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Justiça australiana anula condenação por pedofilia e liberta cardeal Pell

07/04/2020 08h58

Brisbane, Austrália, 7 Abr 2020 (AFP) - O cardeal George Pell, que já foi um dos prelados mais poderosos do Vaticano, saiu da prisão nesta terça-feira (7), após vencer no Tribunal Superior da Austrália uma longa batalha judicial envolvendo acusações de pedofilia.

Pell, 78 anos, saiu da prisão de Barwon, na região de Melbourne, no banco de trás de um carro preto, encerrando um período de detenção iniciado em março de 2019. Pouco depois, visitou o convento das carmelitas de Melbourne.

O cardeal australiano foi absolvido de cinco acusações de abuso sexual contra dois coroinhas, ambos com 13 anos, na década de 1990.

A sentença na máxima instância judicial do país é uma vitória definitiva para Pell, que sempre alegou ser inocente.

Pell reagiu pouco depois do anúncio da absolvição e afirmou que a decisão reparava "uma injustiça grave".

"Não quero que minha absolvição traga de volta a dor e a amargura que muitos sentem. Já houve suficiente dor e amargura", mas foi reparada "uma injustiça grave", declarou Pell ao comentar a decisão.

"Meu julgamento não era um referendo sobre a Igreja Católica ou sobre como as autoridades eclesiásticas da Austrália trataram o crime de pedofilia na Igreja. A questão era se eu havia cometido estes atos horríveis, e não foi esse o caso".

O ex-secretário da Fazenda do Vaticano havia sido condenado em março de 2019 a seis anos de prisão por violência sexual contra dois adolescentes em 1996 e 1997, na catedral de São Patrício de Melbourne, na qual era arcebispo.

Em dezembro de 2018, um júri condenou Pell por estes crimes e a sentença foi confirmada por um painel de três juízes do Tribunal de Apelação do estado de Victoria em agosto do ano passado, em uma decisão dividida (2 contra 1).

Mas nesta terça-feira, o Tribunal Superior da Austrália, em Brisbane, concluiu que há "uma possibilidade significativa de que uma pessoa inocente seja condenada porque as provas não estabeleceram sua culpabilidade no nível probatório requerido".

Os sete magistrados do Tribunal Superior estabeleceram que o tribunal inferior se "omitiu sobre se havia uma possibilidade razoável de o crime não ter sido cometido, de modo que deveria existir uma dúvida razoável sobre a culpabilidade".

Durante o julgamento, os advogados do prelado denunciaram um "acúmulo de inverossimilhanças", como o fato de o arcebispo não ter tido a oportunidade nem o tempo de agredir os coroinhas na sacristia da catedral ao final da missa.

Cathy Kezelman, presidente da organização de apoio às vítima Blue Knot Foundation, afirmou que a decisão da Suprema Corte australiana seria "devastadora" para muitas vítimas.

"A pandemia de abusos sexuais de crianças na Igreja Católica ameaça a segurança de milhões de crianças, os adultos que eles se tornam e a fibra moral do que significa ser humano", disse, antes de destacar que respeita a decisão do tribunal.

"Pell agora está livre, mas muitas vítimas de abuso nunca foram livres, presas no horror dos crimes que dizimaram suas vidas", acrescentou Kezelman.

O ex-tesoureiro do Vaticano permanece no sacerdócio, mas seu futuro papel na Igreja Católica é incerto.

Durante o julgamento, Pell foi afastado das principais instâncias da igreja, mas o Vaticano resistiu a abrir uma investigação interna.

O Vaticano recebeu "com satisfação" a notícia da absolvição de Pell, que foi um dos colaboradores mais próximos do papa Francisco.

"A Santa Sé, que sempre confiou na autoridade judicial australiana, recebe com satisfação a sentença unânime do Tribunal Supremo em favor do cardeal George Pell, que o absolve das acusações de abuso de menores, revogando sua condenação", afirmou o Vaticano em um comunicado.

"O cardeal Pell (...) sempre defendeu sua inocência", completa o comunicado.

Um pouco antes, o papa Francisco havia pedido orações para os que sofrem injustiças por "crueldade", mas sem citar Pell.

"Nestes dias de #Quaresma observamos a perseguição que sofreu Jesus, como foi julgado com crueldade, mesmo sendo inocente. #OremosJuntos hoje por todas as pessoas que sofrem por causa de uma sentença injusta por crueldade", afirmava a mensagem do pontífice publicada no Twitter.

Em seu comunicado o Vaticano reafirma "o compromisso na prevenção e perseguição de qualquer tipo de abuso a menores".

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