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A frenética construção de represas coloca em risco o frágil Laos

26/07/2018 09h48

Attapeu, Laos, 26 Jul 2018 (AFP) - O Laos, de luto pelas mais de 130 pessoas desaparecidas após o rompimento de uma represa, quer se tornar a "bateria do Sudeste Asiático" e, por isso, lançou um programa para a construção de dezenas de hidrelétricas para alimentar os países vizinhos.

A catástrofe ocorrida na segunda-feira no sul do país "era previsível", aponta Olivier Evrard, especialista no Laos.

A ruptura da represa liberou 500 milhões de toneladas de água, causando graves inundações que atingiram até mesmo o vizinho Camboja.

"A quantidade de obras é totalmente desproporcional à capacidade de controle do país. As autoridades de supervisão, que têm as habilidades e conhecimentos necessários, confiam nas poderosas empresas estrangeiras que constroem essas estruturas", diz Evrard.

Mais de 50 projetos, financiados principalmente pela China, estão em desenvolvimento, segundo a associação internacional Hydropower (IHA). E cerca de 40 usinas hidrelétricas já estão em atividade.

Pelo menos 97% do território do Laos, país montanhoso, inclui a bacia do Mekong, que tem um grande potencial hidrelétrico.

As represas são para este país pobre a promessa de recursos futuros, ainda mais levando-se em conta o constante declive das exportações de madeira, ouro e cobre há vários anos.

- 'Até 40% de peixes a menos' -Mas as obras hidrelétricas "criam problemas de ordem ambiental, econômica, social e política", destacou em 2013 um relatório da Escola Normal Superior (ENS) francesa.

"Degradam ecossistemas fluviais", "diminuem a diversidade e quantidade de peixes", o que tem consequências para a produtividade pesqueira do Mekong, considerada a mais importante de água doce do mundo, de acordo com o relatório.

Outro documento, publicado em abril de 2018 pela Comissão Mekong, estima que os estoques de peixes podem cair "até 40%" na bacia do Mekong, devido aos múltiplos projetos hidrelétricos.

Outro problema observado é que a energia produzida não beneficia financeiramente a população local, ao contrário de outros países onde uma parte da renda gerada é reservada aos seus habitantes.

A população, obrigada em muitos casos a deixar suas casas para permitir a construção das represas, não aproveita essa nova eletricidade gerada, já que a maior parte dela é exportada para a China e para a Tailândia.

No total, 90% da eletricidade produzida pela barragem que rompeu na segunda-feira seria destinada à exportação para a Tailândia e 10% para o consumo local. A estrutura ainda não estava operacional.

A pequena quantidade de eletricidade que fica no Laos poderia ser suficiente para abastecer esse pequeno país de apenas sete milhões de habitantes.

Mas a rede de distribuição, especialmente nas áreas rurais, não está suficientemente desenvolvida.

A renda gerada tampouco parece corresponder à política ambiciosa do país.

Muitos contratos estipulam que centrais, operadas principalmente por empresas estrangeiras, serão concedidas ao governo comunista do Laos em 20, ou 30 anos, indica Keith Barney, professor da Universidade Nacional Australiana.

O gigantesco projeto da represa Xayaburi, no Mekong, é uma fonte de tensão com Camboja e Vietnã, localizados rio abaixo, que temem sofrer as consequências.

Desenvolvido pelo grupo tailandês CH Karnchang, seu custo é avaliado em 3,8 bilhões de dólares para uma potência de 1.285 megawatts.

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