Capez esfregou o indicador e o polegar das duas mãos, diz delator sobre propina

De São Paulo

  • Moacyr Lopes Júnior-13.fev.2016/Folhapress

    O presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Fernando Capez (PSDB)

    O presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Fernando Capez (PSDB)

O lobista Marcel Julio, personagem central da Operação Alba Branca - investigação que apura a máfia da merenda escolar em São Paulo -, relatou em sua delação premiada à Procuradoria-Geral de Justiça encontros com presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Fernando Capez (PSDB) e afirma que tucano exigiu dinheiro porque sua campanha eleitoral estava "sofrendo". O deputado nega as acusações (leia mais abaixo).

A Alba Branca investiga um esquema de fraudes em licitações da merenda escolar. A Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf) se infiltrou, segundo as investigações, em pelo menos 22 prefeituras e mirava em contratos da Secretaria da Educação do governo Geraldo Alckmin (PSDB).

Em sua delação, Marcel Julio afirmou que ele e o pai, Leonel Julio, ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo pelo antigo MDB, que também foi preso na Alba Branca, auxiliaram Capez na campanha de 2010.

Marcel Julio afirmou que em 2014 esteve três vezes seguidas no escritório político. A primeira apenas com o assessor do tucano, Luiz Carlos Gutierrez, o Licá, para quem teria entregado documentos. Depois duas vezes com Capez, segundo Marcel Julio.

Segundo o delator, o escritório político ficava na Rua Tumiaru, na Vila Mariana (zona sul da capital). Na delação, o lobista descreveu o escritório e "a secretária Sol". Marcel Julio disse que foi Licá, que era seu amigo, quem marcou e esteve presente em todos os encontros.

Em um trecho da delação, o lobista afirmou. "Quando nos preparávamos para deixar o local, na frente de todos que estavam ali na antessala, o deputado esfregou indicador e polegar, das duas mãos, rindo e de braços abertos, enquanto dizia: 'Não esquece de mim, hein, estou sofrendo em campanha!'. Ficou bem claro que com esse gesto ele queria dinheiro."

O delator relatou que em um dos encontros, o ex-assessor do tucano Jeter Rodrigues Pereira o chamou na Assembleia para conversar . "Eu fui até lá, quando ele me disse: Você viu lá a publicação, tudo como combinamos? Agora precisamos falar de valores. Eu quero 2% do contrato e no total nós queremos, tirando os meus 2%, mais R$ 450 mil para ajudar na campanha do deputado Capez", afirmou o lobista.

Reunião

Em um dos encontros, Marcel Julio relatou que participaram Capez, ele, Licá e um investigado de nome "César". Segundo o lobista, Capez afirmou que "já estava por dentro do assunto" e que "iria resolver o problema", mandando Licá enviar um e-mail para a secretaria de Educação.

Dez dias depois, afirmou o delator, Marcel e Cesar se reuniram com Capez e Licá. O tucano teria pedido para a secretária Sol ligar para o ex-chefe de gabinete da Educação estadual Fernando Padula. A secretária teria informado que Padula não poderia atender. O delator contou que Capez ligou do próprio celular e conversou com Padula.

De acordo com Marcel Julio, depois de explicar que o contrato seria cancelado e haveria outro, Capez disse para "ficarmos tranquilos que garantiria o novo contrato e na saída de nossa pediu o dinheiro".

"O deputado até chegou a afastar o aparelho do ouvido para mostrar que estava falando e foi logo dizendo 'Pô, Padula, o que está acontecendo com o assunto Cooperativa Coaf. Você ficou de me passar a informação. Eles estão com problema e vão perder o suco'", relatou o lobista.

Defesas

Capez afirma que não recebeu propinas do esquema descoberto na Operação Alba Branca. O argumento central do parlamentar, ao rechaçar a denúncia do lobista, é que o contrato da Secretaria da Educação citado é de 2015. Ou seja, na avaliação do deputado, não faz sentido a versão de que teria recebido propina para sua campanha no ano anterior ao do fechamento do contrato da merenda.

Fernando Padula também nega e envolvimento com a organização que fraudava licitações da merenda. Quando foi citado em grampos da Operação Alba Branca declarou que está à disposição do Ministério Público e da Justiça para prestar todos os esclarecimentos.

O espaço está aberto para manifestações dos investigados.

Alckmin diz que o próprio governo investigou a 'máfia da merenda'

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Segundo Marcel, uma propina de R$ 490 mil supostamente relativa a um contrato da Secretaria de Educação do governo Geraldo Alckmin (PSDB) foi entregue aos aliados do deputado.

Marcel Julio teve prisão decretada em janeiro e se entregou na semana passada à Policia Civil em Bebedouro (interior de SP). Após o Tribunal de Justiça de São Paulo homologar sua delação, na segunda-feira, ele foi colocado em liberdade.

Capez nega que tenha recebido propinas do esquema de desvio de verbas da merenda escolar descoberto na Alba Branca.

Convocação

O líder do PT na Alesp, José Zico Prado, vai pedir a convocação do chefe de gabinete de Capez, Alexandre Zakir, para prestar esclarecimentos sobre sua relação com Jeter Rodrigues.

Em entrevista ao jornal "Folha de S.Paulo", o ex-assessor do tucano disse ter sido procurado por Zakir para combinar uma versão para o recebimento de um cheque de R$ 50 mil proveniente do esquema de propinas. "Conforme os nomes vão aparecendo, vamos convocando", disse o líder do PT. Segundo ele, as tentativas de esclarecer a participação de Capez na máfia da merenda tem parado na bancada governista, que barra pedidos de convocação dos envolvidos e bloqueia a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). "Estamos parados em 23 assinaturas (são necessárias 32) faz tempo."

Jeter Rodrigues negou ter se encontrado com o chefe de gabinete do tucano para combinar a versão. O advogado do ex-assessor de Capez, Roberto Lamari, disse que esteve com seu cliente na sala de Zakir, a pedido do chefe de gabinete, para tratar de outro assunto.

"O Zakir queria comunicar que estava abrindo uma sindicância. Não se falou em cheque e o Jeter nem entrou na sala", disse o advogado. A assessoria de Capez também nega o encontro.

Segundo as investigações, o esquema envolvia o pagamento de propina a agentes públicos e era liderado pela Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf), que mantinha contratos para fornecimento de alimentos com diversas prefeituras. A empresa é acusada de fraudar a modalidade de compra "chamada pública", que pressupõe a aquisição de produtos de pequenos produtores agrícolas. A empresa cadastrou cerca de mil pequenos produtores, mas comprava de apenas 30 ou 40 deles, e adquiria também de grandes produtores e na central de abastecimento do estado, informou o MP.

Capez é o único deputado com programa próprio na TV da Alesp

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