Entrevista/'Feiras geram sensações que internet nunca dará'

SÃO PAULO, 1 MAR (ANSA) - Na era das redes sociais e do marketing digital, vender ou apresentar um produto ficou mais fácil - e acessível. No entanto, as feiras de negócios, com seus tradicionais stands de exposição, continuam inabaláveis, apostando no relacionamento pessoal entre vendedor-comprador, técnica milenar que impulsionou o comércio mundial. A Cipa Fiera Milano, promotora de feiras no Brasil e uma das maiores da América Latina, espera um crescimento de 10% a 15% em 2018.   

Filial da italiana Fiera Milano desde 2011, a Cipa une sua experiência no mercado brasileiro com o know-how de uma das mais famosas empresas de evento do mundo. Atualmente, a companhia organiza 12 feiras no Brasil, entre elas a Fisp Fire Show (Feira Internacional de Segurança e Proteção) e a Exposec (Feira Internacional de Segurança), setor que representará boa parte dos lucros deste ano, devido aos casos de violência urbana e digital. Diretor comercial da Cipa Fiera Milano desde 2014, o paulistano Rimantas Ladeia Sipas, 43 anos, contou à ANSA os desafios do ramo e os requisitos para se organizar um evento de sucesso. ANSA: O que mudou no ramo de feiras de negócios nos últimos anos? Sipas: Antes, tínhamos feiras técnicas que serviam para apresentar produtos. Mas, com a evolução da tecnologia e com um novo perfil de qualificação dos visitantes, todas as feiras da Cipa foram evoluindo para oferecer cursos, congressos, e não apenas um espaço para produtos. Essa é uma tendência mundial. O público vai para fazer networking, trocar informações, ter experiências, fazer cursos, assistir a palestras e congressos e, também, ver os produtos, mas dentro de todo esse contexto. As empresas também passam a liberar os funcionários com mais facilidade para ir às feiras. Nos últimos anos, com uma economia em crise e as empresas sem motivo para comprar novos produtos nas feiras, a solução era enviar os funcionários para terem aperfeiçoamento profissional.   

Nós somos uma das promotoras que mais investem em conteúdo em feiras, muito antes de isso ser tendência.   

ANSA: De que forma as redes sociais afetaram o setor de feiras? Sipas: A rede social nos ajudou a ter engajamento constante.   

Como as feiras ocorrem a cada ano, ou dois, havia um período de menos interação. Com as redes sociais, temos um contato diário.   

Os visitantes dizem quais produtos querem ver, conferem a programação, comentam sobre os cursos. É um termômetro. A gente consegue ter um canal focado no visitante durante todo o ano, o tempo inteiro. Essa era a grande dificuldade antes, pois fazíamos a feira e só tínhamos contato com o visitante depois de um ano. ANSA: Quais características principais uma promotora de feiras, como a Cipa Fiera Milano, precisa ter para atuar no setor? Sipas: Dar o resultado esperado ao expositor e ao cliente. O expositor tem todas as portas abertas para entrar em contato com o visitante, o qual, por sua vez, também tem todas as facilidades, como credenciamento VIP antecipado, meio de transporte facilitado, tudo para proporcionar o encontro do expositor com o visitante. É importante escutar o expositor, saber o que ele precisa, quais mudanças deseja. Quem determina o rumo de uma feira é o visitante e o expositor, e a gente precisa interpretar isso bem. Além de ser bem determinado e focado, investir pesado no marketing, nunca pensar que sua feira já está sólida ou que você é líder de mercado. Tem que tratar a feira sempre como nova. Todas as feiras que achavam que estavam no auge fecharam. A feira oferece algo que a internet nunca vai dar: a sensação de você interagir com o produto, sentir o cheiro, tocar. Não tenho medo da internet, ela ajuda a divulgar o produto, mas ela nunca oferecerá o contato pessoal, a sensação da venda, o olho no olho. A indústria de automóvel lança carro, até pela internet, mas ninguém compra pela internet. Você precisa ver o carro, sentir o cheiro do carro novo. O ser humano precisa ter contato com outro ser humano. ANSA: Existe uma rotatividade alta dos expositores? Sipas: Não, essa é nossa grande vantagem. Temos uma fidelização muito grande, de 90% a 95% dos mesmos expositores, ano a ano, porque eles têm resultado com a feira. Se você faz uma feira e, todo ano, precisa colocar novos expositores, você não evolui.   

ANSA: A Cipa é filial da Fiera Milano. Como é essa relação? Sipas: A Fiera Milano adquiriu em 2011 a Cipa aqui no Brasil, que passou a ser chamada de Cipa Fiera Milano. Temos uma autorização para tocar os negócios no Brasil de maneira independente, seguindo as particularidades do mercado brasileiro, o que é algo muito importante, pois você não pode comprar uma empresa brasileira e torná-la italiana. A cultura, o povo, o jeito de fazer negócios são muito diferentes, e a Itália entendeu bem isso. A Fiera Milano passou tecnologia, informação, tudo que poderíamos melhorar de know-how. Mundialmente, a Cipa ficou mais conhecida, porque a Fiera Milano é muito famosa na Europa.Institucionalmente, abriu portas para clientes internacionais. ANSA: Qual a expectativa da Cipa para esse ano? Sipas: Acredito 100% neste ano para o crescimento. O empresário conseguiu descolar a política da economia. Nossa expectativa é de um crescimento de 10% a 15%, pois já estamos com uma curva de vendas maior do que na mesma época do ano passado. Dificilmente não iremos conseguir bater essa meta. O setor da segurança eletrônica deve crescer um pouco mais do que isso. Olha o caso do Rio de Janeiro. Se o governo não faz, as empresas privadas estão fazendo, as pessoas querem se proteger. E a segurança no trabalho também crescerá. A indústria voltou a crescer e, se você contrata um funcionário, é obrigado a comprar um kit de segurança. ANSA: Há algum setor que poderia ser explorado melhor com feiras? Sipas: Se alguém tiver essa resposta, dê para mim, porque quero lançar essa feira. Eu não consigo ver um setor hoje da economia que não tenha sua feira. (ANSA)
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