Hospitais britânicos ameaçados por saída de profissionais europeus

Londres, 27 Mar 2017 (AFP) - Com 24.000 vagas para enfermeiros, os hospitais britânicos estão no limite, e o Brexit pode complicar ainda mais seu funcionamento se, como parece estar ocorrendo, o pessoal europeu der as costas ao país.

"Antes todos os enfermeiros queriam vir trabalhar aqui, e agora vão para outros lugares, como a França", explicou à AFP Joan Pons, um enfermeiro espanhol de 41 anos, que mora há 17 anos no Reino Unido.

O número de novos enfermeiros chegados ao National Health Service (NHS, o serviço de saúde pública) diminui 90% desde o referendo de 23 de junho, segundo dados do Conselho britânico de enfermeiras e parteiras (NMC).

"É o primeiro sinal de uma mudança após o referendo sobre a UE", disse em um comunicado Jackie Smith, diretora do NMC.

Quase metade pensa em ir emboraMais de 5% dos 1,2 milhões de funcionários da saúde pública britânica, cerca de 60.000, são da UE, segundo dados do NHS Digital.

Segundo uma pesquisa elaborada para o programa Dispatches, do Channel 4, 42% dos europeus do NHS está considerando ir embora, 70% acreditam que o país se tornou menos atrativo devido ao Brexit e 66% temem pelo futuro das suas carreiras.

Atualmente, proliferam os apelos a que o governo dê garantias aos europeus de que poderão continuar vivendo e trabalhando no Reino Unido após a saída da UE.

Do contrário, "enfrentaremos uma séria escassez de pessoal que adicionará mais pressão à saúde pública", disse Charlie Massey, diretor-executivo do General Medical Council (GMC, Conselho Médico Geral) em um comparecimento ante um comitê parlamentar.

Para Janet Davies, diretora do Royal College of Nursing (Colégio Real de Enfermaria), "com 24.000 vagas, a saúde pública britânica não pode funcionar sem a contribuição dos enfermeiros da UE".

No entanto, a primeira-ministra Theresa May quer condicionar a situação dos europeus no Reino Unido à dos britânicos na Europa, dando motivo ao lema "não somos moedas de troca", da organização The 3 Million, que reúne europeus residentes no Reino Unido que temem pelo seu futuro.

Reino Unido perde atrativoUm dos rostos mais conhecidos do The 3 million é Joan Pons, o enfermeiro espanhol que trabalha em um hospital do condado de Norfolk, no leste da Inglaterra.

Para Pons, o silêncio do governo está dando asas a uma minoria racista, o que pode ter contribuído para o aumento notável dos episódios de xenofobia desde o referendo de 23 de junho.

"Me dizem de tudo nas redes sociais. Outro dia uma enfermeira polonesa me explicou chorando que um paciente jovem tinha se recusado a ser atendido por ela, uma estrangeira", lamenta.

Pons tem três filhos nascidos no Reino Unido, de 5, 11 e 14 anos, que não param de lhe perguntar se terão que voltar para a Espanha. "Eles têm medo de sair de férias e que não nos deixem voltar".

"Nunca", acrescenta Pons, "tinham me feito sentir que não sou britânico. E agora sou consciente disso".

Destino: AustráliaPons apontou que, se os europeus que trabalham no NHS fossem embora e os aposentados britânicos radicados na Espanha voltassem para o Reino Unido, "a saúde pública colapsaria".

Sobre este assunto, Paul MacNaught, diretor do programa europeu do NHS, disse recentemente ante uma comissão parlamentar que os cuidados de saúde a um aposentado britânico instalado na Espanha custa aos cofres britânicos 3.500 euros por ano, mas que se ele voltasse o custo subiria para 4.500 libras (cerca de 5.180 euros).

"Estamos pensando em ir para a Austrália", disse à AFP uma enfermeira barcelonesa de 45 anos estabelecida no Reino Unido e casada com um médico espanhol, que não quis revelar sua identidade porque ainda não comunicou suas intenções ao hospital onde trabalha.

Ela mora há três anos no Reino Unido, mas neste pouco tempo "as condições mudaram", diz. As vantagens de estar em um país anglo-saxão perto de casa desaparecem quando começam os obstáculos burocráticos. De repente, as desvantagens se tornam mais evidentes: "O mau tempo me esgota, e antes isso não me importava".

Para esta enfermeira, a perda de atrativo do Reino Unido começou antes do Brexit, quando as condições das provas de inglês se tornaram mais rigorosas. "Antes, se você tinha a capacidade de manter uma entrevista de trabalho, não faziam mais testes".

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