Tim Vickery: "O futebol vai ser só fogo de palha" - por que a profecia de Graciliano Ramos deu tão errado no Brasil?

Tim Vickery

Colunista da BBC Brasil*

  • Divulgação

    Graciliano Ramos acreditava que o futebol 'não ia pegar' no Brasil

    Graciliano Ramos acreditava que o futebol 'não ia pegar' no Brasil

"O futebol não pega, tenham certeza", escreveu Graciliano Ramos em 1921, fornecendo uma bela mostra de que é mais sábio fazer "previsões" depois dos fatos. Eu, por exemplo, tenho um palpite de que, poucos anos depois da declaração de Ramos, o futebol viraria um forte elemento da identidade brasileira.

O esporte bretão, na visão ramosiana, seria "um fogo de palha capaz de durar bem um mês". Não ia vingar porque era totalmente desnecessário. "Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras?"

Realmente, houve países onde o futebol encontrou forte rejeição, onde as pessoas guardaram tal bedelho para si.

O mais curioso é que esses países eram parte do Império Britânico: Índia, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia abraçaram o críquete, esporte da Inglaterra rural, que virou popular no século 18. Mas não se deram bem com o futebol. Os últimos três escolheram rúgbi - e no caso da Austrália, também inventaram outro esporte, chamado Aussie Rules Football, cujo fascínio, pelo menos para o leigo, é a aparente ausência de qualquer tipo de regra. Altamente indicado para anarquistas.

Nos Estados Unidos, que tinham lutado uma guerra para ficar independente, o processo foi mais forte ainda. Futebol não teria vez. Inventaram uma versão local, mais violenta. E também abandonaram o críquete. Desenvolveram sua própria alternativa, o beisebol.

Essa atividade foi muito importante na reconstrução do país depois da Guerra Civil, e logo alcançou o status de esporte nacional. Para disfarçar sua origem britânica - foi filhote de um jogo chamado "rounders" -, inventou-se o mito de que o beisebol fora jogado pela primeira vez numa cidade pequena, Cooperstown, que até hoje serve como sede do Hall da Fama e museu do esporte.

Com o futebol, o jogo industrial e urbano da Grã-Bretanha do século 19, houve uma separação interessante. Dentro do Império, o descontentamento com o controle britânico se manifestava na rejeição ao futebol. Mas, no império informal - como o cone sul do nosso continente -, o mesmo descontentamento tomava forma muito diferente. Formaram seus próprios clubes de futebol, onde os ingleses não mandavam. (Vale observar também que o futebol virou o esporte do movimento anti-apatheid na África do Sul).

A pergunta, então, que não quer calar é: por que a previsão de Graciliano Ramos foi tão errada?

A primeira linha de defesa é que ele estava se referindo somente ao sertão, e não ao Brasil todo. Isso tem algum fundamento, embora o seu artigo não seja totalmente claro nesse ponto.

Mesmo assim, trata-se de uma defesa estranha. "As cidades regurgitam de gente de outras raças", escreve, "ou que pretendem ser de outras raças; nós somos mais ou menos botocudos, com laivos de sangue cabinda ou galego." Nao é possível entender por que uma onda de imigrantes ele considera "autêntica" e outra, posterior, não.

Mas claro que uma cidade do interior, antes da massificação do rádio, não era o lugar ideal para oferecer uma perspectiva sobre as possibilidades do futebol. É o esporte da cidade, e fincou raízes no Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires e Montevidéu no momento exato do aumento incrível de tamanho desses lugares.

A chegada em massa de migrantes - alguns internos; outros milhões da Europa e do Oriente Médio - ofereceu terreno fértil para o crescimento do futebol. De repente havia grandes espaços urbanos, cheios de pessoas a fim de novidades - pessoas procurando uma língua em comum, a língua da bola.

Aqui temos que frisar as próprias características do jogo. É barato, sem a necessidade de equipamento especial. Em comparação ao rúgbi e outros esportes de contato, é relativamente não violento, com menos chances de se machucar - uma consideração importante numa época em que o trabalhador que faltava passava fome. Não é preciso ser alto para jogar, então todos os biotipos tinham vez.

Por esses motivos, foi impossível a elite local manter o futebol só para ela. Com uma rapidez extraordinária, o futebol tomou conta do imaginário de todos os níveis da sociedade - e logo se fez mais uma descoberta sobre esse esporte: pode ser interpretado de várias maneiras.

A gama de opções é extensa: o jogador em posse da bola pode passar para frente, para trás, para o lado, em diagonal, em distância longa ou curta, pelo chão ou pelo alto. Nem precisa passar. Pode correr com ela, driblando se assim quiser.

Com tantas possibilidades, logo ficou evidente que, mais do que em qualquer outro esporte, uma pessoa, ou uma cultura, pode se expressar através da sua maneira de jogar futebol - e da sua maneira de observar, analisar, torcer.

Jogado no chão, o futebol revelou-se uma atividade feita sob medida para o sujeito com centro de gravidade baixo - o biotipo de muitos sul-americanos. Desenvolveu-se uma escola sul-americana, com um jogo não somente bonito, mas também vitorioso e superior aos próprios inventores do esporte. Vingavam-se assim os povos de Uruguai, Argentina e Brasil contra os donos do poder formal.

E o ex-esporte bretão se transformou numa prova alegre de brasilidade. Aposto que hoje em dia até um Graciliano Ramos ficaria feliz que, um século atrás, tantos de seus conterrâneos não seguiram seus conselhos e optaram por meter os seus bedelhos.

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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