Itália afasta os filhos dos mafiosos para impedir que sigam seus passos

Roma, 7 Jul 2017 (AFP) - Trata-se de uma das organizações mais secretas do planeta, com um poder fundado na lei do silêncio, vínculos de sangue e lealdade total ao clã. Mas a situação pode estar mudando na 'Ndrangheta, a temida máfia calabresa.

Juízes italianos formularam uma estratégia de afastamento e acolhida das crianças de famílias mafiosas para evitar que sigam os passos de seus pais ou avôs, rompendo assim a cadeia geracional do crime.

A iniciativa gerou críticas no início, em 2012, pelo fato de se tirar crianças das suas famílias, mas foi se estendendo com o tempo e já não se aplica só na Calabria, no sul da Itália, mas no conjunto das regiões afetadas pelo crime organizado.

Nos últimos cinco anos, as autoridades colocaram cerca de 40 crianças em famílias de acolhimento ou comunidades, em lugares secretos situados principalmente no norte da península italiana.

"É um tema espinhoso e caminhamos pelo fio da navalha", admitiu o ministro do Interior, Marco Minniti, após lançar em 1º de julho em Regio de Calabria o protocolo "Liberi di Scegliere" (livres para escolher), junto ao ministro da Justiça, Andrea Orlando.

O dispositivo prevê a criação de planos de reeducação, apoio e reinserção social para os menores ou jovens adultos que pertencem a círculos mafiosos. O objetivo consiste em oferecer a eles uma vida alternativa à que lhes foi imposta pela 'Ndrangheta.

- Mães informantes -"Há momentos em que as instituições democráticas devem intervir no seio das relações intrafamiliares para garantir a liberdade dos menores", declarou Minniti.

Para o juiz Roberto Di Bella, que propôs este projeto, "os resultados são extraordinários".

"As crianças voltam para a escola, participam de atividades sociais úteis e mostram talento e um potencial que não podiam expressar em seus meios de origem", disse à AFP o magistrado que preside o tribunal para crianças de Regio de Calabria.

Ele teve a ideia de retirar os jovens do entorno mafioso ao comprovar que os que chegavam a seu escritório eram os filhos das pessoas que havia condenado nos anos 1990.

Os adolescentes, de 15 ou 16 anos, são selecionados no momento em que se dispõem a entrar para o crime organizado, quando são detidos por tráfico de armas ou graças a escutas telefônicas que revelam a vontade de seus pais de lhes passar o bastão.

"O objetivo é fazer com que eles entendam que a prisão não é uma etapa obrigatória ou uma medalha que se exibe com orgulho", explica o juiz Di Bella.

Em alguns casos, são as próprias mães que pedem aos magistrados que afastem seus filhos do clã. Algumas delas inclusive se tornam informantes da polícia.

- 'Herdeiros de uma dinastia' -"Estamos rompendo modelos culturais que eram considerados invulneráveis, ao mesmo tempo em que definimos novos perfis psicológicos", assegura Di Bella.

O novo protocolo, financiado por fundos regionais, prevê associar em uma "equipe educativa antimáfia" psicólogos, trabalhadores sociais, tutores e famílias de acolhimento.

"Essas crianças são muito rígidas do ponto de vista emocional, são criadas para ser 'duronas'. O importante é levá-las a um lugar onde seu nome não as converta em herdeiros de uma dinastia e onde possam aprender a se conhecer", explica o psicólogo Enrico Interdonato, que acompanhou três desses jovens em sua nova vida.

Acredita-se que a 'Ndrangheta superou as máfias sicilianas e napolitanas graças ao tráfico de cocaína procedente da América Latina.

A organização, baseada em uma estrutura familiar, está instalada principalmente na Calabria, mas uma série de detenções demonstrou sua influência no norte da Itália e em outros países europeus.

"Foi aberta uma via e outros podem segui-la em contextos distintos, não só no da 'Ndrangheta, mas também nos bairros sensíveis de Nápoles ou nos arredores de Palermo", afirmou o ministro da Justiça ao apresentar a iniciativa.

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