Como um fundador do MBL deu o 'pontapé inicial' para a carreira de Pabllo Vittar

André Shalders - @shaldim - Da BBC Brasil em São Paulo

O que a cantora pop Pabllo Vittar e o Movimento Brasil Livre (MBL), da direita conservadora, têm em comum? À primeira vista, nada. Pouca gente sabe, porém, que um dos fundadores do MBL, o publicitário Pedro D'eyrot, foi quem deu o "empurrão" inicial para alavancar a carreira da drag queen.

No fim de 2014, Pabllo Vittar já tinha uma carreira artística em Uberlândia (MG), onde ainda mora. Mas ainda estava longe de ser conhecida nacionalmente, e de atingir os números impressionantes que tem hoje: 6,1 milhões de seguidores no Instagram, 4 milhões de ouvintes mensais no Spotify (aplicativo de música), e mais 1,7 milhão no Facebook.

Ainda em 2014, o publicitário Pedro D'eyrot, 34, estava começando a deixar de lado a cena musical pop e a banda "Bonde do Rolê", da qual fazia parte, para participar da fundação do MBL. O grupo ocupou o posto principal de mobilizador dos protestos que resultaram no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Hoje tem 2,5 milhões de seguidores no Facebook.

Muito antes de Dilma Rousseff deixar o Palácio do Planalto, em 2015, Pedro D'eyrot "apresentou" Pabllo Vittar ao produtor musical Rodrigo Gorky, 37. Gorky produziu as primeiras faixas de Pabllo que "bombaram" nas redes sociais. É o caso de Open Bar, uma versão do hit Lean On, do grupo americano Major Lazer. A música saiu em outubro de 2015 e soma 54 milhões de visualizações no YouTube.

"Ele (Pedro D'eyrot) estava indo para o MBL e eu queria continuar na produção musical. Aí ele me mostrou o Instagram (da Pabllo). Ele disse: 'Você está sempre vendo o Ru Paul (do reality show Ru Paul's Drag Race), talvez funcione para você (produzir a Pabllo)", conta Gorky sobre o episódio. "Tudo que existe de contato entre a Pabllo e o Pedro é isso", frisa.

"Eu encontrei a Pabllo no Insta. Nessa época (fim de 2014 e começo de 2015), já tinha começado a trabalhar com o MBL. 'Gorky, você precisa, precisa, precisa assinar (produzir a cantora)'", narra Pedro D'eyrot. "Ele (Gorky) no início não estava muito interessado em assinar, estava atribulado com outras coisas. Mas no fim acabou assinando", conta o fundador do MBL.

"É claro que o mérito da produção é todo do Gorky. Nessa época, eu não trabalhava mais nisso. Ele atuou muito bem. E Pabllo tinha um nicho para ocupar, o que ela fez de forma fantástica", opina D'eyrot.

"Vi ela cantando no Instagram e fiquei hipnotizado. Foi meio mágico. Eu vi e falei 'mentiraaa!'. Fiquei chocado, de uma maneira positiva", diz Gorky.

"Pabllo sempre correu muito atrás das coisas. É uma pessoa persistente, que não se abatia com um não, que estava fazendo acontecer. No momento que a gente começou a trabalhar ela já estava fazendo acontecer", diz Gorky, que continua produzindo Pabllo. Naquela época, conta o produtor, a artista já fazia shows semanais em Uberlândia e cidades próximas. "Tinha um potencial ali que não estava sendo trabalhado ao máximo", conta o produtor musical.

Além do Bonde do Rolê, Gorky já tinha produzido a Banda Uó, nessa época ainda junto com Pedro. Os dois também moraram juntos em Curitiba (PR) por três anos, antes de se mudarem para São Paulo (SP). Um dos integrantes da Uó, Matheus Carrilho, contracena com Pabllo no clipe de Corpo Sensual (2017).

Contradição?

Pedro D'eyrot não vê qualquer contradição entre ser um dos líderes do MBL - que defende posições conservadoras e liderou prostestos contra a exposição "Queermuseu" - e ter dado o "empurrãozinho" na carreira de Pabllo, ou de ter integrando o Bonde do Rolê, que fez sucesso com o público LGBT.

Hoje, ele diz que "diverge politicamente" dos ex-colegas de banda como Gorky. "Mas não deixamos de ser amigos".

O MBL, diz Pedro, não teve nenhum envolvimento em um episódio no qual o canal de Pabllo no YouTube foi hackeado, em agosto passado. "Foram uns bolsominions (seguidores do deputado e presidenciável Jair Bolsonaro, do PSC-RJ) que fizeram aquilo, não nós. Seria contrário aos princípios do MBL fazer isso. Eu até conversei com o Gorky na época, ofereci ajuda para tentar identificar quem fez", conta.

Em entrevista recente à BBC Brasil, Pabllo disse que este episódio e outros ataques não o intimidam. "Tô vacinado contra ataques, tenho meus fãs me apoiando, meus amigos, minha família. Podem falar o que quiser, mas não vamos nos calar, não. Vou continuar fazendo meu trabalho", afirmou.

O artista disse esperar, porém, que o país amadureça e respeite a individualidade de seus cidadãos.

E o protesto contra a exposição "Queermuseu"?

"O MBL não é contra a arte, a nudez, etc. O MBL se pronunciou contra coisas específicas: primeiro o fato de haver um aspecto criminal ali, do edital do BNDES (que patrocinou a mostra) prever que fossem feitas visitas de escolas, para ver um conteúdo adulto; e depois o fato de usar dinheiro público. As pessoas que estavam custeando a exposição por meio dos impostos resolveram boicotá-la", diz Pedro.

"Coisa totalmente diferente é a Pabllo tocar para o público dela, que vai ao show por vontade própria e pagando do próprio bolso. Não temos nada contra isso", diz o publicitário.

"Leis da viralização"

"As duas coisas (MBL e Pabllo) são fenômenos da internet. Obedecem aos mesmos princípios. Estão sujeitas às mesmas leis de viralização e afinidade ideológica", diz Pedro D'eyrot.

"Quando eu vim para o MBL, e para a campanha do Paulo Batista (candidato a deputado estadual pelo PRP-SP em 2014, produzida por ele e Renan Santos) o desafio era esse: o que dava certo para divulgar uma banda (como o Bonde do Rolê a Banda Uó) dá certo para divulgar uma ideologia política?", D'eyrot acha que sim.

"Tanto o artista quanto a ideia política existem porque tem esse poder de propagação. Faz parte das boas ideias, dos bons artistas e das boas histórias serem apreciadas em conjunto, por muita gente", diz.

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