Doação de ex-juíza cria nova UTI em hospital em crise em Curitiba

Rafael Moro Martins

Colaboração para o UOL, em Curitiba

  • Divulgação/HUEC (Hospital Universitário Evangélico de Curitiba)

    Elizabeth Tae Kinashi acompanha as obras do Hospital Evangélico, em Curitiba, Paraná

    Elizabeth Tae Kinashi acompanha as obras do Hospital Evangélico, em Curitiba, Paraná

Famoso em todo o país após a suspeita de assassinatos em sua unidade de terapia intensiva (UTI) entre 2011 e 2013 e mergulhado numa profunda crise financeira, que levou a Justiça a colocá-lo sob intervenção em 2014, o Hospital Evangélico, em Curitiba, tem finalmente uma boa notícia: colocará em funcionamento, nas próximas semanas, uma nova UTI neonatal, graças a uma doação de R$ 530 mil feita por uma juíza estadual aposentada.

A responsável pela doação, Elizabeth Tae Kinashi, 66 anos, cumpriu um desejo da irmã, Maria Homi Kinashi, também ex-juíza estadual, morta em 2014, aos 69 anos. O dinheiro que permitiu as obras no Evangélico era o espólio de Maria. Elizabeth negociou com os sete irmãos para que os R$ 530 mil não fossem divididos entre eles, mas sim entregues ao hospital.

A doação permitiu que a antiga UTI neonatal fosse colocada abaixo. Tudo é novo: piso, instalação elétrica, ar condicionado, iluminação e sala dos médicos. E a capacidade será dobrada: em vez dos 20 leitos anteriores -- dos quais apenas 16 estavam em condições de uso, agora serão 40.

"Esse é o grande legado de toda a reforma. Há uma emergência em Curitiba e região metropolitana de leitos de UTI neonatal, é uma carência nacional. E somos um hospital referência na área", diz o administrador judicial do Evangélico, Ladislau Zavadil Neto.

Elizabeth acompanhou pessoalmente a obra, iniciada em agosto de 2016 e encerrada em meados de janeiro."O serviço foi tocado por uma empreiteira contratada pelo hospital, com supervisão dela. A cada etapa concluída, ela fazia o pagamento correspondente. Ela foi quase a nossa mestre de obras. Todo mês, ela vinha dar uma conferida", diz o administrador. "Por isso, digo que ela fez mais do que dar o dinheiro. Ela acompanhou cada parafuso, cada piso colocado."

Divulgação/HUEC (Hospital Universitário Evangélico de Curitiba)
Elizabeth Tae Kinashi e Ladislau Zavadil Neto (dir.), administrador judicial do Evangélico, inspecionam as obras no hospital

Descendente de japoneses, Elizabeth é uma mulher rigorosa. Demorou a aceitar o pedido para dar uma entrevista. "É o nome da minha irmã que tem que aparecer, o legado é dela", justificou-se, na manhã de janeiro em que recebeu o UOL, no próprio hospital. "Eu não queria aparecer como alguém que fez algo bonito. Não foi com essa intenção que fiz o que fiz, mas sim diminuir a fila do SUS. E, se salvar uma vida que seja, já terá valido a pena."

Maria, cujo espólio permitiu a obra na UTI neonatal, era a irmã mais próxima de Elizabeth. A tal ponto dela seguir os passos de Maria na carreira. "Eu a admirava tanto que fui atrás dos passos dela, fui ser juíza. Mas, como ela atuava no Paraná, eu fui prestar concurso no Mato Grosso do Sul, para que ninguém sugerisse que eu tinha entrado por conta dela", afirma.

Pouco depois da morte da irmã, Elizabeth, que vivia em Campo Grande, mudou-se para Curitiba. "Ela morava aqui, e eu não consegui aguentar com o luto. Éramos unha e carne", diz. "Maria era muito preocupada com a saúde pública, e fez o pedido para que eu destinasse seus bens a quem precisa." Parte do espólio foi entregue a outro hospital de Curitiba, o das Clínicas, vinculado à UFPR (Universidade Federal do Paraná). A outra financiou a nova UTI neonatal do Evangélico. "Ela tinha a preocupação de que o dinheiro fosse usado direito", afirma Elizabeth, como que explicando o rigor com que acompanhou a obra.

