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Defesa dos condenados pelas chacinas de Osasco e Barueri dizem que vão recorrer

Elaine Patricia Cruz - Repórter da Agência Brasil

22/09/2017 23h09

Os advogados dos dois policiais militares e do guarda-civil que foram condenados hoje (22) em júri popular pelas 17 mortes e sete tentativas de assassinato ocorridas nas chacinas de Osasco e Barueri, no dia 13 de agosto de 2015, disseram que vão recorrer da sentença. Todos foram condenados a cumprir a pena em regime fechado. "Recebemos com tristeza a notícia da condenação. Já recorremos da decisão em plenário e vamos agora analisar as razões do recurso, sobretudo porque a decisão não foi unânime", disse o advogado Evandro Capani, defensor de Thiago Henklain, que falou a jornalistas juntamente com os demais advogados dos corréus. "Foi por apenas um voto de diferença, uma decisão muito difícil para os jurados", falou.
 
O policial Fabrício Emmanuel Eleutério foi condenado à pena de 255 anos, 7 meses e 10 dias de prisão. O também policial Thiago Barbosa Henklain recebeu sentença de 247 anos, 7 meses e 10 dias. Já o guarda-civil Sérgio Manhanhã foi condenado a 100 anos e 10 meses. As penas somam mais de 600 anos. Um outro policial, Victor Cristilder Silva dos Santos, que também foi denunciado pelo Ministério Público por participação nas chacinas, recorreu à Justiça da decisão que o levou a júri popular e não foi julgado neste momento. Ele será julgado em separado, mas a data do julgamento não foi ainda agendada.
 
Para Capani, as penas foram excessivas. "A pena foi pesada e não merecida", falou. "Existe uma série de dificuldades para manutenção dessa pena. Acredito que, eventualmente, o tribunal deva devolver esse júri [realizar outro]", acrescentou.
 
Os policiais Fabrício Emmanuel Eleutério e Thiago Barbosa Henklain foram acusados de terem disparado contra as vítimas e respondiam por todas as mortes e tentativas de assassinato. Já o guarda-civil Sérgio Manhanhã, segundo a acusação, teria atuado para desviar viaturas dos locais onde os crimes ocorreriam e foi denunciado por 11 mortes. Eles responderam por homicídio qualificado, por motivo torpe, com emprego de recurso que dificulta as perdas das vítimas e praticado por grupo de extermínio, além de responderem pelo crime de formação de quadrilha.
 
O júri popular teve início na segunda-feira. A sentença foi divulgada por volta das 18h. Ao entrar na sala para a leitura de sentenças, o policial militar Eleutério entrou chorando e soluçando. Seu advogado, Nilton Vivan Nunes, pediu para que ele ficasse "de cabeça erguida".   Emoção e revolta Antes de anunciar a condenação dos réus, a juíza Elia Bullman elogiou a postura dos jurados durante todo o julgamento e disse que todos ali presentes ao júri popular "tinham uma missão". Depois ela se dirigiu às famílias das vítimas das chacinas, já bastante emocionada. "Nós que trabalhamos com o tribunal do júri, trabalhamos com a dor, a dor da perda. Não nos acostumamos a ver todas as vidas que são perdidas aqui na cidade. Engana-se quem pensa que um juiz do tribunal de júri se acostuma com as mortes ou com a perda", disse ela, chorando. A leitura da condenação dos réus pela juíza também provocou fortes emoções na sala do júri. As mães das vítimas choraram muito com a decisão. Já os parentes e amigos dos réus ficaram indignados. Na saída da sala, o pai do policial Eleutério, bastante emocionado, gritou que a sentença foi injusta. "Foi injusto. Foi covarde. Foi uma palhaçada, uma covardia contra um inocente. O que eu estou sofrendo é pela covardia que fizeram contra um inocente. Não havia provas suficientes para isso", disse José Eleutério Filho, pai de Fabrício, gritando e gesticulando muito na saída do fórum. "Vocês acham que agora eles vão atrás de quem realmente fez? Quem fez estava rindo. Meu irmão vai morrer na prisão. Ele é inocente. Por que não vão atrás de quem fez? Eles acabaram com a minha família e destruíram a vida de um rapaz de 32 anos. Meu irmão está sendo enterrado vivo", disse Fabiana Eleutério, irmã de Fabrício. Resultado justo O promotor Marcelo Alexandre de Oliveira, de outro lado, disse que o resultado foi justo. "Acho que foi feita justiça. A resposta que os familiares esperavam do tribunal do júri de Osasco foi dada", disse Oliveira. "Não havia provas contundentes e irrefutáveis contra cada um deles. Mas o conjunto do processo não me deu dúvidas de que eles tinham participação nessa chacina", acrescentou. Para ele, a sentença de hoje dá uma lição para a sociedade brasileira. "Espero que os maus policiais, que são a minoria, comecem a refletir sobre esse resultado, a ver que os jurados não tem mais receio, e entendam que não se tolera mais violência e justiça com as próprias mão e extermínio".  
 
O promotor, na saída do fórum, depois de ser entrevistado por jornalistas, foi muito aplaudido pelas mães das vítimas, que o abraçaram e pediram para que fossem fotografadas ao lado dele.
 
Aparecida Silveira Brito, mãe de Adalberto Brito, morto na chacina, disse não esperava que os policiais fossem condenados. "Pelo menos estamos mais aliviadas. Eu achava que eles seriam absolvidos. Foi surpresa, surpresa boa", disse ela à Agência Brasil.
 
Zilda Maria de Paula, mãe de Fernando Luis de Paula, outra vítima da chacina, que saía com pressa da frente do fórum atendendo a um pedido da juíza, que temia conflitos por causa da grande aglomeração de pessoas, também considerou que a sentença fez justiça às famílias. "A Justiça foi feita porque os meninos nem sabem porque morreram. Acho que a Justiça foi feita. É a primeira vez, né?", falou Zilda a jornalistas. Indagada se esse resultado lhe traria paz, ela respondeu: "Vai. E mais paz para outras mães também. Mas a luta vai continuar". O advogado de Cristilder, João Carlos Campanini, que acompanhou o julgamento dos outros réus, disse que o julgamento de hoje pode influenciar no de seu cliente. "Se o promotor de Justiça não tem certeza, a população também não tem, porque foram 4 votos a 3 [no caso do guarda-civil, a decisão foi por 5 a 2]. Ou seja, dos sete jurados, quase a metade não tem certeza. O promotor declarou para repórter que não tinha prova irrefutável e colocou três pessoas na cadeia para cumprir mais de 200 anos sem prova", falou. Para o advogado, a decisão dos jurados atendeu a um "clamor social". O placar dos votos dos jurados, no entanto, não foi revelado. Segundo o promotor, assim que é atingido o quarto voto, a juíza cessa a votação para que não se saiba quem votou em quê, em casos de unanimidade.