Com pagamento em dinheiro, motorista do Uber vê crescer risco de assaltos em São Paulo

Luciano Teixeira

De São Paulo

  • Kai Pfaffenbach/Reuters

Era para ser uma noite normal de trabalho para Daniel (nome fictício). Motorista do aplicativo Uber há cerca de um ano, o professor universitário desempregado aproveitava a alta demanda de passageiros no sábado para reforçar a renda semanal.

Mas ele não tinha ideia do que aconteceria ao atender o chamado de uma estudante da USP no centro de São Paulo. A moça chorava muito no banco de trás. Daniel pensou em puxar conversa para saber o que ocorria, mas preferiu ficar quieto no trajeto entre o centro e Vila Mariana, na zona sul na cidade.

O endereço de destino era um local escuro, entre casas e vilas. A moça resolveu descer na pensão onde vivia e fazer uma nova chamada para outra corrida.

"Foi então que ela, um pouco distraída, deixou a porta de trás do carro aberta. Ficou assim por pouco tempo, uns três minutos, mas o suficiente para que tudo acontecesse. A porta aberta impediu a visibilidade da rua", conta o motorista.

O descuido foi o mote para bandidos aproveitarem a situação. Dois homens armados chegaram numa moto e anunciaram o assalto. "A perna tremeu na hora e deu vontade de acelerar. Mas tinha a passageira e a porta aberta: resolvi ter calma e aceitar a situação", diz Daniel.

A ação foi rápida - um dos ladrões desceu da moto e levou o celular de Daniel. O assalto só não continuou porque um carro da Polícia Militar apareceu no fim da rua. Os bandidos aceleraram a moto e fugiram com o celular. "A polícia parou para pedir que fechássemos a porta e foi atrás dos ladrões. Mas acho que os perderam, porque não voltaram para contar o que aconteceu."

Após o susto, motorista e passageira caíram no choro. Daniel, que já havia tido o carro levado por ladrões em março, perdera a fonte imediata de renda, e a moça estava abalada porque vinha de uma briga feia com os pais após ter saído de casa e se mudado para uma pensão.

Sentindo-se culpada por ter deixado a porta aberta, a estudante resolveu ajudar. "Ela percebeu que minha situação era pior: tinha que sustentar uma família e precisava do celular para trabalhar". Em um ato inesperado, a moça decidiu comprar, na hora, um celular novo para o motorista que acabara de conhecer.

Os dois foram até um shopping próximo e ela pagou pelo mesmo modelo do celular roubado. "A moça gastou quase R$ 700 para me ajudar, quase não acreditei", conta Daniel. Após o trauma, a estudante decidiu voltar para a casa dos pais - e o motorista acabou ajudando na mudança.

Pagamentos em dinheiro

De olho em ganhos fáceis, bandidos começam a se especializar no assalto a motoristas dessa nova modalidade de transporte, sobretudo depois que o aplicativo começou a aceitar dinheiro para pagamento das corridas, segundo relatos dos próprios condutores. O Uber, no entanto, nega que haja relação entre a modalidade de pagamento e casos de violência.

Outras razões também podem deixar os motoristas vulneráveis - carros descaracterizados, impossibilidade de recusar muitas corridas e até as poucas informações disponíveis aos motoristas sobre os clientes.

Seis anos após lançar seu primeiro aplicativo para smartphones, o Uber soma US$ 18 bilhões em investimentos pelo mundo e um valor de mercado em torno de US$ 70 bilhões. Opera em 425 cidades de 72 países e tem cerca de 30 milhões de usuários no planeta por mês. Tornou-se popular pelas tarifas mais baixas e serviço considerado melhor do que o táxi convencional.

Em São Paulo há pouco mais de dois anos, o Uber ganhou notoriedade e foi tema de discussões e protestos de taxistas pela cidade, até o serviço ser regulamentado pela Prefeitura de São Paulo no primeiro semestre de 2016.

Mas quadrilhas especializadas passaram a mirar motoristas de aplicativos como o Uber, que são novos no mercado e que nem sempre acumulam a malícia de profissionais que trabalham nas ruas há mais tempo. A insegurança cresceu, afirmam motoristas e analistas do setor, após o aplicativo começar a aceitar corridas em dinheiro - em São Paulo, isso ocorre desde o final de julho.

Além da ação de bandidos que se aproveitam da desatenção de motoristas e usuários, ladrões se passam por passageiros para assaltar e até sequestrar motoristas. Em emboscadas, solicitam corrida até um local onde outros bandidos já esperam o motorista, que sofre um sequestro-relâmpago e é obrigado a fornecer senha de cartões para saques.

A empresa não divulga o número de motoristas, mas estima-se que eles passem de 55 mil apenas na capital paulista - já o número de taxistas, segundo a prefeitura, está em torno de 80 mil.

Ação de quadrilha

No final de agosto, uma quadrilha foi presa na Brasilândia, zona norte de São Paulo, suspeita de sequestrar ao menos sete motoristas.

