Último caso de paralisia infantil do Brasil sonha em ser personal trainer

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

  • Arquivo pessoal

Quem vê Deivson Rodrigues, 30, em boa forma e atuando como estagiário em uma academia não imagina que ele é o símbolo da luta nacional pela vacinação contra uma doença que remete a paralisia infantil: a poliomielite.

Há 29 anos, quando tinha apenas um ano e cinco meses, os pais dele descobriam que ele tinha a doença. Passadas quase três décadas, Deivson hoje tem uma vida completamente normal, cursa educação física e pretende ser personal trainer.

Deivson nasceu no sertão da Paraíba, na pequena Sousa (a 445 km de João Pessoal), onde vive até hoje com os pais e o irmão. Deivson está no sexto período da faculdade, e já imagina sua vida quando estiver formado.

"Depois da faculdade quero fazer uma pós-graduação de personal. Gosto de atuar em área fitness, como academia e clubes", conta.

Em duas décadas, 27 mil casos

Deivson foi o último caso registrado de uma longa história da doença conhecida como paralisia infantil, que teve cerca de 27 mil casos entre 1968 e 1989, conta a presidente da Associação G-14 de Apoio aos Pacientes de Poliomielite e Síndrome Pós-Pólio, Andrea Silva. 

O Brasil tem notificação compulsória para casos de poliomielite desde 1968, "entretanto, o maior surto foi antes disso", conta a presidente da associação. A vacina contra a poliomielite começou a ser ofertada no sistema público em 1960, e se tornou parte do Programa Nacional de Imunizações, criado em 1971.

Deivson conta que chegou a tomar duas doses da vacina, mas que não tinham sido armezanadas adequadamente. "Acredito que foi uma má conservação da vacina. A região em que moro é muito quente, é sertão."

As crianças com até 5 anos devem receber a vacina contra a poliomielite

Com o sucesso das campanhas de vacinação, desde 1990, o Ministério da Saúde não registra circulação de poliovírus selvagem.

Hoje, Deivson tem orgulho de ser o "marco final" de uma das doenças que mais traumatizou os pais brasileiros em décadas passadas, e chegou a fazer parte da campanha de vacinação. "Espero ser sempre o último caso. Sou muito feliz sabendo que esse vírus foi eliminado do nosso país", afirma.

Febre alta e a descoberta

A infância de Deivson teve a mudança brusca em 1989. "Eu nasci uma criança normal. Com um ano e cinco meses, tudo começou com uma febre muito alta e minha mãe me levou para o consultório da doutora Nubia Gadelha. Isso foi em um domingo, mas a médica fez delicadeza de me consultar."

Pelos sintomas de pólio, ele foi imediatamente encaminhado a imediatamente me encaminhou para a capital, João Pessoa. "Chegando lá fiz exames e foi constatado que estava com poliomielite", explica.

Deivson ficou internado por seis meses em João Pessoa, onde recuperou-se completamente. "Passei esses meses fazendo fisioterapia e tomando medicamentos. Aos poucos fui recuperando as forças, até ficar totalmente curado", afirma. A doença não tem tratamento específico, mas há tratamentos paliativos para evitar sequelas.

Deivson conta que conheceu outra pessoa na sua cidade que teve a doença, mas ficou com sequelas."Está com uns três anos que ele faleceu, acredito que pela sequela da pólio, que atingiu muito ele. Ele teve bastante consequência", diz.

Segundo Andrea Silva, da associação de pacientes, apesar de a doença ter fama de ser paralisante na maioria dos casos, é comum pessoas viverem normalmente nos dias de hoje.

"De 90 a 95% das pessoas que tiveram contato com o vírus não apresentam sequelas aparentes, mas podem apresentar os sintomas da síndrome pós-poliomielite [a SPP] dependendo do alcance da lesão neurológica", afirma.

Ela conta que pessoas ainda procuram médicos com problemas neurológicos como quedas, fraqueza e dores.

"O que acontecia é que a família escondia que a pessoa teve a poliomielite. Hoje sabemos de muitos casos em que a família negou a pólio para a criança. Agora estamos recebendo muitas pessoas, sem sequela, e que tem os sintomas dessa síndrome. Ao investigar os sintomas, acabam descobrindo que tiveram a pólio na infância", relata.

Entretanto, Andrea afirma que há dificuldade no diagnóstico da síndrome.

"As faculdades de medicina não ensinam mais sobre poliomielite e não há interesse em estudar a pós-pólio por que a população afetada por este mal está com os dias contados. Então, não temos médicos capacitados para avaliar e diagnosticar a pós-pólio", diz. "Os centros de reabilitação também não nos enquadram em pacientes a serem reabilitados, já que a pós-pólio não pode ser revertida --ou reabilitada", conclui.

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