Com a obra concluída, a administração judicial espera que o Ministério da Saúde libere o dinheiro necessário para equipar a nova UTI neonatal. Uma emenda de R$ 1,5 milhão, do senador Roberto Requião (PMDB), já está empenhada (isto é, tem autorização de pagamento) no orçamento federal. Falta a liberação do ministro Ricardo Barros, filiado ao PP e adversário político de Requião.

Procurado pelo UOL, o Ministério informou o seguinte: "Os recursos da emenda parlamentar do senador Roberto Requião estão garantidos para pagamento. A previsão é até o final de janeiro. Outras quatro emendas parlamentares foram empenhadas para a unidade hospitalar de Curitiba, somando mais de R$ 1,6 milhão para aquisição de equipamentos". A pasta disse ainda que, sob Barros, "triplicou a liberação de emendas parlamentares", algo que classificou como "atuação integrada entre os poderes Executivo e Legislativo".

AEN
Hospital Evangélico, em Curitiba

Dívida de R$ 500 milhões

A nova UTI neonatal do Hospital Evangélico --com piso claro, paredes brancas-- destoa do restante do prédio, que, da pintura gasta e mobiliário antigo, dá mostras de que já viveu dias melhores. Maior hospital privado do Paraná, o Evangélico atende cerca de 500 mil pessoas atendidas por ano, 95% delas pelo SUS. É, ainda, unidade de referência nacional no atendimento a queimados --mantém o único banco de pele para transplante do país.

"A situação é muito crítica, temos dificuldades para manter o atendimento. Nos esforçamos para manter em dia os pagamentos essenciais e honorários médicos, além da folha de pessoal. É uma luta diária é manter o hospital de portas abertas. E, tirando voluntários como Elizabeth, não temos ajuda nenhuma", disse Zavadil, o administrador judicial. "Tentamos manter o hospital aberto pela relevância dele para a saúde pública. Mas não vejo preocupação da sociedade em ver que esse hospital está a caminho de ser fechado", afirmou.

"Houve uma administração precária do hospital durante muitos anos, o que dilapidou o patrimônio", disse. Atualmente, a dívida do Evangélico é estimada em R$ 500 milhões. Até a conta de luz deixou de ser paga --apenas à Copel, estatal estadual de energia, o hospital deve R$ 14 milhões. Nos últimos anos, greves e suspensões parciais de atendimento por falta de recursos passaram a ser fatos corriqueiros na unidade.

De 1998 a 2011, a Sociedade Evangélica Beneficiente (SEB), administradora do hospital, foi comandada por André Zacharow, que também acumulou três mandatos como deputado federal, entre 2003 e 2014, pelo PMDB. Ele concorreu a um quarto mandato, em 2014, mas os parcos 19.268 votos que amealhou o deixaram de fora da Câmara. Ainda deputado, ele já era investigado pela Polícia Federal, por ordem do ministro Celso de Mello, decano do Supremo Tribunal Federal (STF). Entre as suspeitas que pesam conta Zacharow, está a de usar funcionários do Evangélico em sua campanhas eleitorais.

O UOL tentou contato com Zacharow desde o último dia 21. Procurou a Primeira Igreja Batista de Curitiba, à qual o político é ligado. Ouviu da assessoria que "Zacharow é apenas membro [da igreja], e por essa razão não podemos divulgar seus contatos", e uma sugestão para que o procurasse por uma rede social --o que foi feito, sem sucesso. A reportagem também telefonou para João Jaime Nunes Ferreira, que sucedeu o ex-deputado no comando do Evangélico. "Não tenho relação com esse sujeito", ele disse. Os dois eram tidos como pessoas próximas.

Ao descontrole administrativo, se somou o impacto da suspeita de assassinatos na UTI, refutada pela Justiça, em primeira instância, no ano passado. "Esse caso levou o hospital a perder totalmente os atendimentos particulares e de convênios. O faturamento mensal caiu de R$ 5 milhões para R$ 700 mil, em valores atualizados. A Justiça decidiu que as mortes não foram provocadas, mas quem recupera os R$ 250 milhões que o Evangélico deixou de faturar por conta disso?", questionou Zavadil. "Isso fora o dano na imagem, que é incalculável, e não tem como recuperar a curto prazo."

Sob intervenção desde 2014, o Evangélico poderá ir a leilão ainda em 2018. Zavadil disse esperar que um novo administrador possa negociar o pagamento da dívida e voltar a investir na unidade. A esperança é que a Faculdade Evangélica do Paraná, que oferece um disputado e bem avaliado curso de medicina e não tem dívidas, ajude a atrair interessados.

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