Alimentação

Por que a mesma dieta não funciona para pessoas diferentes?

Kate Murphy

Do New York Times

  • Divulgação

No que dá a impressão de ser um mea culpa que se repete a cada cinco anos, o governo dos EUA lançou, na semana passada, mais uma revisão das diretrizes dietéticas para os norte-americanos, desta vez pedindo moderação no açúcar e na proteína. As novas recomendações devem influenciar a rotulação nutritiva, a merenda escolar e os programas assistenciais do governo.

É certo, porém, que o guia vai passar batido para a maioria dos cidadãos que pedem batata-para-acompanhar. Além disso, as conclusões científicas mais recentes já começam a defender um novo tipo de regime, personalizado e variante de indivíduo para indivíduo.

As pesquisas oferecem cada vez mais indícios de que cada pessoa absorve e metaboliza os nutrientes de uma forma única – e essa percepção está fazendo cientistas e empresas rebolarem para fornecer uma assistência nutricional mais efetiva, baseada em fatores diferenciadores como estrutura genética, flora intestinal, variação corporal e exposição a produtos químicos.

"A mesma dieta não funciona para todo mundo porque somos todos diferentes uns dos outros. Daí o nosso fracasso retumbante em controlar a epidemia de obesidade", diz Eran Elinav, imunologista do Instituto de Ciências Weizmann, em Rehovot, Israel.

Elinav e seus colegas querem montar um novo tipo de negócio de criação de dietas a partir das descobertas que publicaram recentemente na revista científica Cell. Seu estudo concluiu uma variação assustadora na alteração de glicose de 800 pessoas que comeram os mesmos alimentos. Alguns participantes tiveram picos de açúcar no sangue ao tomarem sorvete e comerem chocolate, enquanto, para outros, a reação foi moderada ou insignificante.

As variações drásticas também ocorreram quando os voluntários consumiram opções como sushi e pão integral, descredenciando totalmente o índice glicêmico, há tempos usado para avaliar os alimentos de acordo com seus efeitos no açúcar do sangue, e levantando dúvidas em relação à confiabilidade dos cálculos de calorias. Parece que a capacidade de extrair energia dos alimentos muda de uma pessoa para outra.

Contudo, o grupo de Weizmann levou suas descobertas um pouco além.

Ao combinarem os dados da reação à glicose dos participantes do estudo com informações sobre a flora intestinal, consumo de remédios, histórico familiar e estilo de vida, os cientistas criaram um algoritmo que prevê, com precisão, a reação a alimentos não consumidos durante o teste.

Dietas personalizadas 

Além disso, com ele, puderam montar dietas personalizadas para um grupo de cem pacientes pré-diabéticos que reduziu significativamente o nível de açúcar nas refeições e aumentou os níveis de bactérias "boas" na flora intestinal.

"O algoritmo é semelhante ao que o Amazon usa para lhe dizer os livros que você quer ler. Fazemos o mesmo, só que com comida", explica Eran Segal, cientista da computação do Instituto Weizmann e um dos autores do estudo.

Embora ainda sejam necessários pequenos ajustes, Segal acrescenta que seu grupo espera chegar ao ponto de usar o algoritmo para criar dietas personalizadas ao público. De fato, o acompanhamento nutricional customizado é um campo que vem se expandindo. Várias empresas, incluindo Vitagene, Nutrigenomix e DNAFit, já investem nesse tipo de serviço.

DNA e nutrição

Seu trabalho é baseado principalmente em testes genéticos, mas os cientistas estão só começando a explorar a ligação entre o DNA e a boa nutrição. "Acho que as empresas que oferecem assessoria alimentar personalizada estão provavelmente se adiantando às evidências", afirma John Mathers, diretor do Centro de Pesquisas de Nutrição Humana da Universidade de Newcastle, no Reino Unido.

Tanto ele como outros profissionais admitem que são necessárias mais pesquisas porque a interação entre os genes, microbiota, dieta, meio ambiente e estilo de vida de cada um é infinitamente complexa.

Os cientistas estão começando a "brincar" com as conexões, sendo que alguns estudos já ligam pelo menos 38 genes ao metabolismo de nutrientes, variantes que, segundo se acredita, podem impedir ou auxiliar sua absorção ou o uso eficiente. Dependendo da estrutura genética, algumas análises já sugerem que a pessoa possa querer consumir menos ou mais folatos, colinas, vitamina C, ácidos graxos, amidos e cafeína.

"Estamos começando a entender as ligações que existem entre a alimentação, a microbiota, a estrutura genética individual e nossa saúde. Essas linhas de trabalho diferentes estão começando a se unir agora, em parte porque temos tecnologia para lidar com questões que demandam e resultam em um grande volume de dados", diz Mathers.

Ele é também o líder de um estudo de seis meses, financiado pela União Europeia, chamado Food4Me, no qual 1.500 participantes de sete países do continente receberam, aleatoriamente, assessoria dietética personalizada com base em seus dados genéticos ou foram orientados a seguir as instruções padrão, com maior consumo de frutas e legumes, carnes magras e grãos integrais.

Embora os resultados ainda não tenham sido divulgados, Mathers revela que, de maneira geral, quem seguiu o regime customizado se saiu melhor que o grupo que fez a dieta genérica, confirmando que a personalização nutricional é a solução.

Estresse e químicos alteram resultados

A verdade, porém, é que a expressão genética, a microbiota e os outros fatores usados como base individual não são imutáveis e podem ser alterados não só pelos alimentos como também por fatores como estresse e exposição a produtos químicos, suscetíveis a mudanças anuais, mensais e até semanais.

As empresas que já trabalham com assessoria individualizada de dietas argumentam que há pelo menos provas suficientes para melhorar as recomendações genéricas que, como se sabe, não são lá muito eficientes.

Ahmed El-Sohemy, professor associado e pesquisador de Nutrigenômica da Universidade de Toronto e um dos fundadores da Nutrigenomix, fala do exemplo do café que, segundo as recomendações atuais, não deve ser consumido em volume superior a quatro ou cinco xícaras por dia.

"Funciona para mais ou menos metade da população, que tem metabolismo acelerado; para a outra metade, que tem uma variante do gene CYP1A2, mais do que duas xícaras por dia aumentam o risco de um ataque cardíaco e hipertensão."

Empresas como a Nutrigenomix tendem a oferecer principalmente assessoria nutricional e não dietas para tratar doenças específicas e, portanto, o FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) não pode regulamentar esse nicho de incrível potencial lucrativo. (A aplicação da lei pode ser complicada, já que muitas companhias estão sediadas em outros países.)

Por isso, consumidor, cuidado. Converse com seu médico/nutricionista primeiro antes de fazer quaisquer mudanças alimentares.

Paradoxalmente, muitos dos especialistas que defendem a nutrição personalizada não passaram por testes genéticos, nem tiveram a microbiota analisada.

"Gosto de comer com prazer. Esse é o meu ponto de partida", conclui Mathers.

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