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Manifestação em Lagos é dispersa a tiros em pleno toque de recolher

20/10/2020 19h52

Lagos, 20 Out 2020 (AFP) - As forças de ordem da Nigéria dispersaram nesta terça-feira (20) a tiros uma manifestação de mil pessoas em Lagos, capital econômica do país africano mais populoso, causando diversas mortes, segundo a Anistia Internacional (AI).

"Vários manifestantes morreram", declarou à AFP Isa Sanusi, porta-voz da AI.

Várias pessoas contatadas na manifestação pela AFP disseram ter ouvido muitos tiros e que tiveram que correr para salvar a vida. Em vídeos divulgados nas redes sociais viam-se vários feridos.

"Tenho duas pessoas no meu carro, um homem e uma mulher, e ambos estão em estado grave", lamentou Innocent A., em declarações à AFP.

"Já deixei outras duas pessoas no hospital, uma estava ferida por bala nas costas e a outra no estômago", completou o manifestante.

O governo nigeriano havia anunciado horas antes um toque de recolher por tempo indeterminado em Lagos e o envio da tropa de choque ante o aumento da violência nas manifestações de jovens contra o governo em várias cidades.

Um porta-voz informou que o toque de recolher em Lagos, que entrou em vigor às 16h locais, agora teria prazo indeterminado e vigente de dia e de noite até segunda ordem. A princípio, o decreto teria duração de 24 horas.

Cerca de 1.000 manifestantes continuavam reunidos nesta terça-feira na avenida de Lekki, um dos centros dos protestos em Lagos, capital econômica do país, alguns minutos antes do início do toque de recolher, segundo uma jornalista da AFP.

"Estamos preocupados? Não, morreremos aqui!", gritava a multidão, que balançava bandeiras nigerianas.

Após mais de dez dias de manifestações contra a violência policial, que começaram em cidades do sul e resultaram em um movimento de protesto juvenil contra o governo em todo o país, vários incidentes foram registrados na manhã desta terça-feira.

Diante da violência, o chefe da polícia ordenou pela tarde "o envio imediato das unidades antidistúrbios em todo o país para proteger os nigerianos e seus pertences, e para proteger as infraestruturas nacionais básicas".

Pela manhã, em Lagos, grupos de jovens indignados tomaram o controle de quase todas as ruas da megalópole de 20 milhões de habitantes, bloqueando os motoristas e deixando alguns veículos passarem em troca de dinheiro, observou um jornalista da AFP.

No oeste da cidade, uma delegacia da polícia foi incendiada. Houve disparos e várias pessoas foram feridas por balas.

- "Um monstro" - "As manifestações pacíficas se tornaram um monstro que ameaça o bem-estar da nossa sociedade", declarou o governador Babajide Sanwo Olu antes de anunciar o toque de recolher.

"Criminosos e arruaceiros se escondem sob o guarda-chuva destes protestos para provocar o caos no nosso estado", denunciou.

Na capital federal, Abuja, dezenas de veículos e prédios foram incendiados e a polícia foi enviada ao local, segundo um jornalista da AFP.

Após vários incidentes na véspera em Benin City, capital do estado de Edo (sul), o governador instaurou um toque de recolher de 24 horas, mas a situação continuava instável nesta terça-feira.

No norte, em Kano, centenas de jovens foram às ruas nesta terça e alguns queimaram carros e lojas, segundo a AFP.

Há alguns dias, vários manifestantes acusam os arruaceiros, armados com paus e facões, de receberem dinheiro para se infiltrar em seus protestos, com o objetivo de intimidar ou descredibilizar o movimento.

- Ao menos 18 mortos -As manifestações deixam ao menos 18 mortos na Nigéria desde o seu início, segundo uma contagem da AFP realizada com base nos dados da Anistia Internacional e da polícia.

Até agora, a maioria das manifestações tinham sido pacíficas, com jovens levando cartazes, cantando e dançando.

A mobilização, surgida no começo de outubro nas redes sociais para denunciar a violência policial, foi se transformando pouco a pouco em um movimento contra o governo.

O presidente, Muhammadu Buhari, não voltou a falar desde que anunciou a supressão de uma controversa unidade policial e uma reforma da polícia na semana passada.

Nesta terça, o Senado pediu que o presidente se dirija "com urgência" à nação, e pediu ao governo que responda aos pedidos dos manifestantes para "reavivar a confiança".

Além de uma representação melhor na política, os jovens pedem aumentos salariais e mais empregos.

Primeira potência econômica do continente africado por seu petróleo, a Nigéria é o país mais populoso da África e o que tem o maior número de pessoas vivendo na extrema pobreza no mundo.

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