Caminhoneiro faz campanha de R$ 1 milhão para tratar perna 'gigante'

Ana Carolina Silva

Colaboração para o UOL

Um milhão de reais. A quantia que costuma representar o sonho de vida de muitos é, para Estevão Ahnert, a grande esperança de uma nova vida. A perna esquerda do capixaba de Cariacica já chega a 100 quilos e o impede de trabalhar desde 2008, motivo pelo qual ele conta com a solidariedade das pessoas na internet: uma campanha para a arrecadação de cerca de R$ 1 milhão.

O caminhoneiro de 38 anos recebeu ainda na infância o diagnóstico de um linfedema. "Eu cortei a lateral do pé com um caco de vidro quando tinha 10 anos. Cortei uma das principais veias da perna, então por isso as outras secaram. Eu não tenho circulação de sangue e tenho retenção de líquido. Os linfonodos que a gente tem na batata da perna morrem por causa disso, então a água que está no sangue não circula para fora. Então vai crescendo, crescendo, acumulando e não para de crescer", explicou à reportagem do UOL.

Arquivo Pessoal

O pequeno filho André e a jovem Ester, filha da esposa Diana que o vê como pai, são as principais motivações do capixaba para procurar tratamento. A intervenção cirúrgica, porém, custaria um valor impraticável para o orçamento da família: somada a hospedagem em São Paulo e os gastos com cada profissional, incluindo nutricionista e ortopedista, os Ahnert calculam o valor de R$ 1 milhão. Para tanto, eles contam com a solidariedade dos internautas na "vaquinha" online para arrecadar a quantia, além de uma rifa organizada com os amigos que terá um caminhão como prêmio ao vencedor.

Estevão chegou a ser internado pelo SUS em 2008, tão logo abandonou a vida nas estradas, mas a experiência no Hospital Universitário da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) só serviu para traumatizá-lo. "Tomei um trauma muito grande lá dentro, vendo todo mundo naquela situação difícil e aquele monte de gente sofrendo. Essa água toda tem que sair, e só sai através de drenagem linfática, massagem e estimulação pela urina. Só depois disso vem a cirurgia, e esse procedimento leva um dia inteiro. Se eu continuasse pelo SUS, só poderia ir uma vez por semana e apenas durante uma hora. O Sistema Único de Saúde não vale nada hoje", desabafou. O nascimento do filho André em agosto de 2014, no entanto, deu a Estevão mais um motivo para brigar.

"Se me perguntassem em 2008, eu diria que preferia morrer desse jeito do que voltar para dentro daquele lugar [Hospital Universitário Cassiano Antonio Moraes, o HUCAM da UFES]. Aí a minha esposa engravidou e renasceu no meu coração a vontade de ficar bom. Se dependesse de mim, eu preferiria morrer assim porque já fui muito discriminado, mas hoje posso passar a humilhação que for, mas passo pelo meu filho", emocionou-se.

O angiologista e cirurgião vascular Dr. Robson Barbosa de Miranda, médico responsável por uma das equipes de cirurgia vascular no Hospital do Coração (HCor) comentou o relato de Estevão e acredita que a cirurgia é a melhor opção, já que um tratamento pode não surtir efeito. "São cirurgias de exceção. Você só faz um procedimento desse quando o paciente tem uma modificação funcional total. Na maioria dos casos é um tratamento clínico. No caso dele, com 100 quilos na perna esquerda, é provável que não tenha viabilidade de melhora clínica", analisou.

Mas teria o corte no pé causado o linfedema? "Isso, na verdade, é a visão que ele tem. Mas ele provavelmente já deveria ter um linfedema congênito que apenas não havia se manifestado ainda. E aí, com esse corte, o sistema linfático acabou prejudicado", explicou o médico. "O sistema funciona como a drenagem da linfa, que é um líquido formado por água, proteína e células de defesa. Está distribuído no organismo todo. Quando você tem um problema, ocorre a retenção de líquido. Quando chove muito em uma plantação e a drenagem está com problema, ocorrem os alagamentos", prosseguiu o profissional, especialista pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV).

A vaquinha foi criada no dia 23 de março; até a publicação desta reportagem, pouco mais de R$ 900 haviam sido arrecadados oficialmente, enquanto outros R$ 1.000 permaneciam pendentes com boletos ainda não pagos. Embora se diga surpreso com a repercussão de seu caso na internet, Estevão não se anima com a contribuição. "Se você analisar a repercussão, os compartilhamentos estão grandes, mas a doação não dá muita coisa, não. Tem várias doações de 10 centavos na conta. Então não tenho toda essa perspectiva com a vaquinha, a esperança maior é de alguém influente poder me ajudar a divulgar", pontuou o caminhoneiro.

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