Abu Bakr al-Bagdadi, o enigmático 'califa' do Estado Islâmico

Bagdá, 11 Jul 2017 (AFP) - O iraquiano Abu Bakr al-Bagdadi, cuja morte foi anunciada nesta terça-feira (11) por uma ONG síria, era o homem mais procurado do mundo. Discreto, subiu progressivamente os degraus até se tornar o incontestável líder do grupo extremista Estado Islâmico (EI), cujo "califado" se encontra hoje em frangalhos.

A morte do líder extremista de 46 anos foi "confirmada por autoridades do EI" presentes na Síria, indicou o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), que não soube informar quando, como, ou onde ele morreu.

Boatos e informações sobre a morte do chefe da organização terrorista mais temida do mundo circularam nos últimos anos, mas sem nunca terem sido confirmados.

Em 16 de junho, a Rússia anunciou que provavelmente teria matado Abu Bakr al-Baghdadi em um ataque aéreo no fim de maio perto de Raqa, na Síria.

Nascido em 1971, em Samarra, ao norte de Bagdá, Al-Bagdadi era chamado de "fantasma" por seus partidários. O governo dos Estados Unidos oferecia 25 milhões de dólares em recompensa por sua captura.

Apesar do amplo aparato de propaganda do EI, que divulga uma grande quantidade de fotos e vídeos de suas ofensivas e atrocidades, Bagdadi pouco apareceu nos últimos anos.

"É bastante notável que o líder do grupo terrorista que mais se preocupa com sua imagem seja tão discreto", afirmou em 2015 o analista Patrick Skinner, da consultoria de Inteligência Soufan Group.

Em dois anos, o "califa Ibrahim" apareceu em apenas um vídeo, gravado em uma mesquita de Mossul e divulgado em julho de 2014. Ele estava com barba grisalha, turbante e roupas escuras.

Na gravação, ele ordena a todos os muçulmanos que o obedeçam, pouco depois de a organização ter proclamado o "califado" nos territórios sob seu controle na Síria e no Iraque.

Em novembro de 2016, Al Furqan, um veículo de comunicação afiliado ao EI, difundiu uma mensagem de áudio, em que o homem que fala se identifica como Al-Bagdadi e convoca suas tropas a resistirem ao avanço do Exército iraquiano em Mossul, reduto do grupo.

Al-Bagdadi teria abandonado Mossul no início de 2017 e teria sido visto em vários lugares próximos da fronteira entre Síria e Iraque.

- 'Mistério'"Existe um elemento de mistério que vem do fato de ter sobrevivido a várias tentativas de fazê-lo desaparecer", comentou no ano passado o analista Aymenn al-Tamimi, do Middle East Forum.

Segundo um documento do serviço secreto iraquiano, Al-Bagdadi tem Doutorado em Estudos Islâmicos e foi professor na Universidade de Tikrit (norte).

Teve quatro filhos com a primeira esposa, entre 2000 e 2008, e mais quatro com a segunda.

Em uma entrevista ao jornal sueco "Expressen" em março passado, Saja Al-Dulaimi, que foi sua mulher por três meses, descreveu-o como "um pai de família normal", professor universitário, admirado pelas crianças.

Apaixonado por futebol, sonhava com ser advogado, mas seu desempenho escolar abaixo do nível necessário não permitiu que cursasse Direito. Também teria tentado entrar para o Exército, mas seus problemas de visão o impediram. Por fim, estudou Teologia em Bagdá.

Al-Bagdadi se uniu à insurreição no Iraque pouco depois da invasão das tropas dos Estados Unidos em 2003 e teria sido preso em um campo de detenção americano.

Apesar das forças americanas terem anunciado em 2005 a morte de Abu Dua - um de seus codinomes -, ele reapareceu em 2010 à frente do Estado Islâmico no Iraque (ISI), braço iraquiano da Al-Qaeda.

Alguns anos depois, conseguiu transformar este grupo na mais potente, rica e brutal organização extremista do mundo, com presença na Síria em 2013 e no Iraque em 2014.

Na época, Al-Bagdadi já havia se desvinculado da Al-Qaeda ao rejeitar as ordens do líder desse grupo, Ayman al-Zawahiri, de se concentrar no Iraque e deixar a Síria para a Frente Al-Nosra.

- Islã, religião de guerraSua trajetória é diferente do caminho traçado por Osama bin Laden, que desenvolveu a Al-Qaeda graças a sua fortuna e já era internacionalmente conhecido muito antes dos ataques de 11 de setembro de 2001, sobretudo, pelos muitos vídeos em que aparecia.

"Sua ascensão à fama não pode ser comparada com a de outros líderes terroristas mais famosos. Bin Laden era conhecido por seu nome", afirmou Skinner.

"Bagdadi evita ser o centro das atenções e, em seus discursos, fala sobre seu califado e seus inimigos, não de si mesmo", completa o analisa do Soufan Group.

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