'Eu quero ser o que eu era', diz internado

Felipe Resk

São Paulo

Sete meses passados do último contato com a família, Marcos Bezerra, de 46 anos, apareceu sujo, com a barba longa, a roupa rasgada e pesando 45 quilos de pele e osso. Com ele, carregava uma fome de três dias, marcas de feridas no corpo e um pedido: "Eu quero ser o homem que eu era".

O homem que Bezerra era tem quatro filhos e trabalha como comerciante. É dono de cinco barracas de feira e também tem casa e apartamento próprios. Já o homem que Bezerra se tornou mora na Cracolândia e cata latinha para comer e comprar droga. "Ele não tem mais nada: nem documento", diz a mãe, Hilda Bezerra, de 74 anos.

Hilda não esconde a tristeza ao relatar a história do filho, mas agora também vê motivos para sentir esperança. "Foi a primeira vez que ele pediu para receber tratamento", diz a mãe, que o acompanhou ontem ao Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), no centro da capital.

As internações voluntárias após a megaoperação policial realizada na Cracolândia, no domingo, somam 40 casos, segundo dados divulgados pela Prefeitura na manhã desta quarta-feira, 24. "Eu acredito que ele pode mudar, porque não foi forçado a nada. Se ele não quisesse, não teria resultado", afirma Hilda.

Mortes

A mãe não tinha notícia de Bezerra desde outubro, quando o encontrou em uma barraca no Vale do Anhangabaú. Anteriormente, ele havia morado na Praça da República e na Sé, na região central da cidade.

Ida e volta

Na ocasião, chegou a voltar para casa e pedir ajuda para tirar documentos. Disse que queria trabalhar de novo. Dos familiares, recebeu R$ 28 para tirar fotos e pagar passagens até o Poupatempo mais perto. Bezerra, então, desapareceu. "A gente não sabia se estava vivo ou morto", conta Hilda. Segundo ela, o filho foi morar na rua pela primeira vez há dez anos, após descobrir uma traição conjugal. Foi quando começou a usar droga.

Nesse período, Bezerra ainda passou um tempo "limpo" e chegou a virar pastor de uma igreja evangélica, mas recaiu. Vivendo na rua, diz já ter sido vítima de violência policial e também de facadas de traficante por não quitar dívida de droga. "Meu filho já morreu várias vezes", diz Hilda. "Agora, a gente quer que ele volte a viver." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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