Aliado diz que 'não vale a pena vender' Interlagos com projeto de Doria

Fabio Leite

São Paulo

Autointitulado 'pai' da proposta de intervenção urbana no extremo sul de São Paulo, o presidente da Câmara Municipal, Milton Leite (DEM), fez duras críticas ao projeto apresentado pela gestão do prefeito João Doria (PSDB) para privatizar o autódromo de Interlagos. "Do jeito que está não vale a pena vender", disse o vereador, principal aliado do tucano na capital.

Leite reclama tanto do tamanho da área total reservada pela gestão dentro do autódromo para a construção de prédios - 135 mil m², ou 14% dos 960 mil m² de Interlagos - como do potencial construtivo permitido, ou seja, o tamanho máximo somado das novas edificações - 480 mil m².

Revelado na semana passada pelo jornal O Estado de S. Paulo, o projeto de Doria para o autódromo prevê um novo bairro com até 25 torres residenciais para 5 mil famílias na área hoje ocupada pelo kartódromo Ayrton Senna, um complexo empresarial com escritórios e hotéis na parte externa da reta oposta, e até um shopping instalado no meio do circuito da Fórmula 1.

À reportagem, o presidente da Câmara antecipou que fará mudanças no projeto de Interlagos, que compõe um plano urbanístico mais amplo, batizado de Arco Jurubatuba, inserido a pedido dele pela gestão Fernando Haddad (PT) no Plano Diretor da cidade, aprovado em 2014. O projeto está em fase de consulta pública na Secretaria Municipal de Licenciamento e Urbanismo e deve ser enviado ainda neste mês à Câmara, onde precisa ser discutido e aprovado em duas votações por 2/3 dos vereadores para virar lei.

Dez vezes

"Não é possível dispor só de 140 mil m² para venda. Isso é pouco para uma área de quase 1 milhão de m²", disse Leite, que propõe aumentar para 500 mil m² a área total destinada a empreendimentos imobiliários e pelo menos dez vezes o potencial construtivo para quem comprar Interlagos.

"Nós temos de derrubar as barreiras que temos dentro do autódromo, rever arquibancada, rever tudo. É um projeto que, da forma como está, é insuficiente. Temos que buscar mecanismos legais, alterar as disposições que permitam ali, pelo menos, 4 milhões de m². Caso contrário, não é negócio vender", afirmou o parlamentar. "Vamos melhorar isso para melhorar a venda".

Leite argumenta que, com as regras urbanísticas propostas pela gestão Doria para Interlagos, vai faltar dinheiro proveniente das outorgas onerosas pagas pelos empreendedores para construírem acima do limite básico para financiar as todas intervenções urbanas previstas na região, como prolongamento de 6,3 km da Marginal do Pinheiros, construção de parque linear na orla do Rio Jurubatuba e reurbanização de favelas.

"Tenho que duplicar a marginal para atender a demanda a esse novo empreendimento que nascerá em Interlagos e não temos dinheiro. Temos de melhorar o acesso viário atrás do autódromo e não temos dinheiro. Temos que dispor de infraestrutura pública com mais escolas e hospitais e, com esse recurso que vem [com a proposta de Doria] não é possível. Da forma como está [o projeto], nós aumentaremos a conta do contribuinte muito mais", concluiu.

À reportagem, o diretor de desenvolvimento da São Paulo Urbanismo (SP Urbanismo), Leonardo Amaral Castro, disse que os locais e os parâmetros de construção permitidos em Interlagos foram definidos de modo a preservar a visibilidade da pista por quem for assistir às corridas, além do córrego e do lago que existem no circuito. Segundo ele, a proposta da Prefeitura para a região é "conservadora" para controlar o impacto ambiental nos dois mananciais próximos: Billings e Guarapiranga.

A principal preocupação de urbanistas ouvidos pela reportagem é de que o projeto pode estimular um adensamento prejudicial para uma região delicada da cidade, por causa da presença das duas represas - o nome Interlagos faz referência à região suíça "Interlaken", que significa "entre lagos".

Privatização

Com 78 anos de história, Interlagos foi incluído por Doria na lista de equipamentos a serem privatizados por ser muito custoso e considerado ocioso. Segundo a Prefeitura, o gasto anual chega a R$ 55 milhões, sendo R$ 5 milhões com manutenção e pessoal e R$ 50 milhões com a montagem das estruturas provisórias para o GP de Fórmula 1, além de grandes reformas estruturais. A última, em 2016, custou R$ 160 milhões.

Em outubro do ano passado, Doria disse que queria privatizar o autódromo até março deste ano e arrecadar com ele até R$ 2,5 bilhões. Agora, porém, a meta é concluir o processo neste ano. Durante a campanha, o tucano havia dito que seria possível obter R$ 7 bilhões com as vendas de Interlagos e do Complexo do Anhembi, na zona norte da capital.

Segundo Milton Leite, seria possível conseguir este valor apenas com o autódromo caso as regras de construção permitam empreendimentos ainda maiores no local. O projeto de autoriza a privatização de Interlagos já foi aprovado em primeira votação na Câmara em 2017 e deve ser votado em segunda ainda neste semestre.

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