Brasileiros presos no Zimbábue em missão humanitária são soltos após julgamento

Ricardo Senra

Da BBC Brasil em Washington

  • Philimon Bulawayo/ Reuters

    Presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, está no poder desde 1980

    Presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, está no poder desde 1980

Após quase 24 horas detidos em uma prisão de Mutare, no Zimbábue, três brasileiros foram liberados após um julgamento no tribunal local de pequenas causas, que foi acompanhado por emissários do Itamaraty.

O frei católico Rodrigo Peret, da Comissão Pastoral da Terra de Uberlândia (MG), os ativistas Maria Julia Gomes Andrade e Jarbas Vieira, do Movimento de Atingidos pela Mineração, acompanhavam um grupo de 22 estrangeiros em uma visita a comunidades afetadas pela mineração de diamante na região de Marange, onde estão algumas das maiores reservas da pedra preciosa no planeta.

O governo local afirma que as atividades foram realizadas em áreas de acesso proibido nas minas de Marange. Todos os presentes foram levados de ônibus pela polícia local até a de prisão da cidade de Mutare, que fica a 4 horas da capital do país, Harare.

Segundo o Itamaraty, a embaixada brasileira no Zimbabue destacou um diplomata para acompanhar a situação dos brasileiros, que já tinham apoio jurídico local. O diplomata acompanhou o julgamento e, após pagamento de fiança, os brasileiros estão sendo levados à capital em carro oficial.

De acordo com informações do Vaticano, o frei e os demais brasileiros estão bem. O deputado estadual mineiro Durval Ângelo (PT), pai de uma das presas, afirmou que os brasileiros foram mantidos por oito horas na prisão sem comunicação.

Além dos brasileiros, 19 ativistas da África do Sul, Zâmbia, Quênia e Uganda que acompanhavam a missão também foram liberados após o julgamento, mas aguardam apoio de suas embaixadas para se delocarem em segurança até a capital do país.

Tensão política

Na última sexta-feira, a BBC Brasil falou com a sul-africana Mercia Andrews, do movimento internacional de direitos humanos People's Dialogue (Diálogo dos Povos), que estava no local no momento das prisões.

Ela acompanhava a missão de ativistas às minas de Marange, cujas licenças de exploração são alvo de controversia com antigos moradores da região, que atribuem importância espiritual à área.

"Estávamos conversando com os moradores da área, que estão sendo removidos de suas casas e relatavam abusos e limitações em seu direito de ir e vir", disse Andrews.

Parte dos moradores da região já foi removida pelo governo para áreas distantes da mineração. Essa zona onde viviam tem importância espiritual para a população local. Recentemente, as comunidades que ainda estão ali têm sido pressionadas a sair.

Observadores internacionais apontam crescente tensão no país, que enfrenta uma dura crise econômica e terá eleições presidenciais do ano que vem.

Na última segunda-feira, o presidente do país, Robert Mugabe, de 93 anos, demitiu o vice-presidente, Emmerson Mnangagwa, sob acusações de traição. Mugabe está no poder desde 1980.

Removido do cargo após 37 anos de trabalho no governo local, Mnangagwa prometeu à imprensa local voltar para "lutar pela democracia" no país.

Para o diretor da ONG Humans Right Watch na África, Dewa MAvhinga, a violência política coloca as eleições em risco.

"No atual ambiente, altamente polarizado, um dos maiores desafios que o Zimbábue enfrenta antes das eleições no próximo ano é ter instituições de Justiça independentes, profissionais e não partidárias. Os vizinhos do Zimbábue na Comunidade de Desenvolvimento da África Austral devem pressionar o governo para que abusos do passado sejam investigados e para acabar com a violência e garantir que as eleições sejam justas", afirmou Mavhinga recentemente, em nota pública.

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