Paratleta francês sem um antebraço sonha em tocar na bateria do Salgueiro

Para o francês Arnaud Assoumani, de 31 anos, que já tem no currículo quatro medalhas paralímpicas no atletismo, a Paralimpíada do Rio deve ter um sabor especial além de um potencial quinto pódio.

Nascido sem o antebraço esquerdo, o paratleta do salto em distância está determinado em realizar o sonho de tocar na bateria do Salgueiro, tradicional escola de samba carioca, e diz que já se organiza para isso após o término das competições.

Além de duas medalhas de prata em Londres (2012), no salto triplo e no salto em distância, uma de ouro em Pequim (2008), no salto em distância, e outra de bronze em Atenas (2004), também no salto em distância (todas na categoria F46), Assoumani toca repique num grupo de samba de Paris há dez anos, e diz que, apesar de vários convites de amigos brasileiros, nunca conseguiu vir ao Rio para tocar numa bateria.

"Toco repique num grupo de batucada em Paris desde 2006 e até hoje nunca consegui vir aqui tocar numa bateria. Gosto muito do Salgueiro e não vou sair do Rio de Janeiro sem realizar este sonho", conta.

Filho de pai jogador de basquete e de futebol e de mãe jogadora de vôlei, Arnaud conviveu com o esporte desde muito pequeno, e aos dois anos já começou a fazer aulas de natação. Mais tarde jogou futebol, basquete e tênis de mesa, e aos 11 anos passou a treinar no atletismo. Aos 19 anos participou de sua primeira Paralimpíada, em Atenas (2004).

Para ele sua carreira no esporte paralímpico tem sido uma resposta a críticas e comentários que ouviu desde criança.

"Desde pequeno você escuta coisas como 'você não vai poder fazer isso', 'você não consegue fazer aquilo'. É muito ruim, e eu sempre soube que poderia fazer tudo o que eu quisesse", conta.

O francês diz que sempre teve em mente que era "diferente", mas que isso jamais o impediria de atingir seus objetivos.

"É claro que às vezes você tem dúvidas, pensa em desistir. Mas o segredo é desafiar as barreiras e não colocar limites para você mesmo", explica.

Repique e Carnaval

No grupo em que toca percussão há dez anos, em Paris, Arnaud já fez vários amigos brasileiros e muitos deles virão ao Rio para torcer por ele nesta quarta-feira, quando compete nas finais do salto em distância, desta vez na categoria F47.

Apesar do foco na competição, ele não consegue esconder a empolgação com o que deve vir depois.

"Eles vêm com meus pais e alguns deles estão me ajudando no contato com a bateria do Salgueiro e devem ir comigo na quadra da escola assim que eu me liberar das provas. Não vejo a hora, mas claro, a prioridade é a competição", diz, bem humorado.

Muitos de seus amigos costumam vir ao Brasil para sair em escolas de samba e têm feito convites há anos para que ele viesse ao Carnaval, mas por outros compromissos ele nunca conseguiu vir e a Paralimpíada no Rio trouxe a oportunidade.

Vaias

Questionado sobre o episódio das vaias envolvendo seu compatriota Renaud Lavillenie, também do atletismo, que era favorito absoluto à prova do salto com vara na Olimpíada e perdeu para o brasileiro Thiago Braz, levando a prata, Assoumani diz que entende a cultura latina.

Lavillenie se ofendeu e chegou a comparar as vaias recebidas do público no Estádio Olímpico do Engenhão às dirigidas ao americano Jesse Owens nos Jogos de Berlim, em 1936, durante o período nazista.

"O Brasil é um país muito mais do futebol, e a torcida é diferente em cada país. Na França não estamos acostumados a isso, mas para os torcedores de futebol brasileiros é algo normal. Entendo que a cultura latina é diferente, e espero que não me vaiem, mas se acontecer, será apenas mais um incentivo que vai me dar ainda mais motivação para vencer", explica.

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