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Curdos têm frágil autonomia no norte da Síria

28/12/2018 12h42

Beirute, 28 dez 2018 (AFP) - Os curdos sírios, que se aproximam do governo de Damasco diante das ameaças da ofensiva turca, instauraram uma frágil autonomia nos territórios que eles controlam no norte do país em guerra.

Com importantes campos de petróleo, essas regiões representam quase 30% da Síria, de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

- Discriminação -Instalados, sobretudo, no norte da Síria, os curdos - basicamente sunitas com minorias não muçulmanas e siglas políticas não laicas - conformam 15% da população síria, segundo as estimativas.

Sofreram décadas de marginalização e de opressão e não pararam de reivindicar o reconhecimento de seus direitos culturais e políticos.

- Neutralidade -Desde o início do conflito deflagrado em 2011 pela repressão sangrenta, por parte do Exército, de uma revolta pacífica, o governo fez um gesto na direção dos curdos.

O presidente sírio, Bashar al-Assad, naturaliza 300 mil curdos "apátridas" após meio século de espera e de protestos. Esses curdos da Síria viram sua nacionalidade ser retirada após um polêmico censo em 1962.

Os curdos tentam, então, permanecer à margem do conflito. Adotam uma posição "neutra" em relação ao governo e aos rebeldes, buscando impedir os rebeldes de invadir seu território para evitar represálias do regime.

Em meados de 2012, as forças do governo abandonam posições no norte e no leste do país, tomadas pelos curdos. Essa retirada é vista como destinada essencialmente a estimular os curdos a não se aliarem aos rebeldes.

- 'Região federal' -Em 2013, o Partido da União Democrática Curda (PYD, principal partido curdo sírio) proclama uma semiautonomia.

Em 2016, é anunciada a criação de uma "região federal", composta de três cantões: Afrin (noroeste) - na província de Aleppo -, Eufrates (norte) - em uma parte das províncias de Aleppo e de Raqa - e Jaziré (nordeste) - que corresponde à província de Hassake.

Essa iniciativa se assemelha a uma autonomia "de facto", permanecendo frágil. Os curdos se dotam de um "contrato social", uma espécie de Constituição. Em 2017, os moradores das regiões curdas elegem seus vereadores.

- Antijihadistas -O braço armado do PYD, as Unidades de Proteção do Povo (YPG), foi, desde 2014, uma das principais forças de combate ao grupo Estado Islâmico (EI) com o apoio aéreo da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos.

No início de 2015, as forças curdas apoiadas pelos ataques da coalizão repelem o EI de Kobane, na fronteira turca, depois de mais de quatro meses de violentos confrontos.

Em outubro de 2015, as Forças Democráticas Sírias (FDSs), compostas de 25 mil curdos e cinco mil árabes, todos sírios, são criadas. Dominadas pelas YPGs, as FDSs vão receber uma ajuda dos Estados Unidos - em armamentos, e também em apoio aéreo.

Dois anos mais tarde, em outubro de 2017, as FDSs expulsam o EI de seu reduto de Raqa.

Hoje, elas continuam a lutar contra os extremistas em seus últimos bolsões no leste do país.

- Reação turca -Em 14 de janeiro de 2018, a coalizão antiextremista anuncia que trabalha para a criação de uma "força" fronteiriça de 30 mil homens no norte da Síria, a ser constituída, especialmente, de membros das FDSs.

A Turquia considera as YPGs, principal integrante das FDSs, como uma extensão, na Síria do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), uma organização curda que trava uma guerrilha contra Ancara desde 1984 e que ela considera "terrorista".

Em agosto de 2016, a Turquia já tinha lançado uma ofensiva no norte da Síria. Oficialmente, o objetivo era fazer recuar tanto as milícias curdas quanto o EI.

Em 20 de janeiro de 2018, o Exército turco deflagra uma ofensiva terrestre e aérea letal contra as YPGs na região de Afrin. Dois meses mais tarde, assume seu controle.

- Abandonados por Trump -Em 19 de dezembro, Donald Trump ordena a retirada, para breve, de cerca de 2.000 militares americanos estacionados na Síria e que combatem o EI ao lado das YPGs.

Nos próximos dias, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, envia reforços militares para a fronteira entre a Turquia e as regiões curdas sírias em preparação de uma eventual ofensiva, após a retirada das tropas americanas.

Depois de pedir ajuda das forças curdas diante dessas ameaças, o Exército sírio anuncia, em 28 de dezembro, sua entrada na cidade-chave de Minbej (norte do país), a 30 quilômetros da fronteira turca.

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