Exercícios físicos fazem bem para o coração, mas cuidado para não exagerar

Gretchen Reynolds

Do New York Times

  • ThinkStock

Com muita gente pensando em participar de maratonas e outros eventos prolongados de resistência física no novo ano, nós, nossos cônjuges e outros familiares provavelmente nos perguntamos se os treinamentos extenuantes exigidos por essas atividades podem ser prejudiciais ao coração. 

Uma revisão científica recentemente publicada ajuda a tranquilizar mas também traz alguns alertas. O estudo revelou que embora o coração da maioria dos atletas seja capaz de aguentar os exercícios físicos, existem algumas exceções. Para algumas pessoas aparentemente em forma, exercícios muito pesados podem ser problemáticos.

É por isso que todas as pessoas que praticam atividades físicas devem se informar corretamente sobre o histórico cardíaco familiar, além de nossos próprios riscos genéticos.

Naturalmente, em geral os exercícios são extremamente benéficos para a saúde do coração. Dezenas de estudos epidemiológicos de larga escala revelaram que pessoas que praticam qualquer quantidade de exercício, seja cinco minutos ao dia ou mais de duas horas, têm muito menos chance de morrer em decorrência de problemas cardíacos, se comparadas a pessoas sedentárias.

Excesso de exercício é prejudicial ao coração

Contudo, embora esses estudos sejam encorajadores, eles indicam uma realidade inquietante. Os dados utilizados geralmente mostram uma curva do sino em relação aos benefícios cardíacos gerados pela atividade física, o que significa que quanto mais as pessoas se exercitam, menor é o risco de problemas cardíacos – mas só até determinado ponto, quando o excesso de exercícios passa a ser prejudicial.

Para alguns cientistas, essas descobertas não faziam sentido. Se um pouco de exercício é bom para o coração, por que a curva dos benefícios não é apenas ascendente?

O Dr. Paul Thompson, chefe de Cardiologia do Hospital Hartford, em Connecticut, e maratonista com anos de experiência, ficou especialmente interessado no assunto. Ele e seus colegas de hospital, aliados a cientistas do Centro Médico da Universidade Radboud, em Nijmegen, na Holanda, decidiram observar de forma mais profunda os dados disponíveis sobre o assunto.

Muitos estudos observavam aspectos específicos da prática prolongada de exercícios e da saúde do coração. Mas nenhuma pesquisa havia examinado de forma ampla todas as formas como as atividades físicas de resistência podem afetar o coração. Além disso, essas pesquisas também não indicavam se devemos – ou não – nos preocupar com os efeitos de treinamentos pesados.

Portanto, para a nova pesquisa que será publicada este mês na revista Physiological Reviews, Thompson e seus colegas coletaram todos os estudos que puderam encontrar realizados nos últimos 30 anos e que relacionassem a prática de atividades físicas à saúde cardiovascular, reexaminando os resultados caso a caso e coletivamente.

Felizmente, o estudo traz resultados positivos para nós e nossos entes queridos.

"Não há evidências de que exista um nível de exercícios que seja perigoso ou exagerado para pessoas saudáveis e normais", afirmou Thompson.

Ao mesmo tempo, as pessoas que se exercitam precisam compreender que a prática frequente de atividades físicas causa "mudanças profundas na fisiologia e na estrutura cardíaca", conforme Thompson e seus colegas escrevem no artigo.

"Vazamentos"

Em outras palavras, essas mudanças podem ser similares a danos cardíacos, afirmaram os pesquisadores, com células do coração apresentando "vazamentos" após exercícios ou eventos esportivos extenuantes, liberando proteínas na corrente sanguínea que em outras circunstâncias indicariam a ocorrência e um ataque cardíaco. Essas proteínas geralmente desaparecem após alguns dias e o coração parece se recuperar corretamente, afirmou Thompson.

Mas nesse processo, o coração se adapta e acaba mudando. Os ventrículos direito e esquerdo aumentam de tamanho e ele passa a ter uma aparência bastante diferente do coração de quem não pratica esportes.

Para a maioria das pessoas, essas mudanças são benéficas e também necessárias para o desempenho atlético de sucesso. Entretanto, conforme Thompson e seus colegas escrevem, a revisão dos estudos indica que existem pontos fora da curva: pessoas aparentemente saudáveis para quem os exercícios extremos apresentam perigos inesperados.

O que talvez seja mais surpreendente é que maratonistas mais velhos podem ser tão suscetíveis à aterosclerose ou à concentração perigosa de placas nas artérias quanto pessoas sedentárias, mostram os estudos. Exercícios extenuantes não evitam a concentração de placas em pessoas geneticamente predispostas, ou com estilos de vida que podem levar à condição.

Todavia, exercitar-se pode aumentar o risco de que essas placas se soltem da parede das veias e artérias, levando a um ataque cardíaco. Estudos mostram que pessoas com aterosclerose têm mais chances de sofrê-los enquanto correm, do que quando estão em repouso.

Contudo, muitos atletas mais velhos com aterosclerose não fazem ideia de que são portadores da doença, que geralmente causa poucos sintomas.

De forma similar, segundo a nova revisão, pessoas com determinadas anormalidades cardíacas hereditárias, tais como a cardiomiopatia (coração ampliado) ou a síndrome do QT longo (uma doença que afeta a atividade elétrica do coração), podem exacerbar suas condições em decorrência do excesso de exercícios.

O remodelamento cardíaco que é benéfico no caso da maioria dos atletas, segundo o estudo, é indesejável para essas pessoas e pode levar à morte prematura. É possível que isso esteja por trás da queda estatística nos benefícios oferecidos pela prática esportiva, conforme averiguado em alguns dos estudos revisados.

Histórico familiar

A melhor reação a essas informações é não entrar em pânico e evitar exercícios extenuantes, afirmou Thompson, e "conhecer bem seu histórico familiar de mortes súbitas".

Se um parente próximo morreu inesperadamente de problemas cardíacos, converse com um médico sobre a necessidade de fazer exames para avaliar a presença de aterosclerose ou cardiomiopatia.

O resto de nós deve prestar atenção em sintomas como cansaço incomum, falta de ar ou dores no peito durante o exercício, afirmou. Entretanto, é muito mais provável que a prática de atividades esportivas leve ao fortalecimento do coração, ao invés de danificá-lo.

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