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Saída de cubanos deixa bairro pobre do Rio sem médicos: "Agora, só Jesus"

Tais Cristina Barros Cipriano, acompanhada da irmã, Lais Cristina, e as crianças com problemas alérgicos - Ricardo Borges/UOL
Tais Cristina Barros Cipriano, acompanhada da irmã, Lais Cristina, e as crianças com problemas alérgicos Imagem: Ricardo Borges/UOL

Marina Lang

Colaboração para o UOL, no Rio

16/12/2018 04h00

As portas da pequena unidade de saúde que atende a Vila Urussaí, em Saracuruna, bairro humilde de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense (região metropolitana do Rio), estavam fechadas quando a reportagem do UOL chegou ao local, durante a tarde da última sexta-feira (14). 

Localizada dentro do Ciep Brizolão Municipalizado 318 - Paulo Mendes Campos, centro de ensino de comunidades carentes criado pelo antropólogo Darcy Ribeiro nas gestões do ex-governador Leonel Brizola (1983-1987 e 1991-1994), a clínica fecha habitualmente cedo.

Seu horário de pico é pelas manhãs, quando o público, geralmente composto por mulheres --algumas delas grávidas-- e crianças, era atendido pela doutora Adriana, médica cubana que deixou o país com outros 8.330 médicos após críticas do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), em relação ao contrato entre Cuba e o programa Mais Médicos.

Devido à decisão do governo cubano, além de saudades, Adriana deixou para trás alguns acompanhamentos de famílias inteiras.

Foi o caso da dona de casa Lais Cristina Silva de Barros, 25, que, hoje, precisa percorrer os extremos da cidade --ou mesmo ir a outros municípios-- para conseguir atendimento para as duas filhas pequenas, Jenifer Luiza Barros Rocha, 6, e Emanuele Sofia Barros Rocha, 3. 

Elas têm alergias respiratórias desde o nascimento, um problema crônico que pode se converter em asma ou pneumonia, e precisam de um tratamento específico e personalizado, algo que Adriana e Glória, as duas médicas cubanas que passaram pela unidade da Vila Urussaí, faziam com extrema dedicação.

"Quando o Mais Médicos chegou, poxa, foi ótimo. Porque a gente tem que ficar esperando de madrugada para ir para outros hospitais, madrugar com criança. Aqui não, aqui tinha um horário certinho. A gente chegava e era bem atendido", conta Lais.

"Achei maravilhoso porque pegou nosso bairro [o atendimento é de acordo com uma área definida], tratou nossas crianças, era um tratamento muito bom. As doutoras que vieram para cá eram perfeitas. Meu pré-natal foi todo aqui. Agora não sei o que aconteceu, tiraram os médicos todos", lamenta.

A região conta ainda com uma pequena unidade de saúde com emergência, na qual os moradores também relatam faltar médicos.

"Nós nos sentimos impotentes. Primeiro porque não tem pediatra. A doutora Adriana estava nos atendendo, passando medicamento para as crianças. Tiraram o pediatra e, agora, tiraram a doutora. A gente ficou sem médico nenhum", diz.

"Ficamos aqui de mãos atadas, sem poder fazer nada", relata. "As crianças aqui precisam muito de médico e pediatra. Muito mesmo. São muito carentes."

Família - Ricardo Borges/UOL - Ricardo Borges/UOL
Com gravidez de risco, Tais Cristina Cipriano estava sendo acompanhada por cubanos e agora só tem dois enfermeiros no bairro
Imagem: Ricardo Borges/UOL

A irmã de Lais não está em situação muito diferente: grávida de nove meses, a dona de casa Tais Cristina Barros Cipriano, 32, está sendo assistida pela enfermeira remanescente no local, enquanto aguarda a chegada de um novo médico pela reformulação do programa. 

Tem uma gravidez de risco, segundo ela relatou, tendo já perdido líquido amniótico --ela foi encaminhada para grandes hospitais para ser medicada.

"Já fui atendida em hospital grande pelos cubanos. Mas eles já saíram. Agora, só Jesus", diz. "Com as duas doutoras que estiveram aqui, a Adriana e a Glória, foi ótimo. Elas me tratavam bem. Se fosse para as médicas cubanas voltarem, amém", diz ela. "Agora tenho acompanhamento dos dois enfermeiros. A enfermeira está tentando segurar as pontas, ela dá o máximo que ela pode. Faz o impossível para atender a gente, todas nós", relata.

Na última quarta-feira (12), ela conta ter esperado cinco horas para ser atendida. "Passei mal, vim com a minha mãe cedo. Se os cubanos voltassem, eu ia ficar bem feliz."

Outro lado

A reportagem procurou o Ministério da Saúde para comentar sobre a situação vivida pelas famílias da Vila Urussaí.

Em nota, a pasta diz que "está aberto um edital para preencher as 8.517 vagas que eram ocupadas, em todo o país, por médicos da cooperação com Cuba". "Este edital constitui uma medida adotada pelo governo brasileiro para garantir a assistência em locais que contavam com profissionais da cooperação."

A pasta, ainda, ressalta que "está fazendo todos os esforços para preencher essas vagas".

O edital de convocação contempla 227 vagas no estado do Rio. O Ministério da Saúde diz não possuir dados estratificados por região. Das 13 vagas dedicadas ao programa em Duque de Caxias, quatro ainda não foram preenchidas.

Além da clínica da Vila Urussaí, Equipe de Saúde Vila Maria Helena, Equipe de Saúde Gramacho 3 e Equipe Parada Morabi 2 não conseguiram médicos.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde de Duque de Caxias, há apenas um médico atua na Vila Urussaí.