21 anos após o assassinato de Rabin, apenas minoria segue seu legado em Israel

  • Folhapress

    Da esquerda para a direita, em foto de 1994: o premiê israelense Yitzhak Rabin, o líder palestino Iasser Arafat e o chanceler Shimon Peres, em Oslo (Noruega), em evento para a entrega do prêmio Nobel da Paz

    Da esquerda para a direita, em foto de 1994: o premiê israelense Yitzhak Rabin, o líder palestino Iasser Arafat e o chanceler Shimon Peres, em Oslo (Noruega), em evento para a entrega do prêmio Nobel da Paz

A cada ano que se passa desde aquele 4 de novembro de 1995, quando o então primeiro-ministro Itzhak Rabin foi assassinado por um extremista da direita israelense, o legado de paz deixado por ele é lembrado e respeitado por menos pessoas no país.

Desde aquela noite em novembro, quando Igal Amir deu 3 tiros nas costas de Rabin, executando o que é considerado um dos assassinatos políticos mais bem sucedidos da história, Israel mudou muito.

Durante o interrogatório na polícia, Amir declarou que quando Rabin estava caminhando em direção a seu carro, minutos depois de fazer um discurso histórico em favor da paz com os palestinos, na então Praça dos Reis de Israel, em Tel Aviv (que após o assassinato passou a chamar-se Praça Rabin), ele teve poucos segundos para decidir se atirava nele ou em Shimon Peres, o então ministro das Relações Exteriores, que morreu em setembro deste ano.

"Eu estava à mesma distância dos dois (Rabin e Peres), mas sabia que só podia matar um, pois os policiais imediatamente pulariam em cima de mim" afirmou Amir. "O meu objetivo era eliminar o chamado processo de paz com os palestinos, e para alcançá-lo achei que seria melhor eliminar Rabin".

Em retrospectiva, parece que Amir acertou. O processo de paz morreu ali, naquela praça, com a morte de Rabin, e desde então não ressuscitou. Desde então, a cada ano, a paz entre israelenses e palestinos parece mais distante e impossível de ser alcançada.

Acordo e Nobel da Paz

Depois de um conflito que durava quase um século, no acordo de Oslo, assinado por Rabin e o líder palestino Yasser Arafat, pela primeira vez houve um reconhecimento mútuo entre israelenses e palestinos. O acordo, assinado em setembro de 1993, rendeu a Arafat, Rabin e Peres o prêmio Nobel da Paz.

Segundo o acordo, israelenses e palestinos iniciariam negociações sobre os diversos temas básicos do conflito. O chamado processo de paz foi de fato a série de negociações iniciadas em 1993, porém o assassinato de Rabin interrompeu o processo, que nunca mais se recuperou.

O assassinato é considerado uma das três razões principais para o fracasso do acordo entre israelenses e palestinos. A segunda foi a série de atentados suicidas cometida pelo grupo extremista Hamas nas grandes cidades israelenses, que deixou centenas de civis mortos.

O terceiro motivo é a contínua ampliação dos assentamentos israelenses, fato que destruiu a confiança dos palestinos acerca das intenções de Israel.

As oposições internas tanto na sociedade israelense como na sociedade palestina venceram os favoráveis ao acordo e o resultado é o fortalecimento da extrema-direita em Israel e do grupo islamista Hamas na Palestina.

Guinada para a direita

Alguns meses após o assassinato, em maio de 1996, o lider da direita, Benjamin Netanyahu, foi eleito primeiro-ministro de Israel. Naquela época se acentuava a guinada da politica israelense do centro para a direita.

Hoje, 21 anos depois, Israel está dando uma nova guinada, desta vez da direita para a extrema-direita. Posições em favor de um acordo com palestinos e da devolução dos territórios ocupados durante a guerra de 1967 tornaram-se minoritárias.

