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Internacional

Guerra comercial com EUA revela tensões internas no PC chinês

27/12/2018 14h06

Pequim, 27 dez 2018 (AFP) - Sob pressão pela guerra comercial com os Estados Unidos, o presidente chinês, Xi Jinping, impôs uma reunião de autocrítica na cúpula, revelando um sinal raro de tensões dentro do setor político do regime comunista.

Altos funcionários foram chamados para "estudar imediatamente" os discursos de Xi e "disciplinar a si mesmos, suas famílias e seus colaboradores".

Xi Jinping parece ter repreendido os membros do Bureau Político do Partido Comunista Chinês (PCC) na terça e na quarta-feiras, um grupo de 25 pessoas que governa o país mais populoso do mundo.

Em um antigo ritual dos regimes comunistas, atualizado por Xi, os líderes de hierarquia superior tiveram de fazer uma "autocrítica à luz de seu trabalho e da aplicação das instruções" do presidente, conforme um relatório da reunião a portas fechadas transmitido nesta quinta-feira (27) pela agência de notícias oficial, Xinhua.

Para o sinólogo Willy Lam, da Universidade Chinesa de Hong Kong, Xi impôs, assim, "um teste de lealdade" àqueles que compõem o topo do regime, mas admitindo, ao mesmo tempo, "a existência de tensões em seu meio".

"É reconhecer abertamente que alguns não demonstraram lealdade total", observa.

A reunião do Bureau Político ocorreu em um momento em que a China enfrenta uma guerra comercial, iniciada no verão pelo presidente americano, Donald Trump, e uma forte desaceleração em sua economia.

Em uma cúpula do G20 no início de dezembro em Buenos Aires, Xi obteve do presidente dos Estados Unidos um período de três meses para chegar a um acordo comercial. De acordo com a agência de notícias Bloomberg, os negociadores norte-americanos são esperados em 7 de janeiro em Pequim.

Para Lam, Xi está sendo desafiado por seu próprio regime por subestimar a determinação de Trump e por não ter previsto os aumentos tarifários que penalizam em particular as regiões exportadoras do leste e do sul do país, e setores como a indústria de ponta.

- 'Falta de confiança' -Xi Jinping "está sob enorme pressão para chegar a um acordo com Trump" antes do prazo de março, diz o sinólogo.

Essa data também coincidirá com a sessão plenária anual do Parlamento chinês, na qual o homem-forte de Pequim corre o risco de ser criticado pelos representantes das regiões e setores mais afetados pelas tensões comerciais.

Na negociação sino-americana, "Donald Trump está bem posicionado para aproveitar o enfraquecimento de Xi", analisa Lam.

Em março passado, Xi Jinping conseguiu apresentar seu "Pensamento" na Constituição do país e abolir a limitação dos mandatos presidenciais. Ele é considerado por alguns estudiosos o líder mais poderoso que a China teve desde a era de Mao Tsé-Tung (1949-1976).

Mas, sem o prestígio do fundador da República Popular, "ele (Xi) não se sente seguro e, para dizer as coisas francamente, revela uma falta de autoconfiança", diz o cientista político independente Hua Po, de Pequim.

"Ele sempre tem medo de que alguém tente se rebelar", acrescenta.

Neste contexto, "centralizar ainda mais o sistema e exigir total obediência ao seu poder é a única maneira de enfrentar os desafios internos e externos", resume.

Outro sinal de nervosismo é que a tradicional reunião de outono do Comitê Central do PCC, o "parlamento do partido", não aconteceu este ano. O líder supremo temia que houvesse "muitas perguntas hostis", supunha Lam.

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