Rei Felipe VI da Espanha faz 50 anos em plena crise catalã

Madri, 29 Jan 2018 (AFP) - Em plena tempestade política na Catalunha, o rei da Espanha, Felipe VI, celebra nesta terça-feira seus 50 anos, com um ato protagonizado por sua filha e herdeira, a princesa Leonor.

A princesa, de 12 anos, receberá o imponente colar do Tosão de Ouro, a condecoração mais elevada do Reino da Espanha, em uma cerimônia em Madri.

Ironia do destino, o aniversário de seu pai pode coincidir com a sessão de posse do presidente catalão, o cargo ao que aspira de novo o separatista Carles Puigdemont.

"Uma piada de mau gosto", resumiu em uma entrevista à AFP TV Ana Romero, autora de vários livros sobre a monarquia, o último deles "O Rei diante do espelho" (tradução livre).

Com motivo da efeméride, nos últimos dias a Casa Real difundiu dezenas de fotos e vídeos em que aparecem cenas caseiras de Felipe, da rainha Letizia e suas filhas Leonor e Sofía, esta última de dez anos.

Nas fotografias, busca-se transmitir um dia a dia similar ao de qualquer pré-adolescente. A herdeira aparece sucessivamente vestida de uniforme colegial, segurando a mão do pai, queimando a língua enquanto toma sopa, ou brincando com o rei antes dele pronunciar seu habitual discurso de Natal.

"O objetivo principal de Felipe VI é que os espanhóis deixem de ser 'juancarlistas', 'felipistas' ou 'leonorcistas' (...) e se tornem monárquicos no sentido de que aceitem a instituição como algo estabelecido", analisa Ana Romero.

Trata-se, segundo ela, de contornar o fato de que o "país não é monárquico de DNA", em uma Espanha onde a monarquia foi restaurada em 1975, após a morte do ditador Francisco Franco e um hiato de 44 anos.

A restauração foi realizada na pessoa do rei Juan Carlos I, o primeiro monarca em cinco séculos de história espanhola a abdicar em favor de seu filho.

Felipe ascendeu assim ao trono em junho de 2014, depois de 38 anos de reinado de um Juan Carlos debilitado fisicamente e atingido por uma série de escândalos embaraçosos.

"Ele pode trazer de novo a dignidade à instituição e se comportar de maneira impecável, mas (...) se há uma parte da população, por exemplo, que insiste em celebrar um referendo monarquia-república, (...) o futuro da Espanha não está escrito, como tampouco está o futuro de Felipe VI", adverte Ana Romero.

Um dos episódios mais difíceis de seu reinado foi o afastamento de sua irmã Cristina, cujo marido, Iñaki Urdangarin, foi condenado por corrupção no ano passado.

- 'Para quê serve a monarquia?' -O rei Felipe tem fama de cordial, bem informado e reflexivo, embora seja menos carismático que seu pai.

Seus três anos e meio de reinado foram marcados pela crise catalã, que ele só abordou claramente em 3 de outubro.

Naquele dia, e por sua própria iniciativa, defendeu com contundência a unidade do país e condenou a "deslealdade" dos dirigentes independentistas, que em suas palavras se colocaram "à margem do direito e da democracia".

Muitos catalães, além dos separatistas, reprovaram o fato de que o rei não mencionou as cargas policiais destinadas a evitar a realização do referendo ilegal de independência de 1º de outubro. E consideraram que, com seu discurso, se alinhou com o governo conservador de Mariano Rajoy.

"O rei é o chefe de Estado. Seria bastante estranho que o rei não defendesse a Constituição e que não denunciasse determinadas circunstâncias", responde uma fonte da Casa Real.

Segundo Ana Romero, esse discurso "foi recebido com grandes aplausos" na maior parte da Espanha, mas não na Catalunha, País Vasco e Navarra ou entre a esquerda radical, que "sentiu repúdio quando ouviu esse discurso tão duro".

Nessa linha, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, atacou neste mês a monarquia em uma reunião de seu partido, acusando a instituição de ter propiciado "um fechamento do cerco oligárquico", para que na Espanha "não haja acordos políticos que consigam avanços em uma direção progressista".

"Para quê serve a monarquia?", perguntou o líder de esquerda.

"Mediar em política não lhe corresponde", responde de novo a Casa Real.

O grande desafio para Felipe, portanto, se situa agora em conseguir que os espanhóis aceitem a instituição como algo que "vai permanecer aí na história", aponta Ana Romero.

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