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Sabe o que é "peronismo"? Entenda o movimento que move a política argentina

Imagem de outubro de 1950 mostra o então presidente argentino, Juan Perón, com sua mulher, Evita, em Buenos Aires - AP
Imagem de outubro de 1950 mostra o então presidente argentino, Juan Perón, com sua mulher, Evita, em Buenos Aires Imagem: AP

Em Buenos Aires

28/10/2019 10h25

O que é peronismo? A pergunta já foi feita muitas vezes por cientistas políticos e sociólogos de fora da Argentina. Mas algumas frases de pensadores, artistas e fatos históricos ajudam a entender melhor o fenômeno.

Como surgiu o peronismo?

O peronismo nasceu em 1945, após a chamada Década Infame do Partido Conservador. Foi um movimento de reação à fraude eleitoral, aos abusos patronais e aos acordos comerciais com a Inglaterra que condenaram o país a ser fornecedor de matérias-primas.

Foi formado por milhares de trabalhadores emigrados das províncias para Buenos Aires. Eram mestiços que se juntaram aos filhos e netos de imigrantes europeus. Nasceu em uma mobilização em massa de trabalhadores em 17 de outubro daquele ano. "É uma inundação zoológica", desprezou o então deputado radical social-democrata Ernesto Samartino.

Foi quando o antiperonismo também nasceu.

Por que o sindicato operário é peronista?

Os manifestantes exigiram a libertação do então coronel Juan Perón, secretário do Trabalho na ditadura do general Edelmiro Farrell.

O ditador mandou que fosse preso com medo de seu crescente poder por ter promovido leis e estatutos trabalhistas, indenizações e férias, entre outros direitos para o trabalhador.

Os trabalhadores idolatravam Perón e o levaram três vezes à presidência. É por isso que o peronismo conseguiu tirar o controle dos sindicatos dos socialistas, dos anarquistas e dos comunistas.

Desde então, a central de trabalhadores majoritários da CGT responde ao peronismo.

"Nós procedemos a um acordo sobre capital e trabalho, ambos protegidos pela ação diretiva do Estado", disse Perón em um discurso histórico.

É de esquerda ou de direita?

É um movimento nacional e popular policlassista. Abrange diferentes ideologias. A ideologia peronista defende a industrialização, o controle das exportações, o Estado forte, a saúde pública e a educação, subsídios sociais, neutralidade internacional e integração política e comercial sul-americana.

Expressões extremas do peronismo surgiram durante as décadas de 1960 e 1970: os guerrilheiros de Montoneros e, ao mesmo tempo, a organização paramilitar Aliança Anticomunista Argentina (Triplo A).

"A primeira coisa que pergunto aos estrangeiros é se, em seus países, os fenômenos políticos são simples. A rebelião catalã é esquerda ou direita? E os Coletes Amarelos da França?", observa o antropólogo Alejandro Grimson.

O artista plástico Daniel Santoro foi questionado sobre como o peronismo poderia, por exemplo, ser explicado a um finlandês: "Há algo de indefinível, mas alimenta o desejo de gozo, de felicidade".

E inclui personalidades históricas como o papa Francisco, porque é a doutrina social da Igreja de João 23, ou o ídolo do futebol Diego Maradona, um rebelde e transgressor. Ele contém em seu seio um ex-presidente peronista neoliberal, como Carlos Menem, e uma pessoa de centro-esquerda como Cristina Kirchner. E é um caso atípico no Ocidente, que teve duas presidentes, Isabel Perón e Cristina Kirchner, além de uma líder espiritual que era Evita Perón.

Agora é a vez de Alberto Fernández, um político de centro-esquerda que defende, como Cristina, políticas de incentivo ao consumo, salários altos, industrialismo e direitos humanos.

O país é dividido?

Na campanha eleitoral, o atual presidente Mauricio Macri reiterou a acusação histórica ao peronismo de ser clientelista e populista.

Fernández rebateu, afirmando que o movimento tira a Argentina das crises causadas por cada governo conservador.

Perón pediu aos empresários que abandonassem o poder econômico para construir uma sociedade de bem-estar, tendo a França e a Suécia do Pós-Guerra como modelo.

Gerou, contudo, um feroz antiperonismo. O maior escritor argentino de todos os tempos, Jorge Luis Borges, chegou a dizer que "os peronistas não são bons nem maus, são incorrigíveis".

O antagonismo está vivo, mas também pode ser visto com humor.

Um jornalista espanhol perguntou a Perón como era o arco político argentino: "Veja, na Argentina existem 30% de radicais (socialdemocratas), 30% de conservadores e outros socialistas".

"Mas onde ficam os peronistas?", questionou o repórter. "Ah, não, todos nós somos peronistas!", arrematou Perón.