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22% dos jovens de 15 a 24 anos se sentem deprimidos, aponta Unicef

Getty Images
Imagem: Getty Images

Ana Paula Bimbati

Do UOL, em São Paulo

04/10/2021 21h01Atualizada em 04/10/2021 21h04

Relatório divulgado hoje pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) mostra que 22% dos adolescentes e jovens brasileiros de 15 a 24 anos entrevistados pela organização disseram que se sentem, "muita vezes", deprimidos ou com "pouco interesse em fazer as coisas".

Para o Unicef, o impacto da pandemia do coronavírus na piora da saúde mental das crianças, adolescentes e jovens de todo mundo é só a "ponta do iceberg" para um tema que é, muitas vezes, deixado de lado.

Os dados e análises da organização fazem parte do relatório "Situação Mundial da Infância 2021". Outros dados fazem parte de estudo internacional feito pelo Unicef com a Gallup, que será divulgado integralmente no próximo mês.

O Brasil não ocupa o primeiro lugar no ranking —a República dos Camarões tem 32% dos jovens da mesma faixa etária dizendo que se sentem deprimidos. Ainda assim, o país, segundo Gabriela Mora, oficial da área de Desenvolvimento de Adolescentes do Unicef no Brasil, precisa reforçar as políticas públicas já existentes no Brasil.

"O Brasil tem um histórico de uma política pública universalizada e gratuita na área da saúde, mas que poderia estar muito melhor. Os Caps (Centros de Atenção Psicossocial), por exemplo, não alcançam todos os municípios de pequeno e médio porte", explica Mora. Para ela, o país precisa pensar uma "política intersetorial com educação, assistência social, saúde".

Uma outra preocupação apontada por ela foi o tempo que as escolas brasileiras ficaram fechadas. "As crianças e adolescentes ficaram sem acesso à educação, o desafio da conectividade, a falta de aparelhos móveis. Essas pessoas tiveram um rompimento e demorarão para retornar para um estágio confortável", diz Mora.

O Unicef sempre defendeu com a OMS (Organização Mundial da Saúde) que os governos priorizassem a reabertura das escolas durante a pandemia, já que as perdas de aprendizagem e em outras áreas são gravíssimas para crianças e jovens de todo o mundo.

A preocupação com o futuro e a dificuldade para se obter uma renda são desafios que podem impactar a saúde mental de adolescentes e jovens.

O relatório que ressalta que os dados se baseiam em apenas uma pergunta, não em múltiplas, nem a um diagnóstico feito por profissionais da saúde.

Saúde mental pode gerar perda de US$ 390 bilhões por ano

O relatório também apontou que a falta de ação por parte dos governos em propor políticas que cuidem da saúde mental de jovens e adolescentes em todo o mundo pode trazer riscos financeiros e até mesmo a morte dessas pessoas. "Estima-se que 45.800 adolescentes morrem de suicídio a cada ano —ele é a quinta causa de morte mais prevalente em adolescentes de 10 a 19 anos", diz o relatório.

Ao todo, o Unicef estima que o mundo perde US$ 387,2 bilhões por ano de capital humano devido à condição de saúde mental das pessoas com 0 a 19 anos. Deste total, US$ 340,2 bilhões refletem transtornos que incluem ansiedade e depressão, e US$ 47 bilhões são referentes a perda por suicídio.

Esses dados nos mostram quanto teríamos em perda de capital humano se não forem tomadas as devidas providências para saúde mental. Se essas questões não forem endereçadas e abordadas da maneira correta, vidas podem não ser inseridas no mercado de trabalho ou até mesmo serem perdidas."
Gabriela Mora, oficial da área de Desenvolvimento do Adolescente no Unicef Brasil

Menos de 1 dólar por pessoa para tratar saúde mental

O estudo apresenta também que 83% dos jovens dos 21 países acreditam que é melhor lidar com "problemas de saúde mental compartilhando experiências com outras pessoas e buscando apoio do que sozinho".

Apesar dessa demanda por parte da sociedade, o fundo afirma que há governos que gastam menos de 1 dólar por pessoa para tratar questões de saúde mental.

"O número de psiquiatras especializados no tratamento de crianças e adolescentes é inferior a 0,1 por 100 mil em todos os países, exceto os de alta renda, onde o número era de 5,5 por 100 mil", afirma o relatório.

Para Mora, o Brasil também derrapa na atenção do tema. "Temos uma estrutura de política pública, embora seja interessante, está limitada. Ou seja, além da desigualdade social, como podem evitar que municípios pequenos fiquem desassistidos para tratamentos mais complexos? Articular um trabalho entre as cidades é um caminho", indica.

A organização lançou recentemente o site podefalar.org.br para dialogar de saúde mental com adolescentes e jovens de 13 a 24 anos de 21 países diferentes de forma totalmente anônima e gratuita. O espaço têm materiais sobre o tema, depoimentos de pessoas com a mesma faixa etária e um espaço com profissionais da área da saúde.