As esperanças e decepções da Era Obama

Nova York, 19 Jan 2017 (AFP) - A eleição de Barack Obama foi um tsunami de otimismo. Mas, oito anos depois, a esperança de acabar com as tensões raciais nos Estados Unidos se desvaneceu e todos reconhecem que, para conquistar esse ideal, é preciso mais que um presidente negro.

Uma nova pesquisa confirma o veredicto de muitos estudos: 52% dos consultados pelo Gallup acham que o país retrocedeu nas questões raciais nos últimos oito anos, contra apenas 25% que acreditam que progrediu.

O próprio Obama admitiu isso em seu discurso de despedida. "Depois de minha eleição, alguns falavam de um Estados Unidos pós-racial. Apesar de, sem dúvida, terem boas intenções, essa não era uma visão realista (...) A raça continua sendo uma força poderosa e muitas vezes polarizada em nossa sociedade".

"Muitas vezes, são necessárias gerações para mudar os comportamentos", acrescentou, antes de citar o célebre romance "O Sol é para Todos": "Só podemos compreender alguém vendo as coisas de seu ponto de vista e estando em sua pele".

Um apelo a um trabalho de compreensão mútua que repetiu durante sua presidência, principalmente nos últimos anos manchados pela violência policial contra os negros.

Esses episódios de violência levaram ao nascimento do movimento BlackLivesMatter ("A vida dos negros importa"), que desencadeou distúrbios em algumas cidades.

Tudo amplificado pelas redes sociais, onde alguns expressavam abertamente sua rejeição a um presidente negro, contribuindo para tornar o clima ainda mais pesado.

Não é de surpreender que mais de 50 anos depois da proibição da segregação racial e 150 anos depois da abolição da escravidão, muitos tenham a impressão de que as coisas estão estancadas.

"Todos tinham muita esperança, as pessoas choravam de alegria" após a eleição, "mas o racismo prossegue e ninguém pode contra ele", declarou Maria Fragosa, uma porto-riquenha do Bronx.

Obama "não fez diferença", considera também Shakeya Mervin, cabeleireira de um salão negro do Harlem, mas "se tivesse feito mais, teriam ocorrido brigas".

Dennis Carlson, um branco que trabalha como analista para uma empresa de seguros de saúde situada perto dali, afirma que Obama "não é o culpado, fez o que pôde para manter a cabeça fria, deu o exemplo".

Co-fundadora do Centro de Estudos de Relações Interraciais da Universidade da Flórida, Sharon Rush explica que, desde o início, Obama precisou fazer acrobacias. "Sendo negro, sabia que a cor fazia uma diferença, e ao mesmo tempo deveria representar todo o mundo e a filosofia durante seu mandato era que a raça não importa".

"Fez o que pôde para não jogar lenha na fogueira", mas isso lhe valeu "a reprovação daqueles para quem parecia que não fazia o suficiente".

A dificuldade do diálogo interracial é que tudo é "facilmente mal interpretado", ressalta Rush. E as discussões são "tensas" e as pessoas evitam quando "é preciso falar para melhorar as coisas".

O slogan "Black Lives Matter" é um excelente exemplo que, segundo Rush, "alguns brancos compreenderam como 'a vida dos brancos não importa'".

Em um futuro próximo, algo está claro: ninguém espera uma melhora sob Donald Trump, que multiplicou durante a campanha as diatribes contra hispânicos e muçulmanos.

Mas Jena Delville-Joseph, uma jovem colega negra de Dennis Carlson, no Harlem, espera que as novas gerações consigam mudar as coisas. E vê nas tensões atuais "o combate desesperado daqueles que se negam a ver o país como ele é. Em 20 anos, este país será muito diferente com a evolução da demografia".

A proporção de brancos nos Estados Unidos deve, efetivamente, diminuir 16% até 2055. Mas menos brancos não significa necessariamente o fim de seu domínio nas instâncias de poder como o Congresso ou os tribunais, ressalta Rush.

A harmonia chegará, segundo ela, de um trabalho de cada pessoa consigo mesma. Espera que muitos brancos façam, como ela, "o longo caminho" que permite "compreender o privilégio que é ser branco".

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