Segundo pesquisas de opinião, a maioria dos israelenses é contra a volta de Israel às fronteiras anteriores à chamada Guerra dos Seis Dias. A maioria dos israelenses também é contra a retirada dos assentamentos construídos por Israel nos territórios ocupados na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

O número de colonos que hoje moram nesses territórios já passa dos 600 mil e o desmantelamento dos assentamentos parece impossivel até aos olhos dos pacifistas mais otimistas. A ONU considera estes assentamentos ilegais.

Porém, de fato, sobraram poucos pacifistas otimistas em Israel. Hoje em dia, o otimismo passou para o lado dos defensores do Grande Israel, cujo projeto revelou-se como bem sucedido.

Vinte e um anos após o assassinato, o governo é composto por partidos contrários à desocupação. Vários dos ministros são colonos habitantes em assentamentos nos territórios ocupados. O principal aliado do partido governista Likud na coalizão governamental é o partido Lar Judaico, liderado pelo atual ministro da Educação, Naftali Benett.

O Lar Judaico defende a permanência de Israel na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental e é explicitamente contra a fundação de qualquer Estado palestino no território considerado por ele como o Grande Israel, terra pertencente ao povo judeu, de acordo com o escrito na Bíblia.

Benett afirma claramente que se o primeiro-ministro Netanyahu fizer qualquer movimento em direção à devolução de territórios para os palestinos, o Lar Judaico deixará a coalizão, causando assim a queda do governo.

Netanyahu também não dá sinal algum de que pretende seriamente retomar qualquer tipo de negociação com o líder palestino Mahmoud Abbas.

Situação irreversível?

Os líderes palestinos, que obtiveram o controle de uma pequena área da Cisjordânia, a chamada área A, onde se encontram as grandes cidades palestinas, perderam completamente a esperança de que algum dia possa haver paz com Israel e de que eles possam construir um Estado independente e viável nos territórios da Cisjordânia, Jerusalem Oriental e Faixa de Gaza.

A Faixa de Gaza encontra-se completamente desconectada da Cisjordânia e é dominada pelo grupo extremista Hamas, que também rejeita qualquer acordo com Israel.

Abbas, que supostamente é presidente da Autoridade Palestina, ficou isolado na Cisjordânia e impossibilitado até de visitar Jerusalém Oriental.

A oposição pró-Hamas cresce na Cisjordânia e, segundo as pesquisas, se as eleições fossem hoje, o grupo sairia vitorioso nessa região também. A facção secular Fatah que, liderada por Yasser Arafat, apoiou o acordo de Oslo com Israel, perderia o pouco poder que ainda detém.

Enquanto isso, graças ao crescimento demográfico, à continua construção e ao deslocamento de mais israelenses de dentro das fronteiras originais para os territórios ocupados, os assentamentos continuam se ampliando.

Existe quase uma unanimidade entre os analistas de que a situação política e demográfica que se criou na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental seja irreversível.

Quase ninguém acredita que algum governo em Israel será jamais capaz de retirar mais de 600 mil pessoas instaladas nesses territórios, portanto não haverá condições para a criação de um Estado Palestino com continuidade territorial.

Na cadeia, com um sorriso no rosto

O assassinato de Itzhak Rabin, que na época causou uma enorme comoção no país e no mundo, hoje desperta a tristeza de poucos em Israel.

Neste sábado (5) haverá um comício na Praça Rabin, em Tel Aviv, para lembrar o primeiro-ministro assassinado. Algumas dezenas de milhares de pessoas devem participar.

Igal Amir encontra-se na cadeia, condenado à prisão perpétua. Porém alguns dizem que não está distante o dia em que ele venha a ser anistiado e libertado.

Nesse meio tempo ele casou-se e teve um filho, recebe visitas regulares de sua esposa e, sempre que aparece na mídia, está com um largo sorriso estampado no rosto .

* A jornalista Guila Flint morou por mais de quatro décadas em Israel e é autora do livro 'Miragem de Paz - Israel e Palestina, Processos de Retrocessos', publicado pela Editora Civilização Brasileira.

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