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Tem até test-drive de game! Como Google quer te fazer gastar com apps

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Brasileiro não gosta de gastar com apps Imagem: Getty Images/iStockphoto

Helton Simões Gomes

Do UOL, em São Paulo

04/12/2018 04h00

Quando foi a última vez que você coçou o bolso e pagou por um aplicativo ou comprou algum item digital dentro de um desses serviços? Nunca? Se você é dono de celular Android, saiba que não está sozinho: dados mostram que usuários desse tipo adoram baixar programas para celular, mas, na hora de gastar com eles, nada feito.

O Google sabe disso, mas quer mudar essa realidade para deixar de comer poeira da Apple, quando o assunto é faturamento com produtos digitais. A gigante usa diversas artimanhas para reverter esse quadro, como dar crédito gratuito para gastar na Google Play, permitir o test-drive de games e até está criando um modelo de assinatura à la Netflix -- o sujeito paga uma mensalidade e baixa quantos apps quiser.

Estamos tentando dar aos usuários novas oportunidades de transacionar, assim como estamos criando um ecossistema vibrante que permite a desenvolvedores criarem negócios viáveis e sustentáveis ao redor do globo

Tian Lim, vice-presidente da Google Play

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A segunda parte da afirmação feita pelo executivo não poderia ser mais verdade -- mas ela não conta toda a história. Sim, a Google Play é a maior loja de aplicativos do mundo. Afinal de contas, é a plataforma para aquisição de bens digitais do maior sistema operacional mais usado em smartphones. Repara só: entre julho e setembro de 2018, 19,5 bilhões de apps foram baixados a partir dela, três vezes e meia o número de programas baixados na concorrente App Store, de acordo com dados compilados pela consultoria Sensor Tower.

Só que o poderio do Google se resume aos downloads. Quando o papo é sobre a receita obtida com aplicativos, a empresa perde feio para a Apple. A dona do iPhone faturou no terceiro trimestre deste ano US$ 12 bilhões com esses programas, quase o dobro dos US$ 6,2 bilhões obtidos pelo Google, ainda de acordo com a consultoria.

Divulgação/Google
Tian Lim, vice-presidente da Google Play Imagem: Divulgação/Google

Sem espremer o usuário

Em entrevista exclusiva ao UOL Tecnologia, o executivo não procurou esconder o abismo para a Apple, mas explicou como ele foi aberto:

Nós temos o sistema operacional mais popular do planeta. Como consequência, temos a mais diversa base de consumidores do planeta, de um espectro bastante amplo do ponto de vista socioeconômico

E continuou:

Os desenvolvedores têm de achar formas diferentes de rentabilizar esses usuários, já que os usuários não estão no iOS e não estão comprando de jeito nenhum

Para Lim, é ainda mais difícil convencer o público a gastar em mercados emergentes:

As pessoas não têm muita renda sobrando e possuem aparelhos sem tanto armazenamento e com menores planos de dados

Nos últimos anos, o Google adicionou diversos métodos de pagamentos para driblar o fato de a ausência de cartões de crédito ser a regra em países subdesenvolvidos, como o Brasil. Funcionam por aqui, por exemplo, cartões de presente, cartões pré-pagos que podem ser recarregados com créditos e até pagamento com boleto. No restante da América Latina, há ainda pagamento do que foi gasto com jogos e apps via débito na conta de celular. Agora os esforços vão em outro sentido.

1) Crédito na praça

Há tentativas para popularizar o hábito de gastar na loja digital. E, para isso, nada melhor do que distribuir crédito para que as pessoas gastem com bens virtuais. "É mais sobre fazer as pessoas conhecerem a Google Play. Ponto. Oferecemos crédito para lembrar as pessoas que isso existe", diz Lim.

Divulgação/Google
Androide que simboliza o sistema operacional Android, do Google Imagem: Divulgação/Google

2) Novo preço

Outras mudanças atingem diretamente os criadores de serviços e influenciam como eles lidam com seus negócios. Uma delas é permitir que eles alterem preços de assinaturas sem ter de praticamente configurar do zero um novo produto na Google Play. Isso agiliza a implantação de novos valores, inclusive a oferta de descontos.

3) Assinatura congelada

Outras alterações são direcionadas a desenvolvedores, mas atingem diretamente seus clientes. A Google Play passou a permitir em outubro, por exemplo, que a assinatura de um produto digital seja pausada, assim como seu pagamento. Ou seja: durante determinado período, o consumidor não deixa de ser cliente da empresa, apenas suspende o uso dos serviços fornecidos por ela e o pagamento por ele.

"Isso é muito útil, porque, se eu sair de férias por alguns meses, não preciso pagar por aquele serviço. Para o desenvolvedor, é útil também, porque eu não quero perder esse consumidor", diz Lim. O vice-presidente explica que o cálculo feito pelo desenvolvedor, ainda mais os que não têm tanta estrutura, deve ser: é melhor perder um mês de pagamento do que o cliente.

É muito difícil conduzir modelos de negócios que tenham assinaturas. É muito complicado. Nem todo mundo é Netflix ou Spotify, especialistas em dirigir negócios de assinaturas

4) 'Netflix dos apps'

E se você pudesse baixar aplicativos pagos sem ter de se preocupar com o tamanho fatura no fim do mês? Talvez isso possa acontecer em um futuro próximo. Ao analisar os códigos da Google Play, desenvolvedores descobriram que o Google trabalha em um modelo de assinatura em que o usuário pagaria uma taxa mensal para baixar quantos serviços pagos quisesse.

Em julho, engenheiros da XDA acharam dentro da versão de testes da loja do Google os preparativos para o lançamento de uma ferramenta chamada "Play Pass". Em outubro, o Google começou a perguntar se a palavra "Pass" poderia descrever bem "uma assinatura que oferece por uma taxa mensal apps e games pagos, valendo centenas de dólares".

Lim não desmentiu a descoberta, mas desconversou: "Estamos sempre experimentando, mas eu não posso comentar sobre isso".

5) Test-drive de app

Antes de baixar, não gostar e desinstalar um app, o Google prefere que você teste o serviço antes. A novidade foi lançada neste ano, e alguns já permitem que usuários façam um test-drive, ou seja, rodem uma demonstração de suas principais funções. Isso já ocorre, por exemplo, com o game "Clash Royale".