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Candidaturas na Argentina se aproximam do centro e selam paz com peronismo

Mauricio Macri, presidente da Argentina, que concorre à reeleição - Nicolás Celaya/Xinhua
Mauricio Macri, presidente da Argentina, que concorre à reeleição Imagem: Nicolás Celaya/Xinhua

Luciana Taddeo

Colaboração para o UOL, em Buenos Aires

16/06/2019 04h00

O recente anúncio do presidente argentino, Mauricio Macri, de que um peronista será seu parceiro de chapa para as eleições de outubro surpreendeu. O senador Miguel Ángel Pichetto, seu candidato a vice, foi líder da bancada governista no Senado durante três os governos kirchneristas.

A novidade surgiu na véspera do prazo final para a inscrição das alianças para o pleito, na última quarta (12), e se soma ao espanto com a decisão da ex-presidente e senadora Cristina Fernández de Kirchner de concorrer como vice de Alberto Fernández, seu ex-chefe de gabinete, que acabou virando um forte crítico de seus governos.

A opção dos dois principais líderes políticos argentinos por ex-críticos para formar suas chapas eleitorais sinaliza uma tentativa de moderação de seus perfis, segundo especialistas entrevistados pelo UOL. A aliança partidária de Macri se chamará "Juntos pela Mudança" e, a do kirchnerismo --setor do peronismo--, "Frente de Todos".

Tanto Pichetto como Alberto Fernández são vistos como políticos de diálogo e negociadores. Pichetto tem prestígio como um político eficaz do peronismo, devido à sua atuação no Senado durante o kirchnerismo, conseguindo a aprovação de quase todas as leis.

"É um jogador que dá prestígio de governabilidade a Macri e possibilita a aproximação com o conjunto do peronismo, o que é uma espécie de giro ao centro político", diz Julio Burdman, cientista político e professor da Universidade de Buenos Aires. Segundo ele, com uma coalizão mais ampla, o presidente também se apresenta como mais moderado.

Para Ricardo Rouvier, sociólogo argentino e consultor especialista em pesquisa de opinião pública, a incorporação de Pichetto por Macri é um sinal de mudança, inclusive do modo como atuava, de forma fechada, desde que assumiu. Segundo ele, a abertura se deve ao risco de derrota eleitoral apontado em pesquisas.

Cristina Kirchner conversa com Alberto Fernández, seu colega de chapa - Cézaro de Luca/Efe
Cristina Kirchner conversa com Alberto Fernández, seu colega de chapa
Imagem: Cézaro de Luca/Efe

Tanto essa adesão como a de Alberto Fernández movimentam as chapas mais ao centro. "O kirchnerismo duro se abranda com Alberto Fernández e, com Pichetto, a direita se modera, em um deslocamento para o centro", explica Rouvier, lembrando que o peronismo supõe levar em conta problemas de justiça social e distribuição econômica.

Para Gabriel Puricelli, sociólogo do centro de estudos argentino Laboratório de Políticas Públicas, há moderação, mas a movimentação a um centro ideológico não é simétrica. Segundo ele, declarações de Pichetto, considerado um peronista de direita, após o anúncio de Macri, ratificam a linha direitista do governo, e o kirchnerismo seria a única aliança que se deslocaria para o centro.

O candidato a vice de Macri disse compartilhar com o governo "uma visão capitalista" e mencionou como acerto de Macri a política internacional --mencionando, inclusive, a recente reunião com o presidente Jair Bolsonaro. Mas Pichetto também defende a legalização do aborto e manifestou ser contra a prisão preventiva "como pena antecipada", em evidente referência à detenção de kirchneristas acusados de corrupção.

Terceira via?

Desde o final do ano passado, uma terceira via de peronistas mais ao centro do espectro político argentino tenta se consolidar como proposta eleitoral. Nas últimas semanas, o macrismo e o kirchnerismo negociaram com alguns dirigentes, em uma tentativa de cooptá-los e esvaziar essa alternativa.

