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Variante 'brasileira' P1 pode ter carga viral até 10 vezes maior que outras cepas, diz cientista da Fiocruz

A carga viral muito mais alta que a média, identificada pelo estudo, pode justificar, inclusive, porque a crise que se instaurou no Amazonas já fez mais vítimas este ano, principalmente nos meses de janeiro e fevereiro, do que durante todo o ano de 2020 - iStock
A carga viral muito mais alta que a média, identificada pelo estudo, pode justificar, inclusive, porque a crise que se instaurou no Amazonas já fez mais vítimas este ano, principalmente nos meses de janeiro e fevereiro, do que durante todo o ano de 2020 Imagem: iStock

20/04/2021 14h11

A variante P1 do coronavírus, originária do Estado do Amazonas, agrava ainda mais a situação da pandemia de Covid-19 no Brasil e preocupa todo mundo, o que motivou, inclusive, que a França suspendesse temporariamente os voos com o Brasil. E não é por menos: a P1, como é chamada a variante, pode ter uma carga viral até 10 vezes maior que as outras cepas identificadas até agora do SARS-CoV-2. É o que revela um estudo de epidemiologia genômica assinado por 29 pesquisadores brasileiros da área de virologia.

Em entrevista à RFI, o cientista Felipe Naveca, da Fiocruz Amazônia, à frente da equipe de cientistas responsáveis pela pesquisa, explica que a variante P1 é classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), junto com a B.1.351 e a B.1.157, como uma das três variantes que causam maior preocupação neste momento.

A variante P1 apresenta variações na proteína Spike, na superfície do vírus, em três regiões importantes, as mesmas alterações que são encontradas na variante B.1.351. Essas mutações estariam associadas à maior transmissão do vírus, e com a evasão do sistema imune através da emissão de respostas dos anticorpos.

"Esse ponto já chamava a atenção desde o início dessa detecção, mas também o fato de que sua frequência aumentou muito rapidamente entre as variantes em circulação no Amazonas: até novembro não havia nada. Em dezembro, quando aparece, ela passa a corresponder a em torno de 35% [das infecções] e, em janeiro, já era mais de 75%. Hoje nós temos praticamente só a P1 circulando no Amazonas e o mesmo cenário está acontecendo em outros estados brasileiros. Por isso, esta é uma variante de muita preocupação", relata Naveca.

A carga viral muito mais alta que a média, identificada pelo estudo, pode justificar, inclusive, porque a crise que se instaurou no Amazonas já fez mais vítimas este ano, principalmente nos meses de janeiro e fevereiro, do que durante todo o ano de 2020.

"Acredito que esta carga viral mais alta facilite a transmissão do vírus. Os pacientes têm mais vírus nas secreções de nasofaringe, é mais fácil que este vírus seja transmitido para outras pessoas. Se observarmos o período quando a P1 emerge - em dezembro do ano passado, com as férias de final de ano, Natal, Ano Novo, situações em que as pessoas acabam se aproximando mais, mesmo que não devam -, achamos que foi o cenário perfeito para a disseminação de uma variante com um poder ainda maior de transmissão", teoriza o pesquisador da Fiocruz Amazônia.

Mais jovens infectados

De acordo com Naveca, a variante P1 poderia justificar também o aumento de casos entre pessoas mais jovens, abaixo da faixa etária dos 60 anos (adultos entre 18 e 59 anos), durante a segunda onda da pandemia da Covid-19, mas não seria o único fator que explicaria esse quadro.

"A variante tem sido associada ao maior número de infecção de pessoas mais jovens, mas eu diria que essa não é a única variável. É preciso entender também que esse grupo se expõe mais, tanto no trabalho quanto aqueles que insistem em fazer aglomerações. Estão ocorrendo festas clandestinas no Brasil inteiro, e geralmente são pessoas mais jovens que estão nesse meio. São pessoas que acreditam que, mesmo que peguem a doença, terão uma resposta mais tranquila. E nós temos ouvido relatos de médicos dizendo exatamente o contrário. Então, tem vários fatores aí. Mas certamente a causa por trás do avanço da Covid-19 no Brasil nesse momento é a P1", afirma o cientista.

O estudo foi realizado entre março de 2020 e janeiro de 2021, com pacientes de 25 municípios do estado do Amazonas. Ao longo desse quase um ano de pesquisa, os cientistas identificaram que a primeira variante que predominou no Amazonas, durante a primeira onda da pandemia, foi uma linhagem chamada B.1.195. Curiosamente essa linhagem pouco circulou em outros estados brasileiros. Também na primeira fase da pandemia no Amazonas, os pesquisadores detectaram a introdução da linhagem B.1.128, e essa foi identificada diversas vezes em diferentes regiões do Brasil.

De acordo com Felipe Naveca, esta linhagem passa a circular por muito tempo e, em setembro, substitui completamente a B.1.195 como principal. "Acreditamos que esse período de muito tempo circulando, em várias regiões dentro do estado, pode ter dado ao vírus a oportunidade de experimentar diferentes cenários, em que as mutações trouxeram vantagens para o vírus", relata.

Ele acrescenta que, em dezembro, quando a P1 surge, esta já aparece com várias mutações em relação à B.1.128, e com um aumento de frequência muito grande. "A P1 já surge se espalhando muito rapidamente. Então isso demonstra que a variante tem vantagens em relação às outras", conclui o pesquisador da Fiocruz e coordenador do estudo.

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