Escândalo da carne ameaça mercado asiático, conquistado a passos de formiga pelo Brasil

A hegemonia das carnes brasileiras na mesa do consumidor asiático não veio do dia para a noite. Trata-se de um mercado conquistado com muito esforço.

Além de longas negociações comerciais e do lento processo para construir a reputação de boa qualidade do produto, o país também contou com uma pequena dose de sorte: preencheu espaços deixados por fornecedores atacados por sucessivos surtos de gripe aviária ao longo da última década.

Mas com o escândalo revelado pela operação Carne Fraca, da Polícia Federal, teme-se agora a perda de clientes assíduos desse mercado de mais de US$ 4 bilhões (R$ 12,6 bilhões) anuais e retrocessos nos processos de abertura de mercados que vêm sendo negociados há anos. Em 2016, as exportações brasileiras globais de carne (bovina, suína e frango) totalizaram US$ 13,6 bilhões, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Até o momento, China, Hong Kong e Japão anunciaram a suspensão de importações brasileiras. Outro importador asiático a suspender as compras do Brasil após a divulgação do escândalo, a Coreia do Sul, voltou atrás e anunciou a retomada das importações. Os sul-coreanos não têm grande expressão na lista de importadores de carnes brasileiras, aparecendo apenas como sétimo colocado na relação de compradores de carne de frango, respondendo por menos de 3% do total das vendas brasileiras.

A ausência do Brasil nestes mercados poderá vir a ser preenchida por fornecedores concorrentes, como Austrália, Estados Unidos, Argentina e Uruguai.

"No mundo existem três países que dominam o mercado mundial de carnes: Brasil e Estados Unidos em carne de frango; e Brasil, EUA e Austrália, em carne bovina. Para a carne suína, a participação do Brasil ainda é pequena. Os americanos notificaram na semana passada um novo foco de gripe aviária, e o Brasil estava esperando ganhar parte de seu mercado ", explicou o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

Longo processo

Há anos o Brasil vinha tentando entrar nestes mercados - de 2013 até fevereiro deste ano, as exportações de carnes bovinas cresceram 50%.

O Japão, terceiro maior importador global de frango brasileiro com quase 11% do total, ainda não tem expressão como comprador de carne bovina produzida no Brasil.

As negociações com os compradores japoneses arrastam-se há anos na esperança de liberar a carne brasileira "in natura". As tratativas começaram há mais de cinco anos, tendo sido interrompidas em 2012, por causa de um surto de encefalopatia espongiforme bovina (BSE) no Paraná, a doença da vaca louca.

Só no final de 2016, após quatro anos de negociações, os japoneses retomaram a importação de carne termoprocessada (cortes fritos, cozidos ou assados), que tinha sido suspensa em 2012 por causa do surto de vaca louca.

Agora, os negociadores apostam na meticulosidade japonesa para não perder a oportunidade. O próprio governo do Japão reconheceu que o alcance das exportações brasileiras com problemas para o país era pequeno - apenas um dos 21 frigoríficos sob investigação teria exportado para o mercado japonês em 2015.

Em 2016, os japoneses importaram do Brasil cerca de US$ 720 milhões (R$ 2,26 bilhões) em aves e US$ 6 milhões (R$ 19 milhões) em suínos. Os frangos brasileiros correspondem a 80% do que eles compram do produto no exterior.

"Eles são muito meticulosos. Não iriam mudar um processo decisório complexo e demorado", disse um técnico que acompanha de perto o tema.

Fator China

A conquista da China no segmento de carnes é relativamente recente. E o ano de 2016 foi considerado um marco: o Brasil deixou os australianos para trás pela primeira vez, tornando-se o maior fornecedor de carnes bovinas para os chineses.

E as exportações de carne suína, a preferida do consumidor local, saltaram de 123 mil toneladas, em 2015, para 232 mil toneladas, em 2016, com a respectiva receita cambial passando de US$ 273 milhões (R$ 857 milhões) para US$ 497 milhões (R$ 1,5 bilhão).

Isso significa um crescimento de 82% em valor e 89% em peso. E este aumento se manteve em janeiro/fevereiro deste ano em relação ao mesmo período de 2016, com as exportações crescendo 26% em receita, 10% em quantidade e o mais importante, subindo 14,5% em preço.

Os chineses anunciaram oficialmente na segunda-feira à noite a suspensão das importações de carnes brasileiras. E já avisaram que o produto que desembarcar nos portos do país ficará retido até segunda ordem.

A porta-voz voz do governo Hua Chunying disse que as restrições são temporárias.

Na quarta-feira, grandes redes de supermercados começaram a retirar os produtos brasileiros das prateleiras. O mesmo foi feito na cidade de Hong Kong (região administrativa especial). As lojas prometem o ressarcimento dos clientes que compraram o produto nos últimos dias - e tudo isso tem um custo para a imagem do Brasil.

Para Castro, o que se lamenta é que a divulgação das descobertas da Operação Carne Fraca, da forma como se deu, passe a impressão para o mundo que todas as carnes brasileiras tinham problema, afetando seriamente a credibilidade mundial do produto.

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