A ex-presidente conseguiu o apoio de governadores peronistas e uma aliança com Sérgio Massa --também ex-chefe de gabinete, que rompeu com ela e acabou em terceiro na eleição presidencial de 2015--, enquanto Macri atraiu Pichetto.

Bolsonaro deu apoio a Macri em recente visita ao país vizinho - Agustin Marcarian/Reuters
Bolsonaro deu apoio a Macri em recente visita ao país vizinho
Imagem: Agustin Marcarian/Reuters

Uma aliança deste peronismo moderado com outros partidos foi inscrita, mas já enfraquecida. Na chapa, Roberto Lavagna, o ministro de Economia de Néstor Kirchner, visto por muitos como o economista que tirou a Argentina da crise de 2002, concorre ao lado do governador da província de Salta, Juan Manuel Uturbey, que irá como vice. No total, sete alianças podem estar na disputa de outubro.

Para o brasileiro Thomaz Favaro, diretor para o Cone Sul da consultora Control Risks, a inclusão de Pichetto na chapa de Macri tenta quebrar a dicotomia entre uma chapa peronista e uma não peronista e forçar uma divisão. Assim, redobra-se a aposta por uma polarização direta com o kirchnerismo, um terreno no qual "o governo se sente mais confortável". "A estratégia vai ser captar os eleitores do centro, não tanto com propostas mais centristas, mas explorando um medo de um retorno do kirchnerismo", afirma.

Ele ressalta também o caráter hegemônico do peronismo e diz que diante de uma adesão massiva de peronistas à aliança kirchnerista, Macri teria uma "dificuldade muito maior de se reeleger". "Então ele tenta atrair parte do antikirchnerismo, reforçando a polarização com o kirchnerismo, e não entre peronismo e antiperonismo, o que seria mais difícil para ele", analisa.

Tranquilidade para o empresariado

Para Burdman, não há uma verdadeira radicalização ideológica na Argentina, mas sim um processo no qual os dois blocos dominantes excluem a competição.

O advogado Miguel Ángel Pichetto, vice na chapa de Mauricio Macri na disputa presidencial na Argentina - Agustin Marcarian/Reuters
O advogado Miguel Ángel Pichetto, vice na chapa de Mauricio Macri na disputa presidencial na Argentina
Imagem: Agustin Marcarian/Reuters

Alberto Fernández e Pichetto também têm em comum tranquilizarem os mercados e o empresariado argentino, já que ganharam prestígio em gestão de crise durante o governo de Néstor Kirchner (2003-2007) --o primeiro como chefe de gabinete e o segundo como líder da bancada peronista no Senado.

A ampliação da base de consenso permitiria ao próximo governo lidar com a crise de uma Argentina em recessão, endividada com o FMI (Fundo Monetário Internacional), com uma inflação de 57,3% nos últimos 12 meses e índices sociais que se deterioram aceleradamente.

Por isso, diz Burdman, todos "se esquecem dos enfrentamentos do passado e parecem se perdoar mutuamente" na conformação das chapas. "Ninguém sabe muito claramente como sair dessa situação ou pode se dar ao luxo de se enfrentar muito entre si", explica.

Ele ressalta que o partido de Macri, o PRO, foi formado com ex-peronistas, mas passou a representar o eleitor antiperonista. "O macrismo está renunciando à sua identidade política com Pichetto. Era o movimento da nova política, com figuras da política não tradicional, que queria deixar o peronismo para trás. E acabam colocando uma pessoa representativa da política tradicional", pontua. Já o reestabelecimento de laços do kirchnerismo com Fernández e Massa, antes considerados traidores, mostra uma espécie de "reconciliação da liderança política".

Mas as movimentações ao centro não implicam necessariamente a redução da polarização, pela contraposição entre kirchnerismo e antikirchnerismo. "Ainda são propostas radicalmente diferentes de rumos para o país", lembra Favaro, citando, por exemplo, as divergências em relação ao FMI ou à agricultura, vista por Macri como polo exportador e motor de crescimento, e, pelo kirchnerismo, como potencial financiador, por meio de taxações, de políticas de redistribuição de renda com programas sociais e subsídios. "Acho que vamos ver uma eleição bastante polarizada", conclui.

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