A BBC Brasil entrou em contato com um deles, que aceitou conversar sob a condição de não ser identificado. Ele conta que foi rendido por três homens e uma mulher durante uma corrida.

"Levaram-me a um cativeiro numa favela e me obrigaram a dizer a senha dos cartões. Passei a madrugada refém. Enquanto isso, outro motorista também foi levado ao mesmo local. Ele começou a gritar. Assustado, um dos bandidos que tomavam conta fugiu e conseguimos escapar", relata.

Duas pessoas acabaram presas em flagrante, e a investigação identificou outras vítimas.

Arquivo pessoal
Mão ferida de um motorista paulistano de Uber em São Paulo, vítima de assalto

Roberto (nome fictício) também foi alvo de ladrões, mas reagiu à abordagem - conduta que a polícia não recomenda - e chegou a quebrar a mão ao enfrentar os bandidos.

"Foi às 4h40. Um grupo entrou (no carro) na avenida Santo Amaro, em direção à avenida Giovanni Gronchi, no Morumbi. Havia uma moça e dois rapazes, e a impaciência da moça, bastante nervosa, chamou minha atenção", diz.

Ele afirma ter percebido que seria assaltado porque um dos passageiros escondia a mão na jaqueta de forma suspeita. "Quando chegamos numa rua escura e deserta ele mostrou a faca e anunciou o assalto. Puxei o freio de mão e segurei a faca com as duas mãos. O rapaz do banco de trás puxou meu dedo e quebrou um osso da minha mão. Acabaram fugindo sem levar nada."

O motorista criticou a falta de assistência da empresa diante do ocorrido. "Mandei e-mail relatando a situação, mas a resposta foi um descaso total. Nem me ligaram para perguntar se estava bem. Fazem um jogo psicológico se você não atende as exigências. Se recusamos muitas chamadas, por exemplo, logo mandam um aviso de que o índice de recusa está alto."

Abaixo-assinado

Um grupo de motoristas do Uber criou um abaixo-assinado eletrônico no site Change.org, pedindo mais segurança nas viagens pagas em dinheiro e medidas como identificação mais detalhada dos passageiros.

"Ao realizar o cadastro de usuário é necessário apenas cadastrar nome, e-mail e telefone para solicitar o veículo em dinheiro. A única confirmação realizada pelo aplicativo é se o número de telefone é válido. Assim, solicitamos que seja exigido no cadastro do usuário o CPF para pessoas físicas, CNPJ para jurídicas, passaporte para estrangeiros e a foto do passageiro para que o mesmo possa ser facilmente identificado", diz o abaixo-assinado, que somava adesão de 250 pessoas na semana passada.

Segundo o presidente da recém-criada Amaa (Associação dos Motoristas Autônomos por Aplicativo), Paulo Acras, a crise econômica torna o trabalho nas ruas mais inseguro.

"Quem trabalha no Uber está mais exposto do que no táxi. Há o risco de que ladrões levem o veículo, porque é um carro particular comum, diferente dos táxis. Há relatos de motoristas que começaram a andar armados para se defender dos taxistas ou dos assaltantes", diz.

BBC Brasil
Paulo Acras, presidente da Amaa (Associação dos Motoristas Autônomos por Aplicativo)

Não há estatísticas oficiais sobre roubos a motoristas de aplicativos de transporte em São Paulo, pois não há esse tipo de especificação nos boletins policiais de ocorrência. Também não há delegacia especializada no assunto.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública no Estado, os cuidados com segurança são os mesmos recomendados a condutores de táxi, como recusar corrida ou acionar polícia em caso de atitude suspeita.

Nas ruas há um mês, Carlos, de 29 anos, diz que não é simples assim, pois o motorista corre o risco de ser excluído caso recuse muitas corridas.

Ele diz que histórias de assaltos a colegas do Uber têm "aumentado bastante" e relata a tensão de trabalhar à noite e ter que aceitar corridas com dados escassos sobre clientes e destinos.

'Única fonte de renda'

A reportagem procurou o Uber para comentar o aumento nos relatos de assaltos a condutores e as críticas e demandas dos motoristas por segurança.

Em nota, a empresa informou que a plataforma busca se tornar "cada vez mais democrática e inclusiva" ao oferecer a possibilidade de pagamentos em dinheiro, e negou relação entre essa modalidade e aumento da violência contra motoristas.

"Essa opção está disponível em mais de 90 cidades no mundo, sendo que não houve aumento, em geral, de incidentes relacionados à violência urbana na plataforma nesses lugares."

Para motoristas vítimas de assaltos ou sequestros, permanece o medo de novos golpes.

"(Mas) é minha única fonte de renda e não posso largar agora. Passei a tomar mais cuidado, evito aceitar corridas suspeitas. Também tenho dado dicas de segurança a quem usa o serviço, como não deixar a porta aberta e prestar atenção na rua na hora de sair do carro. Evito parar em ruas escuras e só ando com vidros fechados. É a realidade de São Paulo, com ou sem crise", diz Daniel.

*Colaborou Thiago Guimarães, da BBC Brasil em São Paulo

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