Insisti que ele fosse, diz filho de narrador que estava na lista de passageiros, mas desistiu de viajar

Estava tudo pronto para o radialista Ivan Carlos Agnoletto embarcar para Medellín, na Colômbia, e narrar um dos jogos mais importantes de sua vida.

A partida consagraria a sua carreira e a trajetória do time de sua cidade, a Chapecoense, que entrou para a história como o primeiro clube catarinense a chegar a uma final internacional.

Mas ele desistiu da viagem um dia antes.

"Deus o tirou do voo. Ele nos iluminou", disse o dentista e filho do narrador, Igor Agnoletto, de 35 anos.

Em entrevista à BBC Brasil, ele contou que insistiu e até fez campanhas em grupos de WhatsApp para pressionar seu pai, o narrador da rádio Super Condá AM, de Chapecó, a viajar para Medellín.

"Ele disse que queria narrar a final do Campeonato Catarinense sub 20 e também precisava firmar alguns contratos para o próximo ano. E, por isso, não poderia ir. Eu disse não era possível ele não ir à final neste momento", disse o filho.

Assim que acordou pela manhã, Igor Agnoletto usou seu perfil no Facebook para acalmar amigos e familiares.

O motivo: o nome de seu pai estava na lista de passageiros que estariam no voo.

O filho agradeceu a preocupação de todos e informou que o pai estava bem.

"Muita gente ligou, mandou mensagem. Foi uma loucura. Tive que explicar que não era verdade que meu pai tinha embarcado. Muita gente não acreditou porque, quando ele saiu para fazer o jogo em São Paulo contra o Palmeiras no domingo, mandou um recado 'até quinta' para os amigos", diz.

O radialista acompanha a Chapecoense há 40 anos e está em Chapecó, mas não conseguiu falar com a BBC Brasil porque está trabalhando na cobertura da tragédia.

Motivo de discussão

O filho do narrador relata que não só ele como a sua família ficaram inconformados com a desistência do narrador.

"Virou motivo de discussão porque as coisas são muito difíceis para a gente, estávamos felizes com o sucesso da Chapecoense. Hoje, estamos muito tristes, mas aliviados", disse.

Igor conta que seu pai viajou com toda a imprensa local de Chapecó a São Paulo para acompanhar, no último domingo, o jogo contra o Palmeiras pela penúltima rodada do Campeonato Brasileiro.

Foi neste dia que ele decidiu ceder a oportunidade de ir à Colômbia ao segundo narrador da rádio Super Condá, Gelson Galiotto.

O colega então viajou para São Paulo e, no dia seguinte, embarcou com o repórter da rádio Edson Luiz Picolé para acompanhar o time.

Igor Agnoletto disse que seu pai sabia do sonho de Galiotto de narrar a final. Ele acabou voltando de van para Chapecó.

O filho do narrador mora em Florianópolis. Segundo ele, toda a região está perplexa.

"A gente viu todas essas pessoas subirem na profissão de uma maneira muito difícil até chegarem ao seu auge e agora assistimos a essa tragédia. É um sonho que ruiu, acabou, a cidade desabou. O significado da Chapecoense para a região é muito significativo", afirmou.

Ele ainda não viu nem telefonou para seu pai após a tragédia, mas descreve um sentimento confuso pelo fato de ele ter sobrevivido, mas, por outro lado, ver amigos mortos.

"Acho que predominou o alívio de ouvir a voz dele (pai) no rádio fazendo boletim hoje de manhã. Agora, eu fico imaginando o que eu sentiria se ele embarcasse. Eu me arrependeria muito, para sempre."

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