Guillain-Barré.

Para ser diagnosticado, precisou ter parada cardíaca e ser ressuscitado pelos médicos.

A doença é caracterizada por causar fraqueza muscular e paralisia. No Nordeste, foram registrados ao menos 554 casos neste ano, a maioria entre maio e outubro. 

Em junho, logo após contrair o vírus, Duarte conta que começou a sentir sintomas diferentes daqueles usuais da doença. "Eu comecei a sentir dormência nas pernas, nos braços e nos lábios. Foi dando uma fraqueza até que deixei de andar e fui ao hospital. Fazia exames e sempre estava tudo bem, as plaquetas em ordem, e os médicos ficaram sem saber o que era", contou.

Duarte lembra que foram quatro dias internados sem qualquer diagnóstico. Com isso, os sintomas foram se agravando. No quarto dia veio o momento marcante da doença. "Tive uma parada cardíaca. Só lembro que desacordei no HGE [Hospital Geral do Estado] e, quando acordei, dias depois, estava entubado na Santa Casa [de Misericórdia de Maceió]", relata.

No começo, ele conta que chegou a ser de desenganado pela falta de diagnóstico e pelo agravamento constante da síndrome. "Alguns amigos diziam que não tinha mais jeito, os médicos não sabiam o que era. Eu estava praticamente morto, só Deus mesmo para explicar [a cura], ele deve ter alguma missão pra mim nesse mundo", ressalta.

Ele conta que foram dois meses de internamento e tratamento até ficar curado. Hoje, ele tem uma vida normal e trabalha em uma serigrafia no centro da capital alagoana. "Estou recuperado 100% e jogo até futebol. Não tenho sequela. O que fiquei foi com o braço direito meio sem força, mas acho que é porque fiquei muito tempo deitado sobre ele. Como meu pulmão esquerdo foi o mais afetado, fiquei deitado de um lado só", explicou.

A síndrome

O médico responsável pelo tratamento de Duarte é o hematologista Wellington Galvão. No Estado, em vez da imunoglobulina, um convênio do governo com a Santa Casa de Misericórdia de Maceió oferece a todos um método mais avançado, a plasmaférese --tratamento em que o sangue é retirado do paciente para separação de elementos e retirada dos anticorpos que atacam o sistema nervoso.

Para curar um paciente, são necessárias de cinco a 18 sessões -- cada uma com um custo estimado em R$ 6.500.

Galvão conta que realiza esse tipo tratamento há 16 anos e atendia, em média, de 12 a 15 pacientes por ano. "Só de maio para cá são 43 em decorrência dessa nova virose", diz. "Os especialistas dizem que o vírus zika aumenta a possibilidade de você ter Guillain-Barré em 20 vezes. Sem ele, a possibilidade é uma fatalidade muito rara, com uma a dois casos a cada 100 mil habitantes."

O médico explica que apesar da relação, não é o vírus que ataca o corpo. "A Guillain-Barré não tem nada a ver com o vírus da zika ou com outro vírus. Uma infecção proporciona que o organismo produza anticorpo. Todo mundo fabrica quando tem virose, uma gripe. Só que esse anticorpo, que normalmente circula e não causa problema algum, em alguns casos começa a identificar o sistema nervoso como um inimigo e o confunde com vírus que ele matou. Ou seja, ele vê uma similaridade do vírus com a condução periférica dos nervos e começa a atacar o sistema nervoso", conta.

E existem alguns tipos de síndrome. Para Galvão, o mais importante é identificar os sintomas e buscar ajuda médica rapidamente logo no início. "Ela é uma doença autoimune, que varia de gravidade. São várias formas, tem a que é mais grave, que leva muito paciente a óbito. Se você não parar a doença, ela paralisa tudo. Normalmente começa paralisando perna, depois os braços e depois paralisa o sistema respiratório. Aí o paciente morre", explica.

Segundo o médico, a forma grave atinge cerca de 20% dos pacientes. Dos 43 pacientes atendidos no Estado neste ano, oito tiveram a forma grave. Para tratar a síndrome, é necessária a internação em UTI (Unidade de Terapia Intensiva). "Depende de uma equipe multiprofissional, precisa de uma UTI. A equipe tem conhecer tudo que se deve fazer, fisioterapia, enfermagem adequada. Isso é fundamental", explica.

 

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